Recomendo que leiam primeiramente o Relato I, o Relato II e o Relato III. Obrigado.
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Registro de Viagem: Costa do Marfim
Relato IV – No trabalho – 14 de Dezembro
Wilfred, o camaronense com quem irei trabalhar, passou aqui para me pegar. Fomos até “Prémiere Point”, aqui no bairro de Yopougon. De lá, pegamos um taxi até o distrito financeiro, que se chama Plateau. Lá fica a AFCO Sarl, empresa em que trabalharei até fevereiro. Engraçado que o táxi funciona meio que fora da lei. É assim: pelo taxímetro, ou seja, legalmente, nosso percurso ficaria o equivalente a €7. Do modo à margem da lei, o motorista cobra um preço fixo pra ir a um lugar específico em Abidjan e cada passageiro paga uma parte e o carro parte quando estiver cheio. Parecem as lotações clandestinas da Messejana, CE. O preço é de CFA 600 (francos africanos) por passageiro, que dá menos de €1. Assim, o taxista fatura seus CFA 2400 e nós pagamos cada um 1/6 do que pagaríamos normalmente. Outro ponto positivo é que eu posso fazer um social e treinar meu francês com os completos estranhos que completam o táxi comigo. É um ganha-ganha(-ganha)!
Relativamente ao trabalho, os marfinenses não se destacam tanto: fazem brasileiros parecerem japoneses. Como diria meu pai, a galera aqui “não quer ovo”, ou, complementando o raciocínio com mais filosofia de poltrona de minha família: “estão pedindo a Deus que o mundo se acabe” (outra do Filósofo Daniel, vulgo ‘pido’).
A empresa são dois andares. No de baixo, a recepção; no de cima, nós e o chefe. Do andar de cima, 25% é o banheiro (tem banheiro!), 60% é a sala do chefe e os 15% restantes são compostos do corredor e Wilfred, Leticia (da contabilidade) e eu tentado nos espremer. O chefe, que se chama Sr Happy Happy – não é piada – é camaronense, mas fez carreira como político na Costa do Marfim. Ele é um homem muito ocupado e preenche seu tempo com ócio criativo e não liga muito para minúcias como relacionamento com clientes, funcionários, moral no ambiente de trabalho e resultados no longo prazo. Para essas coisas “pequenas” existem eu e Wilfred.
Houve uma hora em que ele chamou a equipe de marketing (eu e Wilfred) no escritório e após uma breve e dispensável reunião, ele começou a nos contar sobre quando ele foi em missão oficial ao Brasil e fugiu de seus compromissos para freqüentar clubes noturnos e prostíbulos. Vendo que eu não achava a menor graça nisso, ele confundiu minha repulsa por falta de interesse e tentou aumentá-lo ao relatar suas aventuras pelos meretrícios de Abidjan. Acho que ele finalmente caiu em si e fechou a matraca. Ah, outra coisa, a internet havia caído na empresa durante o dia todo (menos no escritório dele!), eis o motivo de eu não haver postado nada hoje (segunda-feira), e pedi para usar a dele.
Fiz as pesquisas concernentes ao trabalho e salvei-as em meu pendrive. Quando retornei ao meu computador, o anti-virus acusou meu pendrive de ser uma incubadora e o AVG teve de apagar todos os meus arquivos, inclusive todas as fotos e vídeos que gravei até agora (isso mesmo). Voltei à sala do chefe e me dispus a fazer uma varredura em seu computador. Ele disse que tudo bem. Sentei-me e então descobri: não havia anti-virus nenhum! Olhei para aquele computador sem anti-virus como umesquimó enxergaria um naturista na Groenlândia e comecei a baixar o anti-virus.
Como se diz no Ceará, fiquei bestinha. A chance de achar um computador, qualquer que seja, sem um anti-virus é, creio, 1 em um milhão. A chance de achar uma empresa moderna sem internet é de 1 em um milhão também. Assim, hoje vi uma empresa que é uma verdadeira apoteose estatística: 1 em 1000000000000!!
Afora o trabalho, hoje fui à embaixada brasileira. A recepcionista era brasileira, mas falava português como uma marfinense e tinha a simpatia daquelas estereotipadas negras gordas de filme americano. Faltou só falar balançar o indicador no meu nariz ao falar, porque já falava pelo nariz e tinha aquela atitude. Que bom que conheci outras pessoas lá. Conheci um marfinense que falava um português perfeito (ele conhece a GV, pois fez faculdade na ESPM na década de 80) e me apresentou ao adido militar, o Sub-Tenente Geraldo. A informação que segue agora vai fazer o dia do papai: o subão é FE (forças especiais) e comanda um destacamento brasileiro em Abidjan de 7 soldados (todos FEs) e pegou todos os meus dados, onde moro etc. Ele disse que, no caso de uma evacuação ou coisa do tipo, nenhum brasileiro é deixada para trás. Ele disse também que ia mandar alguém fazer um reconhecimento do terreno de Yopougon para recolher inteligência. Senti-me muito, mas muito seguro. Fora isso, ele me deu o endereço dum restaurante brasileiro de um cara gente fina (fica ali no Plateau mesmo) e disse que me chamará pro próximo churras de brazucas em Abdijan! Outra coisa ainda, há missionários brasileiros aqui, principalmente da Igreja Universal do Reino de Deus. Pode? Haha
De volta à casa, tentei ligar de todas as formas para falar com minha família. Ninguém atendia na casa de minha namorada, a ligação para minha avó era muito ruim e pude falar alguns segundos com meus pais. Cabem aqui agradecimentos especiais à família maravilhosa que está me hospedando. Eles fizeram um auê pra eu poder ligar. Foram chamar gente não sei aonde que trabalha com não sei o quê de telefonia para que eu pudesse ligar. Que povo gentil! Quando eu fui tomar banho, meu irmão, Franc, pediu pra esperar porque ele ia lavar a salle de bain pra que eu pudesse tomar banho num ambiente limpinho. As crianças são uns amores. As mulheres sempre me perguntam como acaba a novela que elas estão vendo (novela brasileira é o maior sucesso, juntamente com a Talia) e me vaiam quando eu digo que não gosto de novela! Haha. Esse povo é uma comédia.
De qualquer forma, amanhã, se Deus quiser, terei contato com internet e poderei postar tudo isso, assim como também as fotos que eu tirar amanhã, ligar via skype e mandar e-mails.
Obrigado pelas orações. Abraços e fiquem com Deus.
“Si alors mon peuple, le peuple à qui j’ai donné mon nom, s’humilie et prie, si les Israélites me recherchent en renonçant à leur mauvaise conduit, moi, dans le ciel, je serai attentif, je pardonnerai leur péché et je rétablirai la prospérité de leur pays” – 2 Chroniques 7:14

