terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato IV - No Trabalho


Recomendo que leiam primeiramente o Relato I, o Relato II e o Relato III. Obrigado.

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Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato IV – No trabalho – 14 de Dezembro

Wilfred, o camaronense com quem irei trabalhar, passou aqui para me pegar. Fomos até “Prémiere Point”, aqui no bairro de Yopougon. De lá, pegamos um taxi até o distrito financeiro, que se chama Plateau. Lá fica a AFCO Sarl, empresa em que trabalharei até fevereiro. Engraçado que o táxi funciona meio que fora da lei. É assim: pelo taxímetro, ou seja, legalmente, nosso percurso ficaria o equivalente a €7. Do modo à margem da lei, o motorista cobra um preço fixo pra ir a um lugar específico em Abidjan e cada passageiro paga uma parte e o carro parte quando estiver cheio. Parecem as lotações clandestinas da Messejana, CE. O preço é de CFA 600 (francos africanos) por passageiro, que dá menos de €1. Assim, o taxista fatura seus CFA 2400 e nós pagamos cada um 1/6 do que pagaríamos normalmente. Outro ponto positivo é que eu posso fazer um social e treinar meu francês com os completos estranhos que completam o táxi comigo. É um ganha-ganha(-ganha)!

Relativamente ao trabalho, os marfinenses não se destacam tanto: fazem brasileiros parecerem japoneses. Como diria meu pai, a galera aqui “não quer ovo”, ou, complementando o raciocínio com mais filosofia de poltrona de minha família: “estão pedindo a Deus que o mundo se acabe” (outra do Filósofo Daniel, vulgo ‘pido’).

A empresa são dois andares. No de baixo, a recepção; no de cima, nós e o chefe. Do andar de cima, 25% é o banheiro (tem banheiro!), 60% é a sala do chefe e os 15% restantes são compostos do corredor e Wilfred, Leticia (da contabilidade) e eu tentado nos espremer. O chefe, que se chama Sr Happy Happy – não é piada – é camaronense, mas fez carreira como político na Costa do Marfim. Ele é um homem muito ocupado e preenche seu tempo com ócio criativo e não liga muito para minúcias como relacionamento com clientes, funcionários, moral no ambiente de trabalho e resultados no longo prazo. Para essas coisas “pequenas” existem eu e Wilfred.

Houve uma hora em que ele chamou a equipe de marketing (eu e Wilfred) no escritório e após uma breve e dispensável reunião, ele começou a nos contar sobre quando ele foi em missão oficial ao Brasil e fugiu de seus compromissos para freqüentar clubes noturnos e prostíbulos. Vendo que eu não achava a menor graça nisso, ele confundiu minha repulsa por falta de interesse e tentou aumentá-lo ao relatar suas aventuras pelos meretrícios de Abidjan. Acho que ele finalmente caiu em si e fechou a matraca. Ah, outra coisa, a internet havia caído na empresa durante o dia todo (menos no escritório dele!), eis o motivo de eu não haver postado nada hoje (segunda-feira), e pedi para usar a dele.

Fiz as pesquisas concernentes ao trabalho e salvei-as em meu pendrive. Quando retornei ao meu computador, o anti-virus acusou meu pendrive de ser uma incubadora e o AVG teve de apagar todos os meus arquivos, inclusive todas as fotos e vídeos que gravei até agora (isso mesmo). Voltei à sala do chefe e me dispus a fazer uma varredura em seu computador. Ele disse que tudo bem. Sentei-me e então descobri: não havia anti-virus nenhum! Olhei para aquele computador sem anti-virus como umesquimó enxergaria um naturista na Groenlândia e comecei a baixar o anti-virus.

Como se diz no Ceará, fiquei bestinha. A chance de achar um computador, qualquer que seja, sem um anti-virus é, creio, 1 em um milhão. A chance de achar uma empresa moderna sem internet é de 1 em um milhão também. Assim, hoje vi uma empresa que é uma verdadeira apoteose estatística: 1 em 1000000000000!!

Afora o trabalho, hoje fui à embaixada brasileira. A recepcionista era brasileira, mas falava português como uma marfinense e tinha a simpatia daquelas estereotipadas negras gordas de filme americano. Faltou só falar balançar o indicador no meu nariz ao falar, porque já falava pelo nariz e tinha aquela atitude. Que bom que conheci outras pessoas lá. Conheci um marfinense que falava um português perfeito (ele conhece a GV, pois fez faculdade na ESPM na década de 80) e me apresentou ao adido militar, o Sub-Tenente Geraldo. A informação que segue agora vai fazer o dia do papai: o subão é FE (forças especiais) e comanda um destacamento brasileiro em Abidjan de 7 soldados (todos FEs) e pegou todos os meus dados, onde moro etc. Ele disse que, no caso de uma evacuação ou coisa do tipo, nenhum brasileiro é deixada para trás. Ele disse também que ia mandar alguém fazer um reconhecimento do terreno de Yopougon para recolher inteligência. Senti-me muito, mas muito seguro. Fora isso, ele me deu o endereço dum restaurante brasileiro de um cara gente fina (fica ali no Plateau mesmo) e disse que me chamará pro próximo churras de brazucas em Abdijan! Outra coisa ainda, há missionários brasileiros aqui, principalmente da Igreja Universal do Reino de Deus. Pode? Haha

De volta à casa, tentei ligar de todas as formas para falar com minha família. Ninguém atendia na casa de minha namorada, a ligação para minha avó era muito ruim e pude falar alguns segundos com meus pais. Cabem aqui agradecimentos especiais à família maravilhosa que está me hospedando. Eles fizeram um auê pra eu poder ligar. Foram chamar gente não sei aonde que trabalha com não sei o quê de telefonia para que eu pudesse ligar. Que povo gentil! Quando eu fui tomar banho, meu irmão, Franc, pediu pra esperar porque ele ia lavar a salle de bain pra que eu pudesse tomar banho num ambiente limpinho. As crianças são uns amores. As mulheres sempre me perguntam como acaba a novela que elas estão vendo (novela brasileira é o maior sucesso, juntamente com a Talia) e me vaiam quando eu digo que não gosto de novela! Haha. Esse povo é uma comédia.

De qualquer forma, amanhã, se Deus quiser, terei contato com internet e poderei postar tudo isso, assim como também as fotos que eu tirar amanhã, ligar via skype e mandar e-mails.

Obrigado pelas orações. Abraços e fiquem com Deus.

“Si alors mon peuple, le peuple à qui j’ai donné mon nom, s’humilie et prie, si les Israélites me recherchent en renonçant à leur mauvaise conduit, moi, dans le ciel, je serai attentif, je pardonnerai leur péché et je rétablirai la prospérité de leur pays” – 2 Chroniques 7:14


Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato III - 1º Culto

Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato III – Primeiro Culto – 13 de Dezembro

Fui ao culto na igreja batista local. Um homem da igreja que mora perto passou por aqui e me levou com ele. Ele é professor de alemão na Université Codody, a grande universidade pública do País. Algo como a USP é para nós. De qualquer forma, frère Abraham (irmão Abraão) levou-me à igreja.

O culto vai das 07h às 10h da manhã e é de uma liturgia bem animada. Chega uma hora que as pessoas vão à frente e dançam, mas não a dança sensual latina de requebrar os quadris a que nós brasileiros estamos habituados e sim uma espécie de sapateado. Os velhinhos fazem roda e dançam juntos. Julguei se tratar de uns batistas meio pentecostais e já imaginei o que estava por vir.

Tive nojo e vergonha. Não do culto, das pessoas ou da doutrina. Nojo de mim. A pregação do pastor foi tão firme quanto às de Paul Washer, John MacArthur ou do Pr Nogueira. Não posso julgar minúcias da doutrina, pois não compreendi 100%, mas o Espírito Santo fez questão de me fazer compreender a firmeza e o conteúdo geral da mensagem, que foi a gratidão. O pastor exortou os irmãos a serem gratos. “Sejam gratos a Deus por tudo! Estar vivo já é motivo suficiente para ser grato!”. O pastor falava isso a gente que, como ele, sobreviveu uma guerra que durou uma década e acabou a menos de 2 anos, que não possui água encanada, que vive em choças, que padecem de infra-estrutura precária e um governo de corrupção generalizada. E eu reclamando na véspera que o banheiro não era do modo que eu queria.

Vim à Costa do Marfim com o desejo de poder auxiliar igrejas e missionários. Se há alguém aqui que não está ensinando nada e aprendendo muito, esse sou eu. Um povo tão carente, mas ainda assim tão grato a Deus. Como Edwards em Pecadores nas Mãos de um Deus Irado, o pastor fez questão de lembrar que somente continuamos a respirar única e exclusivamente pela vontade de Deus. Essas pessoas não simplesmente conhecem essa verdade, elas VIVEM essa verdade. Que Deus as abençoe. Quanto aos missionários, não há nenhum missionário estrangeiro por aqui. Pelo contrário, eles MANDAM e SUSTENTAM missionários. A igreja possui 4 pastores missionários nos EUA. Glória a Deus.

Eu sou tão estúpido, mas tão estúpido, que meu devocional naquele mesmo dia englobou Mateus 7, que fala sobre o juízo temerário. Mesmo tendo lido essa passagem no próprio domingo, chegando à igreja, julguei. Ah, meu Deus, tem misericórdia de mim, porque sou o mais miserável dos pecadores. O que me fez ter mais nojo de mim mesmo foi que após o culto, as mesmas pessoas que eu havia julgado vieram calorosamente me abraçar e me beijar. As crianças correram até mim pra me abraçar com a graciosidade que somente as crianças têm.

Após isso, frère Abraham me conduziu de volta a minha casa, mas antes passamos pela casa dele. Ele e sua esposa possuem cinco lindas crianças. Aliás, que povo bonito é o povo marfinense! Gente alta e forte! As crianças, mesmo com as condições sanitárias vigentes, são as coisas mais lindas. Voltei pra casa e tomei o achocolatado com água quente e um pedaço de pão e fui cochilar.

Acordei e as crianças estavam estudando, pois amanhã (segunda-feira) têm aula. Fui lá fora – onde estudavam – e ensinei-lhes a multiplicar. Mostrei também minha HP12C e elas olhavam com aquela cara de “ooooohhhhhh”. Brincaram com ela por um tempo (a calculadora começou a enguiçar, suspeito algumas quedas no chão), tirei fotos e chutei uma bola com elas pra lá e pra cá. Imagino que devo ter um baita sotaque bizarro. A tudo que fala todo mundo capota de rir. É mais ou menos assim:

EU: Bonjour!

PESSOA: HAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHA

ou

EU: Salut! Ça va?

PESSOA: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

E por aí vai.

De qualquer forma, sinto que minha compreensão e minha fala do francês estão melhorando. Agora, no lugar de repetirem mil vezes o que querem me dizer, só repetem umas 500 vezes. E eu, para ser compreendido, não preciso mais fazer gestos escandalosos tão típicos do lado materno da família (certo, mãe?).

À tarde fui a um estudo bíblico de um evangelista na casa de um irmão da igreja. É pertinho daqui. Ele pregou sobre 1 Samuel 7:3 e, terminado o estudo, agradeci ao dono da casa pela hospitalidade e voltamos. No caminho, encontramos outro evangelista. Combinamos de nos encontrar na terça após o culto (18h-20h). Ah, outra coisa, fiz um amigo na igreja e ele fala inglês. É um jovem também e um rapaz muito distinto e gentil.

Agora chega a noite e em pouco tempo vou me preparar para banhar-me e recolher-me. Amanhã é o primeiro dia de trabalho e estou ansioso para começar.

Agradeço a todos os que têm orado por mim. Orem também por esse país e essa boa gente.

“Car Dieu a tellement aimé Le monde qu’il a donné son Fils unique, afin que tout homme qui croit em lui ne meure pás mais qu’il ait La vie éternelle” – Jean 3:16

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato II - Recepção da Família


Registro de Viagem: Costa do Marfim
Relato II – Recepção da família – 11 e 12 de dezembro


A casa em que estou mal pode ser chamada casa pelos padrões brasileiros. É, na verdade, um cortiço em que várias famílias moram. Não há encanamento interno em nenhuma das casas e a higiene pessoal e as necessidades fisiológicas são feitas fora da casa. Há dois banheiros para todos os habitantes do cortiço, entretanto, os banheiros também não possuem encanamento!

Como antigamente, encho um balde d’água e vou para a salle de bain (sala de banho). Lá me lavo. Também, há um buraco em que as pessoas se acocoram para defecar. Não é piada, há mesmo. Há, inclusive, para maior conforto do, por falta de palavra melhor, defecante, apoio para os pés a fim de que não se escorregue. Durante o banho, o cheiro de urina (lembrem-se: não há descarga!) reina no banheiro. O banho não é a parte mais difícil, tomo um de manhã e outro à noite, o mais difícil é o velho cocô. No momento em que escrevo, admito que não fiz nada desde antes do vôo à Paris, dois dias atrás. Quem me conhece sabe que isso é muito incomum.

O quarto também não é muito grande. Divido-o com meu “irmão”, Franc. Devo ser mais específico: dividimos a cama. Não há espaço e dividimos a cama. Entretanto, mesmo com todas essas limitações, a família tem sido extremamente adorável e feito de tudo para me deixar confortável. São verdadeiramente uns amores.

Quanto ao local em si, descobri que Yopougon não é bairro de Abidjan, mas sim um distrito independente com prefeito e tudo mais. Hoje fui a uma cerimônia em que foi entronizado o chefe da vila. Esse chefe é autoridade popular, não política. Filmei a cerimônia e é algo realmente tribal. Feiticeiras jogavam farinha no caminho para espantar espíritos imundos, meninas com pinturas místicas e pouca roupa acompanhavam o novo chefe e chefes de outras vilas vieram para celebrar a posse do sujeito. O trono é hereditário. Após isso, voltei pra casa filmando e os militares quiseram levar minha câmera embora porque eu os filmei. Eles mandaram apagar. Apaguei e segui.

Chegando em casa, almoçamos pão com ovo enquanto todos assistia Maria Du Quartier (Maria do Bairro). A Talia é um grande sucesso na TV familiar marfinense. Interessante é que as pessoas comem com as mãos, mas bebem com talher. Hoje, bebi meu achocolatado numa tigela com uma colher, mas o peixe do jantar de ontem foi com a mão. Pois bem, depois da novela, tira foto de uma das crianças a seu pedido, o que tem como conseqüência imediata o pedido de todas as crianças para que tire foto de cada uma delas sem a reca. Se tem coisa que não falta aqui é criança, então passei um bom tempo nessa atividade.

Outra coisa que se nota aqui é a perambulação sem destino. Todo mundo está na rua o tempo inteiro. Imagino que, com as condições de vivência no país, ficar em casa não seja muito confortável. Onde quer que eu ande, não faltam ruas com crianças brincando no chão sujo, gente vendendo comida perto de amontoados de lixo, roupas estendidas por todo lugar e jovens rapazes perambulando sem destino vestindo camisas dos times europeus.
É tudo muito diferente de tudo que já experimentei e minha expectativa é que o distrito comercial de Abidjan, onde trabalharei, seja tão desenvolvido quanto pareceu nas fotos. Se minhas expectativas se concretizarem, minha higiene pessoal (se tomo banho de balde aqui, tomo banho de pia lá) e meu uso do banheiro (latrina-buraco-fossa é dose) serão estritamente lá. Também, não me importarei em dormir por lá algumas noites.
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12/12
Já é noite e estou muito feliz! Descobri uma igreja batista por aqui e, o melhor de tudo, fiz cocô numa privada! Fui visitar o outro trainee da AIESEC, que é camaronense e trabalha na mesma empresa em que irei começar na segunda-feira, e a casa dele é bem melhor do que a minha. É espaçosa e não tem tanta gente. Notando isso, decidi jogar um verde e quando estávamos somente eu e Wilfred, o trainee, comentei que a parte mais difícil da adaptação não era a língua nem a casa pequena, mas a parte do banheiro e deixei implícito que não se tratava de banho. Ele me disse que também tomava banho de balde, mas que tinha privada na casa dele. O verde não funcionou, então parti para uma estratégia nada sutil e perguntei “may I poop here?”. Ele disse que sim e me deu um rolo de papel higiênico.

Para padrões brasileiros, o banheiro era uma imundície. Para os padrões daqui e meu estado no momento, agradeci a Deus e quase chorei. A propósito, não havia descarga. Eu tinha era que derramar um balde cheio d’água na privada que tinha lá. Terminado tudo isso, saí com a alma tão leve – dentre outras coisas – que, no banho de agora à noite, cantei de alegria. Ah, o banheiro da empresa é normal, segundo Wilfred. Doravante farei tudo lá e segurarei as pontas no fim de semana.

Engraçado que hoje li Mateus 6 e o verso 34 diz: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”. Deus proveu um banheiro. Agora oro para que ele proveja água potável para que eu possa beber. Não bebo água desde que cheguei aqui. Tomei dois copos de coca-cola em refeições diferentes.

Não obstante tudo isso, a prestatividade da família é surpreendente. Esforçam-se por fazer-me o mais confortável possível. Se faço menção de levar o prato pra bica (pra ser lavado), eles dizem que não e mandam uma das inúmeras crianças levar meu prato. Se trago a água restante do banho, eles reclamam dizendo que é pra eu deixar lá e outra pessoa pega pra mim. Franc me acompanhou pacientemente a manhã inteira enquanto eu estava na lan house e Cherone conseguiu uma família batista pra me acompanhar amanhã ao culto. É incrível. Não se cansam de serem hospitaleiros.

É engraçado que as crianças olham pra mim e riem. Eu digo “salut” e correm rindo. Eu dou um tchau e gargalham. Os adultos também me vêem passando e soltam umas risadinhas. Imagino que pensem algo do tipo: “olha que branco estranho!”.

Mais um dia termina. Mais um mal se foi. Qual será o mal de amanhã?

“Ne vous inquiétez donc pas du lendemain: le lendemainse souciera de lui-même. La Peine qui se presente chaque jour suffit pour la journée.” – Matthieu 6:34

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato I - A Ida

Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato I – A ida – 10 e 11 de dezembro

Antes de falar do vôo propriamente dito, falarei de por que vim parar aqui. Há algum tempo eu já estava ciente de que precisaria do domínio de outras línguas que não o inglês. Escolhi, então, aprender francês. Estudei um ano de francês nos horários de almoço da faculdade, mas a língua era tão difícil que sabia que só aprenderia adequadamente se fizesse um intercâmbio. Sendo membro da AIESEC, decidi me valer das incríveis oportunidades que essa organização oferece para o desenvolvimento de potencialidades em jovens, daí aproveitei e misturei o intercâmbio lingüístico com o profissional.

Intercâmbio de francês, para muitos, implica necessariamente intercâmbio à França. Bem, essa nunca sequer foi minha opção. Eu queria mesmo era África, que exerce um fascínio muito maior em mim do que a Europa. De início, pensei em ir ao Marrocos, no entanto, surgiu essa vaga de marketing e vendas numa empresa marfinense, a AFCO Courrier Express, e corri logo atrás dela. Em pouco tempo, eu já estava de contrato assinado, passagem comprada para Abidjan (cidade em que ficarei na Costa do Marfim) e com o visto apropriado. Passei o segundo semestre de 2009, então, aguardando ansiosamente o dia da viagem e eis que ele finalmente chegou!

A parte da viagem mesmo foi assim: voei com a TAM de Cumbica pra Galeão, daí mudei para a Air France e fiz a rota Galeão-Charles de Gaulle-Felix Houphoet Boigny. Um parêntese: Relendo Romanos e lendo Edwards, Whitefield e Spurgeon. Finalmente compreendi plenamente a soberania de Deus. Em minhas viagens anteriores em que eu tentava fazer tudo se encaixar nos meus planos, sempre aconteciam imprevistos realmente perigosos do tipo que nos faz perder um vôo. Agora que minha viagem não é mais minha, mas dEle e eu sou apenas o lacaio, os vôos têm sido extremamente suaves e nada fatigantes. As 11 horas entre o RJ e Paris passaram rapidamente. Minhas conexões foram feitas no tempo exato e as turbulências não me incomodaram. Ele está no comando (Rm 8:23). Aliás, o melhor de tudo foi o atendimento cortês que recebi da TAM (inédito em minha experiência) e a prestatividade da Air France. Não carreguei bagagem nenhuma em lugar nenhum! Despachei tudo em São Paulo e só voltei a pegar em Abidjan, não obstante as informações anteriores à viagem dizerem que eu teria de pegar bagagem e despachá-las em todas as conexões.

Saí do RJ às 10h30 e sobrevoei o Atlântico, Portugal, Espanha e, obviamente, a França na ida. Dormi quase tudo. A comida foi excepcional. Entregaram menu e tudo mais. Estando eu habituado com o sanduíche de miolo de pão da TAM e da Gol – ta certo que essa viagem é intercontinental, mas fiquei feliz mesmo assim – maravilhei-me quando tive de decidir qual seria meu prato quente: lasanha quatro queijos ou sauté de boeuf à l’estragon, riz safrané avec carottes Vichy. Claro que escolhi esse último. Quando veio, minha idéia de era coisa muito chique se foi: era só arroz, bife e cenoura. Depois do jantar, dormi o sono dos justos e só acordei mesmo quando passávamos da Espanha à França.

Chegando ao Charles de Gaulle, peguei o ônibus (navette) e o trenzinho e fui para o local apropriado de embarque para Côte D’Ivoire. Mandei um e-mail para minha digníssima e corri pro avião. Sendo o vôo no período da tarde (14h), pude aproveitar melhor a paisagem. Saindo da França, sobrevoamos o Mediterrâneo, passamos pela ilha de Palma e adentramos a África. Olha, a África é maravilhosa. Vi a cordilheira do Atlas e o Saara parece ser infinito. Sabia que era grande, mas passamos uma três horas sobrevoando, dormi e acordei e ainda estávamos no Saara! Quer ter uma idéia esboço do que significa eternidade? Sobrevoe o Saara.

Não somente a paisagem, mas também o vôo foi agradável. Os comissários de bordo da Air France são muito simpáticos e, ao virem meu casaco do Brasil, riram e falaram comigo. Aliás, que língua difícil é o francês! Identifico uma palavra ou outra, mas por vezes tenho de pedir pra que falem comigo em inglês. Sentada ao meu lado foi uma velhinha de Abidjan. Acho que ela tem bexiga pequena, pois contei que ela foi ao banheiro pelo menos 15 vezes (sério mesmo) nos primeiros 90 minutos de vôo (sento no corredor e ela no banco do meio, aí tenho que levantar toda vez). Depois do almoço a velhinha capotou e dormiu tão profundamente que roncou! Aproveitei esse momento em que ela não tinha que ir fazer xixi pra escrever parte do que vocês estão lendo agora.

Chegando ao aeroporto de Abidjan, Feliz Hophouet Boigny, passei rapidamente pelo cheque do visto. De lá fui pegar minha bagagem. Fiquei impressionado com a inconveniência dos sujeitos na bagagem. Muita gente se oferecendo pra ajudar em troca de dinheiro. Eu dizia que não queria e os homens insistiam. Uma moça marfinense que voltava dos EUA falou comigo em inglês dizendo para evitá-los e ela falou em francês com eles e foram embora. Daí, fiquei com ela e seu motorista até o momento de sairmos. Ela disse que a atividade desses sujeitos não era legal, mas que eles davam parte do dinheiro para os guardas e por isso tinham entrada permitida. A corrupção na África é endêmica.

Saindo do aeroporto, encontrei os rapazes da AIESEC e pegamos um táxi em direção ao local em que eu ficaria.

“Soyez donc parfaits, tout comme votre Père qui est au ciel est parfait” – Matthieu 5:48

PS: Não tenho acesso à internet em casa (nem a água encanada, ou privada, ou fogão a gás, ou chuveiro). Família, fique tranquila seu eu não puder falar com vocês o tanto que gostaríamos. Farei de tudo para dar sinal de vida. Abraços a todos.


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sono dos justos


Peguei ontem a Carta Capital em que figurava o presidente do Irã e abri na reportagem de capa, de autoria de Antonio Luiz Costa, que tinha como headline (não sei se é o termo certo): “O regime de Khomenei e Ahmadinejad no Irã é autoritário, mas não primitivo, nazista ou louco”.

Pra justificar isso, Antonio Costa enche a reportagem de estatísticas (confiram aqui). Engraçado que esse pessoal não aceitaria esse tipo de argumentação na defesa, por exemplo, do período militar brasileiro, que foi muito mais mole e condescendente do que os de nossos vizinhos e ainda cresceu-se alguma coisa. Longe de mim defender autoritarismo, mas autoritarismo por autoritarismo, é mais fácil defender os generais do que um cara que abertamente apregoa a varredura de Israel do mapa e negou a existência de homossexuais em seu país (tomou as dores?).

Essa de “é autoritário, mas não louco e blábláblá” soou-me algo como “ele só espanca velhinhas, não é como se ele estuprasse crianças, odiasse negros e praticasse sacrifícios humanos”. Também, essa história de Ahmadinejad e programa nuclear é tal qual a do sujeito com antecedentes criminais a quem todos se recusam a vender um rifle, não obstante seus mais efusivos esforços em garantir que é apenas para caça esportiva.

Entretanto, cansado em ser o “do contra” e o “intrasigente” da turma, entro no clima: Ah, bom! Ufa! Ele é só autoritário, viu, gente, não que ele seja louco ou algo do tipo.

Graças ao Tonho da Carta, agora dormirei o sono dos justos.