quinta-feira, 20 de maio de 2010

Valores: Valem a pena?

Mensagem proferida por mim no evento “Cá entre Nós”, de 19/05/2010, na FGV-SP

(São apenas 4 páginas de word! Tenham paciência para ler até o fim!)

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Bom dia a todos. Gostaria primeiramente de agradecer ao professor Thiago Matheus pelo convite de falar aqui hoje. Segundamente, gostaria de agradecer a todos que vieram prestigiar o “Cá entre nós” com suas presenças. O meu tema é “Valores: Valem a pena?” e após minha breve exposição, espero deixar claro a todos os motivos pelos quais creio que a resposta seja sim, valem a pena.

Ora, valores são princípios que norteiam nossas ações. Se algo o impulsiona a fazer algo (ou a abster-se de fazer algo) quando haveria claros ganhos de utilidade se você ignorasse o impulso (seja para agir ou refrear sua ação), esse impulso é um valor.

Permitam-me dar-lhes dois exemplos dentro de minha própria família. Meus pais lá no Ceará possuem um pequeno negócio, um posto de gasolina. Esse posto possui uma loja de conveniência que, como todas as outras, vendia bebidas alcoólicas e cigarros. Um dia, um colega fumante de meu pai que estava há alguns dias sem fumar e tentando parar foi à lojinha para comprar cigarros. Meu pai – ele próprio um ex-fumante – insistiu para que ele perseverasse. O homem mostrou os dedos esfolados de tanto socar a parede por causa da inquietação que a falta de nicotina causava nele. Ele não conseguia dormir e esmurrava a parede. Ele acabou por comprar os cigarros, mas aquilo mexeu de forma tal com meu pai que ele encerrou a venda de cigarros na loja (para a tristeza da Souza Cruz). Não somente, parou de vender bebidas alcoólicas também. Juntos, esses dois produtos respondiam por grande parte da receita.

Segundo exemplo: em nosso estado, o Ceará, o ramo de revenda de combustíveis costuma ser caracterizado por cartéis e dribles na legislação fiscal. Isso meus pais jamais toleraram. Foram alvos de concorrência desleal, perda de competitividade ante a concorrência e motivo de chacota por parte dos conhecidos do ramo. Mesmo assim, escolheram não agir à margem da lei.

O que os motivou a tomar essas ações? Valores! No primeiro caso, coerência; no segundo, honestidade. Agora, o que tem guiado nossas ações? Temos racionalizado nossas ações e agido segundo nossos princípios, ou temos agido automaticamente feito robôs?

Aqui na FGV, é muito comum que ajamos em modo automático e sem revisão de valores. Pude observar isso em muitos dos alunos, eu incluso. Eu pergunto a vocês: a sua diretriz geral de ação nessa faculdade é valorizar o que é importante ou o que é urgente? Os dois não são necessariamente sinônimos, pelo contrário, tenho visto mais vezes o urgente ser meramente “cumprimento de tabela” em vez de agregação de conhecimento. A idéia de mero cumprimento de prazos tem substituído a busca por aprendizado real!

Esse tipo de atitude, claro, não surge do nada. A FGV tem toda uma cultura de ensino que colabora para isso. O bom senso diz que ou se cobra muito em um número reduzido de matérias, ou se cobra pouco em um grande número de matérias. Aqui, temos muitas matérias em um mesmo semestre e os professores prosseguem insensivelmente cobrando os alunos tal qual sua disciplina fosse a única da grade e usando a nota não como medida de avaliação,mas instrumento de punição! A conseqüência desse tipo funcionamento é de atitude de priorização do urgente, do “cumprimento de tabela”, não o de priorização do aprendizado!

Muito se tem falado sobre a necessidade de mudança da FGV em relação a isso. Mais se falará ainda, pois estamos em época de campanha para a eleição da futura representação discente –o Diretório Acadêmico – ante a diretoria. Ninguém duvida que algo nessa faculdade tem de mudar. A questão, meus amigos, é quando iremos NÓS mudar?

Tolstoi uma vez disse que “todos pensam em mudar a humanidade e ninguém pensa a mudar a si mesmo.” Ora, a FGV é um todo que se constitui do somatório de numerosas partes menores que somos nós. O que os faz pensar que, permanecendo as partes inalteradas, o todo mudará? Não mudará! Einstein acertadamente colocou que somente idiotas fazem o mesmo e esperam resultados diferentes.

Vocês aquiescem para o que digo, mas pode se perguntar: por que passar a agir tendo como base valores tendo em vista mudar? Por que passar por todo esse incômodo para um incerto e até improvável ganho? Da mesma forma eu pergunto: será que valeria a pena meu pai ter continuado vendendo produtos que ele mesmo não recomendaria aos outros (caso do cigarro)? Será que valeria a pena ter arriscado um ganho ilícito e maior por meio da fraude fiscal e legal?

Antes de responder, tomemos Weber e sua célebre obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Lá, Weber mostra como os países protestantes tenderam a apresentar maior desenvolvimento do que os países católicos romanos e o motivo é relativamente fácil de ser enxergado: a ética de trabalho protestante é impecável. Sim, sim, eu sei que provavelmente o professor que ensinou pra vocês sobre a ética protestante e o calvinismo falou apressadamente algo do tipo “a rapaziada tinha que ficar rica, se não achava que ia pro inferno” e comentou mais uma coisa ou outra sobre a idéia de predestinação e vocação. A questão é que a exposição de Weber sobre o calvinismo e a implicações dessa doutrina vão muito além do aspecto econômico: seus valores adentram o campo social! Foi na Genebra reformada de Calvino que surgiu a idéia de empréstimos a baixos juros para os menos afortunados. Foi aí que surgiu a idéia de saneamento das áreas mais pobres da cidade. Diferentemente do restante da Europa, o lucro passou a ter pressupostos constituídos pela base moral de valores! É por isso que quem leu o livro inteiro de Weber sabe que ele fala não somente que os países protestantes tenderam a apresentar não apenas maior desenvolvimento econômico, mas despontavam em desenvolvimento do total da sociedade! Relações transparentes e justas entre empregador e empregado, classe média mais significante e mais elevados índices de educação da população são fatores historicamente encontrado mais comumente entre os países do norte da Europa e EUA – onde a Reforma teve mais influencia – do que entre seus compares do sul, onde o catolicismo romano limitou-se a vagamente condenar o lucro e a observar o trabalho como penitência no lugar de estabelecer valores e bases morais para o ganho econômico. A discrepância é evidente até entre a típica cidade do Canadá inglês e a típica cidade do Canadá francês.

Vocês podem estar pensando: “mas Natan, isso é papo teórico defasado; ninguém mais liga a mínima para valores religiosos, que dizer então de cristianismo!”. Eu lhes devolvo a pergunta: SERÁ? Um proeminente economista chinês chamado Zhao Xiao discorda veementemente!

Zhao Xiao, Professor da Escola de Economia e Administração da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pequim e Pesquisador Convidado do Banco Mundial em Pequim, é também um ex-ateu convertido ao cristianismo. Ele escreveu um artigo em 2002 – que foi mencionado em matéria do Estadão (leia aqui) cuja cópia da versão traduzida (leia em inglês aqui) mais recente será entregue a cada um de vocês juntamente com uma entrevista dele (leia em inglês aqui) após essa palestra – após alguns meses nos EUA, onde ele foi para estudar o que diferenciavam essas duas potências. Xiao mostra que a grande diferença entre os EUA e a China não era política, tecnológica ou econômica, mas religiosa! Sua tese é que a China possui uma paquidérmica e cara economia planificada que condena pessoas a fome onde ela vigora (interior da China), mas que a economia chinesa continuará sendo igualmente ineficiente se mudar para uma economia de mercado tal qual existente nas atuais ZEEs (Zonas Econômicas Especiais, as grandes cidades chinesas) sem adquirir valores morais.

Segundo Xiao, o fato de os valores cristãos estarem tão enraizados no povo americano o deixa menos propenso a cometer fraudes. Os valores tão arraigados nos EUA e que fazem tanta falta na China são o que possibilitam uma sociedade de contratos, em que dois ou mais indivíduos (ou grupos de indivíduos) fazem compromissos um com o outro e prometem honrá-los. Contratos são muito comuns no mundo cristão. Que são os dez mandamentos se não um contrato de Deus com os homens? O compromisso cristão de manter um contrato, dessa forma, transcende a idéia do mero negócio, pois o homem também prestará contas de suas ações a Deus, que não se pode enganar. Assim, a existência desses valores, dessa forma, reduz e MUITO tanto o custo de manter um grande aparato judicial para punir fraudadores como a perda com as fraudes em si! Xiao lamenta que a situação da China tão diferente. Ele diz que na China as pessoas estão dispostas a fazer o que for para conseguir o que desejam. Cito um excerto traduzido de sua entrevista: “Hoje em dia, o povo Chinês não acredita em nada. Não acredita em Deus, não acredita no diabo, não acredita em Providência, não acredita em Juízo Final e não diz nada sobre o paraíso. Uma pessoa que não acredita absolutamente em nada pode apenas acreditar em si mesma. E auto-crença implica tudo ser possível: que importam mentiras trapaças, dano e enganação?”.

A conclusão de Xiao é que a China precisa não apenas parar de perseguir os cristãos como também abraçar o cristianismo para ter uma boa, saudável e virtuosa economia de mercado que gerará impactos positivos na sociedade. Essa conclusão foi publicada e apresentada no Clube da Universidade de Qinghua, que é freqüentado pela elite política, econômica e acadêmica chinesa. A recepção à sua conclusão foi surpreendentemente positiva e seu otimismo é ainda maior dado que o Partido Comunista Chinês – que é agora uma ampla frente com vários grupos de representação, nada como versa o ditame marxista de características revolucionárias à moda da extinta URSS e da Europa Oriental – tem gradualmente mudado seu modo de pensar.

Vejam que até mesmo o Partido Comunista Chinês está acordando para uma coisa óbvia: a civilização fora do alicerce moral absoluto cristão simplesmente não funciona! O prédio não se levanta sem fundação e sociedades não se erguem sem valores dessa base moral. Vou dar-lhes um exemplo que vivenciei. Voltei recentemente da Costa do Marfim, país no oeste africano, e lá o cristianismo tem pouca influência, embora mais de 30% da população se diga cristã. O relativismo oriundo de seus rituais tribais de bruxaria vigora tanto em igrejas quanto em mesquitas e faz com que a percepção de mal e bem sejam confusas e sejam encaradas como duas faces de uma mesma moeda. Sendo assim, a questão não é que é errado matar, a questão é: quem você matou? Se foi um indivíduo de etnia diferente, não há problema! Se foi um indivíduo branco, ao assassino são entoadas loas! Não há outro motivo pelo qual o país é tão miserável; faltam VALORES e todos os demais bônus agregados que vêm com eles e já foram mostrados hoje.

Então, respondendo às perguntas feitas antes de nos aventurarmos por Weber e Xiao.

Valeria a pena meu pai continuar a vender cigarros e bebidas? Poderíamos pensar que não havia motivo para abrir mão dessa receita, afinal, os adultos que compram são racionais e responsabilizam-se pelos seus atos, certo? Errado!! Não valeria a pena meu pai continuar vendendo cigarros por ser uma transação moralmente desonesta. Como alguém pode comercializar algo em que não acredita? Como poderia vender para outros algo que ele não desejaria que os próprios filhos consumissem? Vocês podem estar achando que ele é um trouxa que abriu mão de receita certa, mas bem sei que muitos outros pais estariam dispostos a pagar o valor do “prejuízo” pecuniário da cessação das vendas de cigarro e álcool para obter dos próprios filhos o respeito e admiração que minha irmã e eu lhe devotamos devido ao exemplo que ele nos deixou.

E não, também não valeria a pena ele arriscar um ganho maior e ilícito à custa da quebra da lei (cartel e sonegação), pois foi por meio dessa visão de curto prazo que muitos dos que “farreavam” com a ilegalidade acabaram por ir em cana, perder o que tinham e deixar a família em apertos. Meu pai escolheu o ganho virtuoso,modesto e duradouro no lugar do conveniente ganho vicioso em curto prazo. Foi uma questão de valores!

Creio que não restam dúvidas sobre a importância dos valores, mas uma última dúvida ainda deve pairar no recinto: Natan, como você pode ter certeza de seus valores? Você simples e arbitrariamente os escolheu e passou a venerá-los?

Bem, tenho sim certeza de meus valores e não, não fui eu que os criei. Eles me foram ensinados. Embora aquele que mos tenha ensinado, meu pai, seja um homem falho igual a todos nós, meu pai não é a fonte e origem desses valores. A fonte e origem desses valores, por sua vez, é o único homem perfeito que já andou sobre a face da Terra, que é Jesus Cristo, filho de Deus, redentor da humanidade.

Que Deus os abençoe.


7 comentários:

Daniel e Gláucia disse...

Em comunicação existem três componentes: emissor, canal e receptor. No artigo, o emissor foi a Palavra de Deus (infalível), o canal, seus pais (falíveis) e o receptor você (que tem o livre arbítrio). O que fizemos foi "ENSINA A CRIANÇA NO CAMINHO EM QUE DEVE ANDAR, E AINDA QUANDO FOR VELHO NÃO SE DESVIARÁ DELE" (Pv 22:6).
Cuidado!!! cada vez que vc defendo os valores bíblicos, mais o Satanaz lhe odeia...e mais Jesus te ama...continue optando pelo sentimento do último.
Seu pai.

Natan Cerqueira disse...

Amo vcs, pidos!

Leandro disse...

Excepcionalmente bem escrito e articulado, meu caro. Com a alma.

Permita-me apenas introduzir uma ligeira controvérsia aqui:

Sobre Max Weber e seu livro, já há pesquisas que o contrariam ligeiramente. Ninguém discute a excelência da ética protestante -- a qual estimula o trabalho árduo e a acumulação da capital --, porém o grande diferencial, aquilo que de fato estimulou o enriquecimento dos países protestantes vis-à-vis os católicos, estava em um detalhe básico: a alfabetização.

Explico melhor: é sabido que, na maioria dos lares católicos, a Bíblia é mais um objeto de decoração do que de leitura. Não vou ser hipócrita quanto a isso. Até porque é algo que vem de longa tradição. Os evangelhos são lidos na missa e os padres fazem a Liturgia da Palavra (é aí que os desgraçados* dos teólogos da libertação fazem a farra).

A consequência inevitável desse hábito é que, por nunca ter havido esse incentivo à leitura da Bíblia, a alfabetização entre os católicos se desenvolveu com mais atraso.

Já entre os protestantes, a Bíblia sempre foi leitura obrigatória. E isso trouxe o efeito esperado: maior nível de alfabetização, que foi o que os preparou melhor para o mourejo e, consequentemente, para o enriquecimento.

Bom, essa foi minha única divergência em relação ao texto.

Finalmente, agora vem a demanda do consumidor: escreva mais, meu caro. Bem mais! Mantenha a calvinista disciplina de, ao menos, um texto a cada dois dias.

Forte abraço!

_______________________________

* “Desgraçado”, antes de ser um xingamento gratuito, é um termo religioso: designa aquele que foi excluído da Graça. (Só pra mostrar como, mesmo no auge da fúria, sou um sujeito educadíssimo.)

Natan Cerqueira disse...

Leandro,

Fico muitíssimo contente que vc tenha lido meu texto e comentado.

Esse texto foi meu breve discurso (algo em torno dos 10 a 12 minutos) num evento em que falaram outros dois preletores, um budista e um ateu.

Por motivo de tempo, não pude explorar como gostaria outros autores que abordam a influência de João Calvino como Alister McGrath, Heber Carlo Campos e Michael Horton. Esses autores falam justamente da influência da fé reformada sobre o apego ao conhecimento das artes e ciências.

Segundo o próprio McGrath, Alphonse de Candolle pesquisou a composição dos alunos da Academie des Sciences Parisiense durante 1666 a 1883 e verificou que 18,2% dos alunos eram católicos romanos ao passo que 81,8% eram reformados. Candolle esperava que essa proporção fosse de, respectivamente, 60% e 40%. Assim, não há dúvida que o apego e busca pelo conhecimento foram fatores diferenciadores. Eu concordo que a educação pesou mais do que a ética de trabalho (que não pode ter sua importância negada). No entanto, eu estava apresentando a tese de Max Weber e a estava usando para provar o meu ponto da palestra: que valores fornecem o alicerce sobre o qual sociedades são erguidas.

Weber dizia que foi a ética de trabalho. McGrath, Condolle, Campos e Horton achavam que foi a educação. De toda forma, a fé reformada exaltava esses valores e foram eles que os levaram a perseguir esses atributos e mudar os rumos do desenvolvimento social.

Em suma, defendo que valores são de substancial importância. Houvesse sido o debate "qual o valor diferencial?", eu teria utilizado sua mesma argumentação. Como a exposição foi sobre a importância dos valores, busquei apresentar o autor mais conhecido pelo público (pois de desconhecido já basta o chinês!).

Espero ter-me feito claro.

Forte abraço!

PS: Qto à periodicidade, espero poder atualizar meu blog com mais frequencia uma vez que passe essa fase de provas e trabalhos finais.

Natan Cerqueira disse...

A pesquisa de Condolle está comentada aqui: http://www.mackenzie.com.br/ano2007000.html

Leandro disse...

Caríssimo, fico muito agradecido por ter dado sequência ao debate -- embora ainda fique a dever na questão da constante atualização.

Bom, como eu também não dispenso um bom debate -- principalmente quando meu interlocutor é de uma sabedoria conspícua e de uma inteligência percuciente, o que sempre me faz aprender mais --, arrisco-me aqui a uma ligeira réplica.

Conhece Alain Peyrefitte? Ele debruçou-se sobre a obra de Weber e acabou por defender, com uma proficuidade de provas e documentos, a tese de que não foi o conteúdo moral do protestantismo que fomentou o desenvolvimento capitalista, mas sim a forma da organização de suas igrejas. Como não havia uma autoridade central -- como a do papa --, os grupos religiosos independentes encontraram no livre comércio, na convivência igualitária e na fidelidade aos mandamentos do Evangelho -- os quais eram interpretados segundo a consciência de cada um -- os princípios de uma nova ordem social e econômica que floresceu no capitalismo moderno.

Por outro lado, a causa da paralisia econômica nos países católicos não foi a moral da Igreja, mas a centralização burocrática. A coisa foi meio paradoxal: ao mesmo tempo em que o papado estava assustado com a rebelião protestante e acossado por suspeitas contra tudo e contra todos, ele estava fortalecido pela súbita ascensão das monarquias católicas -- as quais foram enriquecidas pelas navegações. Consequentemente, a Igreja Católica fechou-se numa hierarquia rígida e numa reivindicação de poder absoluto, eliminando o que restava do pluralismo medieval e sufocando a iniciativa de auto-organização da sociedade.

Esse exemplo foi celeremente seguido pelas monarquias sob sua influência, principalmente Portugal e Espanha. O sonho de São Tomás, uma sociedade cristã formada por homens livres, unidos pelo fato de serem membros do corpo místico de Cristo, acabou-se realizando entre os "infiéis" protestantes.

Assim, sempre de acordo com Peyrefitte, três elementos foram decisivos para o superior resultado econômico do capitalismo:

(a) a liberdade de auto-organização;

(b) homogeneidade moral, resultado da fidelidade geral ao Evangelho (a qual era ainda mais estrita porque, como não havia uma autoridade formal superior, a Bíblia se tornava, diretamente, o critério comum para o arbitramento de todas as disputas); e

(c) o ambiente de confiança, integridade e seriedade criado pelos dois fatores anteriores.

Em contrapartida, o autoritarismo papal e monárquico criou sociedades anêmicas, enfraquecidas, intimidadas e corrompidas pela subserviência àquela burocracia onipotente.

Para um bom texto sobre Weber, recomendo este do seu conterrâneo Nivaldo Cordeiro:

http://www.olavodecarvalho.org/convidados/0190.htm

Aquele abraço, meu caro!

E sigo no aguardo daquele convite básico para ver as casas do Zé e do Marechal Castelo em Messejana.

Natan Cerqueira disse...

Grande Leandro!

Tomarei meu tempo para ler Peyrefitte tão logo passem provas finais! Obrigado pela recomendação.

Quem sabe eu não apresente meu parecer sobre a obra dele para você no restaurante museu da casa do célebre José de Alencar ou numa caminhada pelo Mausoléu de CB? Considere-se convidado!

Forte abraço,