terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato I - A Ida

Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato I – A ida – 10 e 11 de dezembro

Antes de falar do vôo propriamente dito, falarei de por que vim parar aqui. Há algum tempo eu já estava ciente de que precisaria do domínio de outras línguas que não o inglês. Escolhi, então, aprender francês. Estudei um ano de francês nos horários de almoço da faculdade, mas a língua era tão difícil que sabia que só aprenderia adequadamente se fizesse um intercâmbio. Sendo membro da AIESEC, decidi me valer das incríveis oportunidades que essa organização oferece para o desenvolvimento de potencialidades em jovens, daí aproveitei e misturei o intercâmbio lingüístico com o profissional.

Intercâmbio de francês, para muitos, implica necessariamente intercâmbio à França. Bem, essa nunca sequer foi minha opção. Eu queria mesmo era África, que exerce um fascínio muito maior em mim do que a Europa. De início, pensei em ir ao Marrocos, no entanto, surgiu essa vaga de marketing e vendas numa empresa marfinense, a AFCO Courrier Express, e corri logo atrás dela. Em pouco tempo, eu já estava de contrato assinado, passagem comprada para Abidjan (cidade em que ficarei na Costa do Marfim) e com o visto apropriado. Passei o segundo semestre de 2009, então, aguardando ansiosamente o dia da viagem e eis que ele finalmente chegou!

A parte da viagem mesmo foi assim: voei com a TAM de Cumbica pra Galeão, daí mudei para a Air France e fiz a rota Galeão-Charles de Gaulle-Felix Houphoet Boigny. Um parêntese: Relendo Romanos e lendo Edwards, Whitefield e Spurgeon. Finalmente compreendi plenamente a soberania de Deus. Em minhas viagens anteriores em que eu tentava fazer tudo se encaixar nos meus planos, sempre aconteciam imprevistos realmente perigosos do tipo que nos faz perder um vôo. Agora que minha viagem não é mais minha, mas dEle e eu sou apenas o lacaio, os vôos têm sido extremamente suaves e nada fatigantes. As 11 horas entre o RJ e Paris passaram rapidamente. Minhas conexões foram feitas no tempo exato e as turbulências não me incomodaram. Ele está no comando (Rm 8:23). Aliás, o melhor de tudo foi o atendimento cortês que recebi da TAM (inédito em minha experiência) e a prestatividade da Air France. Não carreguei bagagem nenhuma em lugar nenhum! Despachei tudo em São Paulo e só voltei a pegar em Abidjan, não obstante as informações anteriores à viagem dizerem que eu teria de pegar bagagem e despachá-las em todas as conexões.

Saí do RJ às 10h30 e sobrevoei o Atlântico, Portugal, Espanha e, obviamente, a França na ida. Dormi quase tudo. A comida foi excepcional. Entregaram menu e tudo mais. Estando eu habituado com o sanduíche de miolo de pão da TAM e da Gol – ta certo que essa viagem é intercontinental, mas fiquei feliz mesmo assim – maravilhei-me quando tive de decidir qual seria meu prato quente: lasanha quatro queijos ou sauté de boeuf à l’estragon, riz safrané avec carottes Vichy. Claro que escolhi esse último. Quando veio, minha idéia de era coisa muito chique se foi: era só arroz, bife e cenoura. Depois do jantar, dormi o sono dos justos e só acordei mesmo quando passávamos da Espanha à França.

Chegando ao Charles de Gaulle, peguei o ônibus (navette) e o trenzinho e fui para o local apropriado de embarque para Côte D’Ivoire. Mandei um e-mail para minha digníssima e corri pro avião. Sendo o vôo no período da tarde (14h), pude aproveitar melhor a paisagem. Saindo da França, sobrevoamos o Mediterrâneo, passamos pela ilha de Palma e adentramos a África. Olha, a África é maravilhosa. Vi a cordilheira do Atlas e o Saara parece ser infinito. Sabia que era grande, mas passamos uma três horas sobrevoando, dormi e acordei e ainda estávamos no Saara! Quer ter uma idéia esboço do que significa eternidade? Sobrevoe o Saara.

Não somente a paisagem, mas também o vôo foi agradável. Os comissários de bordo da Air France são muito simpáticos e, ao virem meu casaco do Brasil, riram e falaram comigo. Aliás, que língua difícil é o francês! Identifico uma palavra ou outra, mas por vezes tenho de pedir pra que falem comigo em inglês. Sentada ao meu lado foi uma velhinha de Abidjan. Acho que ela tem bexiga pequena, pois contei que ela foi ao banheiro pelo menos 15 vezes (sério mesmo) nos primeiros 90 minutos de vôo (sento no corredor e ela no banco do meio, aí tenho que levantar toda vez). Depois do almoço a velhinha capotou e dormiu tão profundamente que roncou! Aproveitei esse momento em que ela não tinha que ir fazer xixi pra escrever parte do que vocês estão lendo agora.

Chegando ao aeroporto de Abidjan, Feliz Hophouet Boigny, passei rapidamente pelo cheque do visto. De lá fui pegar minha bagagem. Fiquei impressionado com a inconveniência dos sujeitos na bagagem. Muita gente se oferecendo pra ajudar em troca de dinheiro. Eu dizia que não queria e os homens insistiam. Uma moça marfinense que voltava dos EUA falou comigo em inglês dizendo para evitá-los e ela falou em francês com eles e foram embora. Daí, fiquei com ela e seu motorista até o momento de sairmos. Ela disse que a atividade desses sujeitos não era legal, mas que eles davam parte do dinheiro para os guardas e por isso tinham entrada permitida. A corrupção na África é endêmica.

Saindo do aeroporto, encontrei os rapazes da AIESEC e pegamos um táxi em direção ao local em que eu ficaria.

“Soyez donc parfaits, tout comme votre Père qui est au ciel est parfait” – Matthieu 5:48

PS: Não tenho acesso à internet em casa (nem a água encanada, ou privada, ou fogão a gás, ou chuveiro). Família, fique tranquila seu eu não puder falar com vocês o tanto que gostaríamos. Farei de tudo para dar sinal de vida. Abraços a todos.


3 comentários:

Julia disse...

Natan adorei!! boa sorte aí...
ver o Saara do avião deve ter sido inesquecível mesmo!

beijos

Natan Cequeira disse...

Foi mesmo, Julia! O saara é absurdo de insano!!

AndreMLopes disse...

rapaz só vi seu blog hoje... mas aproveita aí...
mesmo que não tenha água fogão gás luz e sei lá mais o que vai ser uma viagem muito legal e importante pra sua formação!!!
Boa sorte e continue escrevendo.

Pelo menos talento pra se tornar um escritor você tem.

Abraço