quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XV - A Inconveniência de Bob Esponja e de John Wayne



Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XV – A Inconveniência de Bob Esponja e de John Wayne – 06 de Janeiro

Tudo seguia conforme um dia normal: saímos do trabalho às 17h e vamos até a Boulevard de La République pegar um táxi. Eu me escondo e Wilfred chama o táxi – velha estratégia para não pagar mais caro. Pegamos o táxi, passamos 60 minutos no trânsito caótico, chegamos em Yopougon e vamos até a favela de Andokoi, onde moramos. Suado, podre e cansado, vou tomar um banho.

Até aí, nada de diferente. Após o jantar, estou a ler Romanos, quando de repente ouço uma gritaria no cortiço. “Mais uma vez festa! Ô povo pra não acabar pilha!” – penso enquanto aguardo o iminente funk marfinense começar. Termino Romanos e a gritaria lá fora está como nunca. Vou lá conferir e não posso sair porque todas as crianças estão à porta espiando o pátio. São 10h da noite e a iluminação não é muito boa, só vejo uma muvuca no pátio e gritaria, mas estranho que não haja música. “A galera está é brincando!” – concluo. Diante disso, solto um grito muito famoso em minha família chamado de “Bob Esponja”.

Para explicar, o “Bob Esponja” é um brado inspirado no amado personagem infantil de mesmo nome e extremamente utilizado entre mim e meus primos (que são mais bobos do que eu) para fazer troça com qualquer coisa.

Voltando ao assunto, após o “Bob”, as crianças capotaram de rir. Acharam a coisa mais cômica. A Benedicte – bandida – aproveitou-se e veio me abraçar e pediram bis. Para variar para minha excelente platéia, soltei o “John Wayne”.

Outro parênteses: JW é outro grito na família inspirado no nobre personagem de Marrion Morrison, John Wayne, a lenda dos westerns. Esse não é o brado de John Wayne quando ele conduz a diligência em Rio Lobo (o famoso “ia-iá!”), mas o do John Wayne chamando seu cavalo para perseguir os índios em Rastros de Ódio. O brado JW, tal qual o “Bob”, serve pra tirar sarro de qualquer coisa.

Retornando, a bagunça lá fora continuava e as crianças aqui dentro ainda gargalhavam do “John”. Entretanto, o “Bob” caiu nas graças da molecada, que pediu um bis dele. Soltei mais uma vez o “Bob”, para alegria geral. No entanto, deixei de atentar nas crianças e passei a atentar pra muvuca lá fora. Ao fazer isso, descobria que não era uma das habituais brincadeiras ou jogos, mas uma briga! Pensei: “Meu Deus, tem 30 pessoas logo ali brigando!” A verdade é que nem todos estavam brigando, a maior parte estava tentando apartar uma briga. Dessa hora em diante, tive certeza de que não se tratava de um dia normal.

Pouco depois desse momento, quando me dei por mim, um homem sai do meio da muvuca bufando de ira em direção à casa. Era o “papai”. Ele passa por todos nós sem nos olhar, entra no quarto e sai com uma corda. Nesse momento, a risada cessa e as crianças imploram para que ele fique em casa e não vá lá pra fora. Ele é como o líder do cortiço e não pode deixar o caos tomar conta, então vai lá pra fora do mesmo jeito. Pergunto ao Franc o que está havendo, mas ele só me diz que a mãe do Chrisso, o bebê, tem uma disputa com o irmão dela e ele sempre vem pra cá pra discutir com ela acerca do assunto e eles estão sempre brigando (disso eu já sabia, pois já vi várias vezes), mas dessa vez, a família inteira estava aqui e se dividiu e a muvuca era eles brigando entre si! Além disso, a mãe do Chrisso parece que pegou uma navalha pra atacar o irmão. Enquanto o papai põe ordem na bagunça (ele é gigante e super forte), ponho a molecada pra dentro de casa.

Passado o susto, algumas resoluções.

1. Falei com a AIESEC para me arranjar outra acomodação. Morar na favela mais pobre (Andokoi) do distrito mais pobre (Yopougon) de Abidjan num cortiço em cuja latrina 30 pessoas defecam diariamente e tomar banho de balde a centímetros dessa latrina tudo bem, mas barraco de vizinho com direito a navalha não dá.

2. Pais (brasileiros mesmo): não quero vocês se preocupando. Não quero! A situação já está sendo resolvida. Simplesmente orem.

Interessante que, após o tumulto, tudo voltou ao normal. Foi aí que dei por mim: o que eu achava que era festa era briga. Imagino o que pensou o povo no meio do quebra-pau ouvindo um “Bob Esponja” seguido de um “John Wayne”, que foi seguido ainda por outro “Bob Esponja”.

O le blanc maluco termina por aqui reforçando o pedido aos meus amados pais brazucas, vulgos “pidos”, que não se exasperem. Pensei muito se devia postar esse relato hoje ou se devia esperar eu mudar de acomodação, mas decidi que não há motivo nenhum para preocupação, pois a Providência me trouxe em segurança até aqui e tenho fé que continuará a me guiar. Todas as providências foram tomadas e simplesmente aguardo a AIESEC daqui dar meu novo endereço. Pidos, peço que sigam o conselho do Cristo em Jo 6:10 e assentem-se na relva e esperem. Vocês me ensinaram bem, por favor, fiquem tranqüilos e deixem que eu me resolva por aqui, ok?

Amo vocês, obrigado pelas orações e que Deus os guarde como tem guardado a mim.

« Jésus dit: Faites-les asseoir. Il y avait dans ce lieu beaucoup d'herbe. Ils s'assirent donc, au nombre d'environ cinq mille hommes. » Jean 6 :10

2 comentários:

Ligia disse...

As crianças devem estar pensando: esse "le blanc" adora um barraco!rs
Mas é uma pena, a família parece muito amável...

Sara de Cerqueira disse...

Neithein, o teu "pai" ganhou a briga, pelo menos?
Já q é pra ter briga, que seja o nosso lado o vencedor, né? Não que eu goste de briga, claro. Sou um anjo. :P

Te amo!
Te cuida aí. Qualquer coisa, só avisa q te dou uma visitinha e ponho esse povo pra correr. hehe