quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XXII - Historias de Happy





Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XXII – Historias de Happy – 28 de Janeiro a 03 de Fevereiro

O Sr Happy Happy sempre foi uma figura que me intrigou bastante. Eu ouvia muitas histórias acerca dele e nunca dei muito crédito, pois, no fim das contas, era do chefinho de quem estávamos falando. Logo no início do meu estágio, ele contou como adorava São Paulo pela diversidade e quantidade de santas senhoras com quem ele previamente acertava um preço para passar a noite. Ele contava suas peripécias eróticas na Rua Augusta em alta voz e com muitos detalhes e deixava a pobre da Madeleine, a secretária, ruborizada. Eu não achava que alguém podia ser tão tarado, até que eu fiz a manutenção do computador dele e apaguei os cookies que o AVG acusava terem vindo de sites com nome para lá de suspeitos como “redtube.com” e “bangbrothers.com”.

Que meu caricato chefe era tarado, isso eu pude perceber logo de início. Mas isso não dava necessariamente credibilidade para as outras histórias que eu ouvira tanto de sua boca como da boca de outros, tipo ele ter sido próximo de Felix Houphouet Boigny (primeiro presidente da Costa do Marfim e que governou por 32 anos).

Pois bem, hoje, quando chegou, chamou-me para fazer o trabalho desafiante de sempre: xeroquei umas coisas, fui ao banco e depois ajudei a fazer a limpeza de seu escritório. Passado um tempo, acho uma foto do chefitchoxxx com o finado Houphouet. Encho a bola dele e pergunto quão próximos eles eram. Sr Happy responde que trabalhou diretamente no gabinete da presidência. Eu sabia que ele tinha feito carreira política, mas o bandidão nem eleito foi; foi apontado mesmo. Ele pode se considerar um homem de sorte, pois não são muitos os africanos que seguem carreira política sem jamais ter de disputar uma eleição e ainda podem ir em missão internacional pagar visita a meretrícios do outro lado do oceano.

Após isso, acabou a eletricidade. Avisaram no jornal que o país está em crise energética e entrará em racionamento (onde já vi essa história antes?) durante quatro horas diárias até o mês de maio. O bizarro é fazerem isso às 11h em pleno dia de semana. Sem internet, o trabalho foi dificultado. Sem ar-condicionado, ficar dentro de qualquer aposento que seja foi impossibilitado. Derretendo em suor, tirei a gravata, abandonei o paletó, arregacei as mangas e voei lá para fora com a mesma avidez que nosso presidente se joga numa dose de uísque. Do outro lado da rua, havia energia. Suspeito (e espero) que o racionamento seja em diferentes áreas de Abidjan todos os dias.

Como já era hora do almoço, foi comprar meu sanduba de carne de rato do mato com ovo e maionese (hmmm!) e voltei na esperança de que a força voltasse mais cedo. Como não voltou e eu já havia terminado meu sanduíche gororoba, fui visitar as outras lojas do prédio para fazer aquele social e tentar implicitamente vender os serviços AFCO. Há uma escola no prédio que se chama Ameritech e já é nossa cliente, mas entrei lá do mesmo jeito para puxar conversa e assim passar o tempo até a energia voltar. Uma senhora negra começou a falar inglês comigo num charmosíssimo sotaque sulista americano. Não é para menos, ela nasceu no Mississipi. Batemos o maior papo. Ela contou dos convênios que a Ameritech tem com universidades nos EUA e de quantos milhares de jovens ela já mandou para lá nos 15 anos em que a escola tem funcionado. Conversamos também sobre como era difícil trabalhar com os marfinenses devido à vigente, segundo ela própira, “mentalidade de derrota”. Ela também me revelou seus planos de contratar estrangeiros da área de TI, Marketing, Finanças, Contabilidade e RH para virem à escola Ameritech e trabalharam tanto na parte de consultoria como na docência. Os planos envolvem expansão para o Benin. Por força do hábito, falei-lhe da AIESEC e ela se interessou também. Contei para ela sobre minha experiência na Costa do Marfim e a Sra Gray (seu nome) garantiu que jamais colocaria um profissional seu em Yopougon e, como trabalha com a nata da nata da sociedade africana – ou seja, gente com MUITO dinheiro – ela poderia pagar muito bem até para padrões ocidentais e quis saber se eu não tinha interesse. Sinceramente, se essa oferta estiver de pé daqui a alguns anos e eu não tiver nada melhor, por que não, certo? Até lá, se Deus quiser, já devo estar casado com minha digníssima que, por ser também da área de gestão, poderia também entrar no programa.

Voltei para a AFCO (nada de energia ainda) e o Sr Happy perguntou como havia sido minha conversa com a Sra Gray. Após relatar tudo, ele disse que ela era a presidente da Amcham (Câmara de Comércio Americana) da Costa do Marfim e que ela era sua “copine” (namorada). Happy e suas histórias! Se bem que, dado seu passado, será que ele pula mesmo a cerca? Disso eu não duvido muito, mas com a Sra Gray? Que é isso? Sra Gray peguete do Happy? Olha a história!

Lá pelas tantas (nada de energia ainda), vi uns 15 chineses numa das entradas do edifício. Sem fazer nada, fui puxar conversa com a molecada e talvez conseguir alguns cartões. Quando eu disse que era brasileiro, a galera foi ao delírio. Imitaram passos de futebol do Ronaldinho, ensaiaram uns “tudo bem” com um sotaque bem engraçado e perguntaram quantas mulatas eu tinha lá no Brasil. Trocamos números de telefone e tudo mais. Eles estavam indo embora porque não havia energia e eles trabalham justamente na área de TI de uma multinacional sul-africana chamada MTN. Voltei pra AFCO e, novamente, o Sr Happy veio me perguntar como tinha sido o social com os coleguinhas do oriente. Contei que falamos de futebol e que ventilamos a possibilidade de marcar alguma coisa pro fim de semana. Nessa hora, o chefinho prontamente disse: “sabia que eu joguei como goleiro na primeira divisão do campeonato chinês?”. Putz, pulada de cerca eu até acredito, mas o chefitchox está começando a forçar. Happy Happy no gol da primeira divisão chinesa? Pô! Hahaha. Esse meu chefe é um comédia.

Quatro horas e nada de energia, fui dispensado. Chegando a Marcory, decidi que daria uma voltinha pelas lindas lojinhas libanesas de chocolates, flores e decorações. As fotos encontram-se ao lado.

Fico por aqui e peço desculpas à minha família por não postar com a freqüência com que postava antes, pois esse é o meio principal de dar notícias. Sinceramente, tem coisas daqui que não valem a pena relatar e, no mais, eu morro de preguiça.

À minha digníssima Lili, digo que estou com muitas saudades e anseio por estar aí com você. Nunca pensei que cafuné e carinho no pé iriam me fazer tanta falta. Pode um negócio desses? A meus pais, que estão na maravilhosíssima Fortaleza enquanto estou na Costa do Marfim (haha), mando lembranças e peço que aproveitem a nossa maravilhosa cidade natal. À Saroca, minha bela irmã, além das minhas lembranças, eu mando também a solicitação para que bote o marmanjo que manifestou interesse para bater um papo comigo. Parece que o rapaz ganhou a simpatia do papai e da mamãe, mas o Indiana Neitan ainda precisa dar o parecer. À família Mourtada, agradeço muito pela hospitalidade de vocês e do Sr Reda e faço votos para que vocês se readaptem ao Brasil e para que a Amany possa ir bem no vestibular no fim do ano.

Que Deus abençoe a todos como tem abençoado a mim. Amém.


"Cantique de David. L'Éternel est mon berger: je ne manquerai de rien." Psaume 23:1


6 comentários:

Ligia disse...

Terá muito cafuné quando voltar! ;)

Ligia disse...

Sempre achei o Happy estranho! Como uma pessoa que não sabe entrar no google é tão importante?

Natan Cequeira disse...

Na primeira vez que eu te vi, eu nunca imaginei que você fazia um cafuné tão gostoso! Viu como as aparências enganam?

Daniel e Gláucia disse...

Quantas guloseimas! Tem experimentado muito ou continua comendo saudável? Graças a Deus por essa família hospitaleira compartilhar com você de uma "outra" Costa do Marfim. Também estamos com saudades, mas logo estaremos juntos. Te amo!

Daniel e Gláucia disse...

Olha, que Deus me perdoe, mas quando eu olho pra figura do folclórico "Help help", fico a pensar: será que algumas criaturas não são frutos do evolucionismo? Essa foi do pai que gosta de trocadilho.

Sara de Cerqueira disse...

hyaihioahsioahsa
Pode deixar, lindão. Ou vc aprova, ou nada feito!
Te amo!!