terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato II - Recepção da Família


Registro de Viagem: Costa do Marfim
Relato II – Recepção da família – 11 e 12 de dezembro


A casa em que estou mal pode ser chamada casa pelos padrões brasileiros. É, na verdade, um cortiço em que várias famílias moram. Não há encanamento interno em nenhuma das casas e a higiene pessoal e as necessidades fisiológicas são feitas fora da casa. Há dois banheiros para todos os habitantes do cortiço, entretanto, os banheiros também não possuem encanamento!

Como antigamente, encho um balde d’água e vou para a salle de bain (sala de banho). Lá me lavo. Também, há um buraco em que as pessoas se acocoram para defecar. Não é piada, há mesmo. Há, inclusive, para maior conforto do, por falta de palavra melhor, defecante, apoio para os pés a fim de que não se escorregue. Durante o banho, o cheiro de urina (lembrem-se: não há descarga!) reina no banheiro. O banho não é a parte mais difícil, tomo um de manhã e outro à noite, o mais difícil é o velho cocô. No momento em que escrevo, admito que não fiz nada desde antes do vôo à Paris, dois dias atrás. Quem me conhece sabe que isso é muito incomum.

O quarto também não é muito grande. Divido-o com meu “irmão”, Franc. Devo ser mais específico: dividimos a cama. Não há espaço e dividimos a cama. Entretanto, mesmo com todas essas limitações, a família tem sido extremamente adorável e feito de tudo para me deixar confortável. São verdadeiramente uns amores.

Quanto ao local em si, descobri que Yopougon não é bairro de Abidjan, mas sim um distrito independente com prefeito e tudo mais. Hoje fui a uma cerimônia em que foi entronizado o chefe da vila. Esse chefe é autoridade popular, não política. Filmei a cerimônia e é algo realmente tribal. Feiticeiras jogavam farinha no caminho para espantar espíritos imundos, meninas com pinturas místicas e pouca roupa acompanhavam o novo chefe e chefes de outras vilas vieram para celebrar a posse do sujeito. O trono é hereditário. Após isso, voltei pra casa filmando e os militares quiseram levar minha câmera embora porque eu os filmei. Eles mandaram apagar. Apaguei e segui.

Chegando em casa, almoçamos pão com ovo enquanto todos assistia Maria Du Quartier (Maria do Bairro). A Talia é um grande sucesso na TV familiar marfinense. Interessante é que as pessoas comem com as mãos, mas bebem com talher. Hoje, bebi meu achocolatado numa tigela com uma colher, mas o peixe do jantar de ontem foi com a mão. Pois bem, depois da novela, tira foto de uma das crianças a seu pedido, o que tem como conseqüência imediata o pedido de todas as crianças para que tire foto de cada uma delas sem a reca. Se tem coisa que não falta aqui é criança, então passei um bom tempo nessa atividade.

Outra coisa que se nota aqui é a perambulação sem destino. Todo mundo está na rua o tempo inteiro. Imagino que, com as condições de vivência no país, ficar em casa não seja muito confortável. Onde quer que eu ande, não faltam ruas com crianças brincando no chão sujo, gente vendendo comida perto de amontoados de lixo, roupas estendidas por todo lugar e jovens rapazes perambulando sem destino vestindo camisas dos times europeus.
É tudo muito diferente de tudo que já experimentei e minha expectativa é que o distrito comercial de Abidjan, onde trabalharei, seja tão desenvolvido quanto pareceu nas fotos. Se minhas expectativas se concretizarem, minha higiene pessoal (se tomo banho de balde aqui, tomo banho de pia lá) e meu uso do banheiro (latrina-buraco-fossa é dose) serão estritamente lá. Também, não me importarei em dormir por lá algumas noites.
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12/12
Já é noite e estou muito feliz! Descobri uma igreja batista por aqui e, o melhor de tudo, fiz cocô numa privada! Fui visitar o outro trainee da AIESEC, que é camaronense e trabalha na mesma empresa em que irei começar na segunda-feira, e a casa dele é bem melhor do que a minha. É espaçosa e não tem tanta gente. Notando isso, decidi jogar um verde e quando estávamos somente eu e Wilfred, o trainee, comentei que a parte mais difícil da adaptação não era a língua nem a casa pequena, mas a parte do banheiro e deixei implícito que não se tratava de banho. Ele me disse que também tomava banho de balde, mas que tinha privada na casa dele. O verde não funcionou, então parti para uma estratégia nada sutil e perguntei “may I poop here?”. Ele disse que sim e me deu um rolo de papel higiênico.

Para padrões brasileiros, o banheiro era uma imundície. Para os padrões daqui e meu estado no momento, agradeci a Deus e quase chorei. A propósito, não havia descarga. Eu tinha era que derramar um balde cheio d’água na privada que tinha lá. Terminado tudo isso, saí com a alma tão leve – dentre outras coisas – que, no banho de agora à noite, cantei de alegria. Ah, o banheiro da empresa é normal, segundo Wilfred. Doravante farei tudo lá e segurarei as pontas no fim de semana.

Engraçado que hoje li Mateus 6 e o verso 34 diz: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”. Deus proveu um banheiro. Agora oro para que ele proveja água potável para que eu possa beber. Não bebo água desde que cheguei aqui. Tomei dois copos de coca-cola em refeições diferentes.

Não obstante tudo isso, a prestatividade da família é surpreendente. Esforçam-se por fazer-me o mais confortável possível. Se faço menção de levar o prato pra bica (pra ser lavado), eles dizem que não e mandam uma das inúmeras crianças levar meu prato. Se trago a água restante do banho, eles reclamam dizendo que é pra eu deixar lá e outra pessoa pega pra mim. Franc me acompanhou pacientemente a manhã inteira enquanto eu estava na lan house e Cherone conseguiu uma família batista pra me acompanhar amanhã ao culto. É incrível. Não se cansam de serem hospitaleiros.

É engraçado que as crianças olham pra mim e riem. Eu digo “salut” e correm rindo. Eu dou um tchau e gargalham. Os adultos também me vêem passando e soltam umas risadinhas. Imagino que pensem algo do tipo: “olha que branco estranho!”.

Mais um dia termina. Mais um mal se foi. Qual será o mal de amanhã?

“Ne vous inquiétez donc pas du lendemain: le lendemainse souciera de lui-même. La Peine qui se presente chaque jour suffit pour la journée.” – Matthieu 6:34

3 comentários:

Carlos Eduardo Severini Filho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sara de Cerqueira disse...

Nossa, deve ser uma experiência e tanto!
Sei que você vai passar por momentos difíceis, mas lembre-se que são nos mares violentos que se formam os verdadeiros marinheiros!
Seria muito cômodo passar dois meses na África em um apartamento com banheiro e água potável. Passar dois meses na situação em que vc se encontra é que é difícil. E isso sim é que é passível de admiração.
Eu te amo muito e mantenha-se firme!
No final, tudo vale a pena!

Natan Cequeira disse...

Saroca, diz isso pro Pido!