segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XI - O Bolo, Indignação e o Duelo Galinácio


Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato X – Bolo, Indignação e o Duelo Galinácio– 26 de Dezembro

A viagem pra Niamé foi cancelada porque o familiar que nos receberia está doente. Eu também não estou muito bem. O nariz entupido resistiu à semana inteira e perdura agora no fim de semana. Além disso, os mosquitos marfinenses têm feito a festa com o sangue do le blanc aqui a despeito de seus esforços com repelentes e afins. Por algum motivo, eles só atacam minha perna direita. Mostrei pros pais da família e, pelo que entendi, a mãe vai fazer um repelente com as ervas medicinais da casa e eles trocaram a fronha do travesseiro e a colcha da cama. Eles são muito gentis e fazem de tudo para me deixar sadio e confortável, graças a Deus.

Com a viagem cancelada, Wilfred arranjou um programa pra gente fazer. Aqui em Yopougon, a irmã do presidente da AIESEC Côte D’Ivoire, Levy, se casou hoje, sábado, e fomos convidados. Combinamos que nos entraríamos no terminal de Yopougon às 11h da manhã e de lá partiríamos juntos para o casamento. No horário combinado, eu e Wilfred estávamos lá, mas não o presidente. Às 12h15, ligamos para Levy para saber onde ele estava, pois esperávamos desde antes das 11h. Ele disse que ia tomar banho para sair. Decidimos, então, ir ver apartamentos para alugar, pois a noiva de Wilfred e sua filha vão se mudar para cá. Por volta das 12h40, Levy liga e pergunta onde estávamos. Wilfred pede para que ele espere quinze minutos, pois estávamos vendo um apartamento. Levy diz que não pode esperar e que vai sem nós. Ou seja, esperamos quase duas horas pelo bonitão, mas ele não nos pode esperar por quinze minutos.

A falta de pontualidade, pode-se observar, é tão endêmica na Costa do Marfim quanto a preguiça dos profissionais, a corrupção das autoridades e a palermice da polícia. Não há nada, friso, absolutamente NADA, nesse país que comece no horário. Empresas, escolas, aeroporto, órgãos do governo e conferências da AIESEC. Tudo se atrasa e não são apenas “quinze minutinhos”. Os atrasos daqui são de 50 minutos pra lá. Aliás, em relação a AIESEC, nota-se uma verdadeira diferença entre o escritório do qual faço parte – AIESEC na FGV – e a AIESEC em Côte D’Ivoire. No escritório da FGV, somos todos muito novos, mas levamos o trabalho a sério. Levamos os intercambistas para conhecer a cidade, nos comunicamos com eles com freqüência para saber como estão se adaptando ao novo ambiente, escolhemos empresas boas para que eles trabalhem (não empresas em que o INSS local ameaça fechar devido a falta de pagamento dos direitos dos empregados) e lhes enviamos avaliações no início, no meio e no fim do intercâmbio para saber como eles avaliam o nosso suporte a eles. É com orgulho que digo que a AIESEC na FGV prima pela qualidade. A AIESEC aqui, por outro lado, é praticamente inexistente pra mim. NUNCA recebi uma avaliação deles para responder, NUNCA me fizeram uma ligação para saber como estou e NUNCA me levaram para fazer o tour da cidade. Pelas regras internas da AIESEC Internacional, uma hora haverá alguma avaliação para eu preencher com fins de avaliar a qualidade de serviço para com o intercambista. Quando eu for preencher a avaliação, não serei mau com a AIESEC daqui, serei justo e isso bastará.

Graças a Deus não preciso da AIESEC daqui. Achei favor a Seus olhos e Ele me pôs numa família maravilhosa e com um vizinho-colega de trabalho-amigo muito prestativo. Não fosse por Wilfred e pela família, não sei como estaria minha adaptação aqui. O escritório da FGV, na verdade, está me dando mais suporte do que a AIESEC local! A Diretora de Intercâmbio, Mariana Hermanny, ciente da tendência malandra do meu chefe, já se prontificou a tratar com a AIESEC Côte D’Ivoire caso ele atrase meu salário. Apesar de eu apreciar a prestatividade e a iniciativa, duvido muito que a AIESEC daqui possa fazer muita coisa, pois eles são irresponsáveis financeiramente e devem 900’000 francos (=US$20’000) pra AIESEC International. Entendam que não estou murmurando ou insatisfeito com o fato de estar onde estou, o motivo de minha indignação é que eu estou cumprindo um acordo escrito e a outra parte não está. Graças a Deus, ele tem providenciado mais do que eu preciso, pois sua graça me basta.

De qualquer forma, voltando ao cotidiano, joguei bola com a molecada, levei uma queda após cerca de 20 crianças pularem no coitado do le blanc e presenciei um duelo de frangos. Esse último merece uma rápida menção: um frango ciscava no local de outro frango e o frango proprietário, sentindo-se injuriado pelo frango invasor, botou-o pra correr. Voaram penas e cacarejos pra todo lado. Nunca vi um frango tão zangado por ter sua “propriedade” invadida.

Sujo, suado e cansado, tomei banho, fiz ainda algumas brincadeiras de roda com as crianças e vim jantar no quarto, onde, no momento, também escrevo este relato. Depois, irei avançar em minha leitura de Lucas e vou dormir.

Obrigado pelas orações e que Deus os abençoe como tem abençoado a mim.

« Nul ne peut venir à moi, si le Père qui m'a envoyé ne l'attire; et je le ressusciterai au dernier jour » - Jean 6 :44

2 comentários:

Ligia disse...

Quanta organização, hein..
Imagino como vc deve ter ficado feliz com o ocorrido do casamento, eu que sei o quanto vc preza por pontualidade!rs

Natan Cequeira disse...

Fiquei uma arara com o rapaz. Não pode esperar 10 minutos? Mas fazer o quê? This is Africa.