terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Diga sim



O maior propagandista nazista, Goebbels, aquele que afirmou Lenin ser o maior dos homens atrás somente de Hitler[1], também afirmou uma mentira virar verdade após ser repetida mil vezes. Pessoas com tendências coletivistas curiosamente tendem a crer nessa “máxima”, ao passo que individualistas preferem crer que algo errado continua sendo errado mesmo que milhões de pessoas digam o contrário. Apesar de a máxima de Goebbels encontrar terreno fértil quando muitas pessoas repetem mentiras a outras cujo conhecimento (e interesse) por economia é bastante reduzido, o seguinte artigo não pretende, de forma alguma, ser o arauto da verdade nem o elucidador de ninguém, mas simplesmente lançar uma nova forma de encarar algumas das “verdades” repetidas por muitos aos quatro ventos.

*“Olhe o que o ‘livre mercado’ fez! Cadê a auto-regulação? Hein?”

A teoria liberal tem sido muito criticada ultimamente e a maior fornecedora de munição para a saraivada de impropérios é a corrente crise financeira. Os críticos afirmam que liberais atribuíram poderes não existentes ao mercado ao acreditar que ele se regeria como uma lei natural. O que esses críticos parecem ter esquecido foi de ter lido alguma literatura liberal antes de se auto-intitularem entendedores.

Adam Smith escreve combatendo a intervenção governamental mercantilista típica do antigo regime e diz que as autoridades do governo nunca saberão o que é melhor para a totalidade da população, sendo, dessa forma, maus alocadores dos recursos disponíveis. Adam Smith parte do princípio – sagrado para liberais – da autodeterminação e crê que ninguém sabe tão bem o que é melhor para um indivíduo do que ele próprio. Conseguintemente, as pessoas terão relações de troca umas com as outras buscando seu interesse individual, de tal forma que uma troca nunca ocorrerá a não ser que seja mutuamente benéfica, pois, diferentemente do que estatistas “bem intencionados” pensam, as pessoas são inteligentes. Dessa forma, o mercado não é um ente com poderes divinos em que a mão invisível é sua representação, ele é simplesmente o somatório das vontades individuais de todos.

É estranho que coletivistas pensem tão mal de livres trocas e vontades individuais e prefiram o conceito rousseauniano de “vontade geral”, aquele que justificou e causou mais mortes em cinco anos de Revolução Francesa do que três séculos de Tribunal do Santo Ofício.

*”Mesmo assim, se não fosse o governo pra socorrer, hein?”

É muito estranho que haja quem se regozije dos resgates de empresas que os governos andam fazendo. Não somente é antiético forçar o sujeito eufemisticamente alcunhado de “contribuinte” a custear os erros dos outros com seus impostos, como também é mau negócio salvar empresas ruins.

O mercado nunca se propôs a evitar falências. Pelo contrário, as falências são parte integrante do mercado, assim como o são sindicatos, consumidores etc. Como já foi explanada, a essência do mercado são as livres trocas na busca pelos interesses individuais, mas não há nada de livre quando se força alguém (no caso, eu, você e os demais pagadores de tributos) a resgatar empresas incompetentes de seus próprios erros. Adam Smith propôs o mercado como melhor alocador de recursos, não como o garantidor de prosperidade eterna. O que ocorre, contudo, é que de fato a existência de pobreza extrema ocorre nos países que mais se afastam do sistema de livres trocas, vide os países no mundo com governos econômica e socialmente ultra-sufocantes.

*O capitalismo desenvolveu tanta tecnologia que o desemprego virou problema estrutural

Qualquer um que se dedique a uma análise histórica da história do empreendimento humano sabe que isso é uma grande mentira. Quando James Watt lançou seu motor a vapor em 1776 – mesmo ano em que Adam Smith escreveu “A Riqueza das Nações” e que os EUA proclamaram independência – ele não desempregou os remadores de barcos, ele indiretamente criou inúmeros outros empregos nas indústrias que decidiram se expandir graças a essa nova invenção; quando o carro foi inventado, não houve desemprego em massa dos operadores de trens, mas sim a criação de milhões de empregos nunca antes vistos; quando ocorreu o advento do pesado maquinário agrícola, houve perda de pessoal na saraiva, mas criação de muitos empregos em indústrias de processar os alimentos, agora mais abundantes do que nunca.

Sinceramente, desemprego estrutural é choradeira de contador que não aprendeu a usar o Excel.

*A cultura individualista está mudando, as pessoas estão se voltando mais para o próximo

Essa é uma das que mais carecem de fundamentação. Basta salientar que o povo mais caridoso do planeta é o povo americano, difusor da cultura individualista no mundo. Segundo o especialista Arthur C. Brooks, “nenhum país desenvolvido chega perto da doação americana. Por exemplo, em 1995 (último ano em que esse tipo de dado estava disponível), os americanos deram, per capta, três vezes e meia a mais para causas e caridade do que os franceses, sete vezes mais do que alemães e 14 vezes mais do que italianos. De semelhante forma, em 1998, os americanos eram 15% mais propensos a fazer trabalho voluntário do que os holandeses, 21% a mais do que os suíços e 32% a mais do que os alemães. Essas diferenças não são atribuídas a características demográficas tais como educação renda, idade, sexo ou estado civil. Pelo contrário, se olharmos para duas pessoas idênticas nesses aspectos excetuando que um é europeu e o outro é americano, a probabilidade de o europeu voluntariar seu tempo é ainda muito mais baixa do que a do americano.”[2]

Cair na esparrela da frase em negrito demonstra não apenas desconhecimento de dados de amplo domínio público (primeiro erro), mas também demonstra desconhecimento do conceito de individualismo (segundo erro). Individualismo é a valorização do indivíduo e de seus direitos e opor-se a qualquer tentativa de reduzi-lo a uma mera parte de um todo como o fizeram (e fazem) os nacionalismos, fascismos e socialismos. Tratar academicamente individualismo como egoísmo é tão inadmissível como utilizar o conceito schumpeteriano de empresário como o corriqueiro “proprietário de negócios”.

O terceiro erro consiste em encarar valor como algo objetivo e mensurável. Mas tudo bem, até Adam Smith pecou nesse sentido e criou a teoria do valor-trabalho, que depois foi utilizada por Marx para criar a mais-valia – daí tem-se por que a teoria econômica de Marx é muito falha: ela baseia-se justamente no erro de Smith. De qualquer forma, como valor é algo subjetivo, o individualista pode doar pelo prazer de ajudar um próximo, pelo status que vai conquistar, para zelar por uma reputação de generoso, para abater nos impostos etc. Ou seja, servir aos outros não é algo que vá de encontro ao individualista, muito pelo contrário! E aqui está empírica e teoricamente evidenciado como a caridade é incrivelmente freqüente em ambientes individualistas.

Não é à toa que o mesmo autor conclui: “Enfim, se substituíssemos nossa caridade privada por programas redistributivos do governo, nós seríamos desfalcados em termos de crescimento econômico, prosperidade pessoal e até mesmo felicidade. O ato de caridade não deveria ser visto apenas como um belo detalhe da vida americana e muito menos como mera redução de impostos. Deveria ser visto como prioridade nacional”.[3]

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Livres trocas e individualismo? Diga sim.



[1]”HITLERITE’RIOT IN BERLIN.; Beer Glasses Fly When Speaker Compares Hitler and Lenin”, The New York Times, 28 nov. 1925

[2]Arthur C. Brooks, “A nation of givers”, The American, March/April 2008 issue

[3]Idem

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