segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XXIV - Alegre e Efusivo





Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XXIV – Alegre e Efusivo – 06 a 08 de Fevereiro

Quem me conhece sabe que não sou particularmente fã de demonstrações de pessoas efusivas. Sabem aquele pessoal que berra, grita, faz pirueta e dá cambalhota pelos mais insignificantes motivos? Há quem brinque, inclusive, que sou alérgico à felicidade e diversão. Esse não é o caso, simplesmente demonstrações em excesso me incomodam. Hoje, contudo, motivo de alegria tal me sobreveio que me permitirei demonstrações extremas de alegria. Claro que o fato de ter ido a uma praia linda com os libaneses nesse fim de semana me deixou contente; claro que poder usufruir da boa companhia do Sr Reda, meu anfitrião, e de nossas boas conversas faz meu dia. Mas o dia de hoje brindou-me com a visão do resultado positivo do que acho que será meu legado para a AFCO: destruí um de nossos mais vorazes inimigos internos, o ratinho comilão de dinheiro, cheques e faturas.

Permitam-me explicar: na saleta em que eu, Wilfred e a contadora trabalhamos há um rato. Todo dia de manhã, abrimos a saleta e tem papel por todo lado porque o bandido passou a noite pulando nos papéis por aí, comendo tudo que é documento e tudo mais. Para dar fim a essa esculhambação, fiz uma armadilha (foto número 1) muito simples na sexta-feira passada, dia 5: pus comida no meio duma caixa de papelão e passei cola ao redor. Não comentei nada na última postagem porque eu queria aguardar o resultado dessa empreitada antes. Eis que chego hoje de manhã, e o bandido está preso!!! HAHAHAHAHAHAHA!!! MORRAAAAAAAAA!!! TE PEGUEI, RATO DESGRAÇADO!!! VOCÊ JÁ ERA!!!

Pode parecer uma efusividade um tanto doentia, pois se trata apenas de um rato. Mas significa mais, significa minha vingança sobre toda a malandragem africana. Depois de sofrer repetidas tentativas de roubo, extorsão e pilantragens gerais por parte dos africanos (não somente marfinenses), eu peguei o rato que roia nosso trabalho às escuras, que nos sabotava quando menos esperávamos, que esperava que olhássemos para o outro lado para botar as patinhas de fora. Como diria o (nada) filosófico Alborghetti para comunistas: “O SONHO ACABOU, DESGRAÇADO!! O SONHO ACABOU!!” Favor notarem minha alegria na foto 2. Quando voltar a São Paulo e tiver internet de gente, postarei no Youtube um video que fiz escarnecendo do rato preso na caixa de papelão após ser lançado no lixo. HAHHAHAHA MORRAAAA!! Ha..ha...haha... Para aqueles que, após verem esse meu ataque de histeria virtual, acham que a África acabou com meu emocional, não posso dizer que consigo peremptória e categoricamente contradizê-los.

Já estou me cansando de rir, mas terei que me valer disso, pois enquanto escrevia esse relato, o chefe me chamou para dar um aviso. O Sr Happy já me avisou que essa semana a empresa está meio sem dinheiro. Sendo também essa semana a minha última de trabalho, isso significa que Ho = eu não receber meu salário com 95% de confiança. Mas isso é para que eu deixe de ser burro e bonzinho. Semana passada, ele perguntou se eu não queria receber meu salário. Ora, sabendo que tínhamos fornecedores para pagar, eu disse a ele que eu poderia aguardar para receber na semana seguinte (ou seja, essa semana), pois a AFCO tinha alguns compromissos mais urgentes para honrar. Eu sou muito otário mesmo.Pensar na empresa... Mas isso é culpa do meu pai e da minha mãe. Quem mandou eles me ensinarem ética e responsabilidade corporativa? Droga! Se não tivessem ensinado, eu teria simplesmente pegado a grana semana passada e tocado o dane-se para a AFCO e pro Sr Happy. Quem se importa com o patrão e a empresa? Sou mais eu![/ironic] Brincadeirinha, pidos. Não me arrependo de ter agido conforme o livro de Filemon. Mas vou te contar, viu. Ser honesto dá mais dor de cabeça do que fazer falcatrua por aqui. Sinceramente, se o Sr Happy me der o calote, eu vou fazer o quê? Recorrer à justiça na Costa do Marfim? Apelar para a AIESEC daqui (popular como sou entre eles, heheh) Pfff... US$150 não é tanto dinheiro assim, mas só o fato de alguém se aproveitar de uma situação vulnerável para não pagar por um serviço prestado me deixa enervado. É algo que eu nunca veria meus pais – que foram meus mentores em toda a minha formação: espiritual, ética e acadêmica – fazendo com seus funcionários.

Mas não tem problema. Primeiro porque pode ser que eu esteja me preocupando à toa e o Sr Happy de fato me pague até o fim da semana. Segundo, eu peguei o rato!!! JÁ ERA, NEGÃO!! PERDEU, PLAYRAT!!! MORRA LENTAMENTE GRUDADO NA MINHA ARMADILHA!!! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAH...HAHAH....HAHA..HA...hahaha..ha O rato aprendeu a lição: não se meter com as armadilhas de Indiana Neitan(foto 3)!

Agora, conto os dias pra ir mochilar e depois voltar ao Brasil. Abraços a todos e fiquem com Deus.

« Serviteurs, soyez soumis en toute crainte à vos maîtres, non seulement à ceux qui sont bons et doux, mais aussi à ceux qui sont d'un caractère difficile. » 1 Pierre 2 :18

PS : A foto número 4 eu tirei quando estava indo para uma reunião hoje mais cedo. Está escrito “Por você, seu próximo e sua nação” embaixo dos dizeres “banheiro público”. Devo dizer que esse banheiro patriótico realmente mexeu comigo e pensarei na Costa do Marfim na próxima vez em que eu cortar o rabo do macaco.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XXIII - Surpreendente AFCO




Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XXIII – Surpresinhas AFCO e o Trabalho Estúpido – 04 e 05 de Fevereiro

Como não podia deixar de ser, a AFCO me surpreende a cada dia que passa. O Sr Happy redigiu um aviso, imprimiu e botou lá na recepção da empresa. O aviso era para informar o descontentamento do chefe com as reclamações que ele ouviu da administração do edifício: os zeladores flagraram funcionário AFCO urinando na garagem do subsolo. Não somente, ontem, dia 04, estando eu compenetrado em procurar algo produtivo pra fazer por aqui, o telefone da saleta toca e um dos caras que trabalham no andar de baixo, Keskelys, fala em inglês comigo. Não entendo bulhufas do inglês dele e digo que pode falar em francês mesmo. Ele queria saber qual era a tradução para uma certa palavra. Peço para que soletre e ele diz: D-I-C-K-S. Bem, dicks, em inglês, é o plural de dick, que é coloquialismo vulgar para “pênis”. Escolhi dar ao meu colega o benefício da dúvida e desci para saber exatamente o que ele queria que eu traduzisse. Desci e vi que ele estava num bate-papo num computador em que um cara lhe perguntava: “é verdade que os africanos têm dicks maiores do que nós, europeus?”Mais uma amostra do rendimento dos nossos funcionários!

A AFCO nunca nos deixa de surpreender, seja pela completa falta de produtividade, seja pela má gestão ou seja pelos estranhos bate-papos em que seus funcionários passam o dia inteiro. O estado da estrutura do patrimônio do local também me surpreendeu agora há pouco. Minha débil cadeira finalmente quebrou. Fui pegar outra cadeira, sentei e levei um tombo, batendo até minha cabeça contra a estante de metal atrás de mim: sua perna traseira esquerda estava danificada. Estando todas as outras cadeiras ocupadas e meu galo na nuca latejando, entrei na sala do chefe, interrompi a reunião e informei das cadeiras. Ele disse que era só eu ir atrás de uma e exigiu que eu mostrasse mais pro-atividade. “Chefe, você não entendeu, eu vim aqui justamente para pegar sua cadeira.” Ele consentiu e peguei a cadeira do birô dele (ele estava sentado na mesa de reunião com o outro sujeito). Agora, tenho uma cadeira confortável e macia, mas grande demais para a saleta. Não estou nem aí! Mexi umas coisinhas pra cá e outras pra lá. Passarei minha última semana de trabalho (a próxima) sentado em grande estilo!

A cadeira de grande estilo se fará necessária na próxima semana, pois começamos um trabalho manual estúpido que vai exigir minha permanência na cadeira o dia todo. Uma empresa reclamou que nossos entregadores não faziam as entregas de suas encomendas apropriadamente. Fomos averiguar a situação e eis que o motivo é bem simples: os destinatários das encomendas não existem nos endereços listados pela empresa remetente. Poxa, se nem eles têm dados precisos dos próprios clientes, por que raios teríamos nós? Nossa única função é levar a entrega/fatura/conta até o endereço informado. Mas tudo bem, legal que o Sr Happy é, ele nos pôs à disposição para atualizar a lista de endereços! Êêêêêêê! O que ele esqueceu, contudo, é que a organização urbanística de Abidjan é ridiculamente primitiva e ele prometeu que nós forneceríamos dados que nem o governo daqui tem. Vou te contar, viu.

Estou agora com uma lista de 800 clientes, buscando na internet um número de telefone que seja para poder ligar pro pessoal e pedir a localização geográfica da empresa. Como se diz no Ceará, isso é trabalho de corno. Qualquer semi-analfabeto poderia fazer isso. Não precisavam de um estudante universitário. Mas tudo bem, quando chegar a hora de estagiar, mencionarei na entrevista que sou proficiente em todas as atividades típicas do estagiário: ir ao banco, comprar pão, fazer fotocópias e realizar trabalhos manuais que macacos treinados poderiam executar. Ninguém me segura!

Bem, terminei a lista provisória que é para ser entregue hoje ao meio-dia. Terminei meia hora antes do prazao e já despachei com um dos rapazes para ir lá na empresa entregar o que nós temos. Eu duvido muito que eu vá terminar os 800. Simplesmente não há informação sobre nada aqui. Bem, é minha última semana e eu estou com a cabeça mais na viagemd e volta do que fazer serviço pro Sr Happy.

Abraços a todos e que Deus os abençoe.

« J'ai vu tout ce qui se fait sous le soleil; et voici, tout est vanité et poursuite du vent. » Ecclésiaste 1 :14

PS: A foto com a gravata curta foi o dia em que eu decidi ir pro trabalho com a gravata à moda africana.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010