Relato XIV – Viagem Adiada, AIESEC e Paixonite – 04 e 05 de Janeiro
Nada de muito importante aconteceu nesses últimos dois dias. A principal coisa foi que a embaixada do Gana rejeitou meu visto porque não tenho um documento chamado Carte de Résidence – que passou a ser exigido na virada do ano – e frustrou minha viagem, pelo menos por enquanto. Adam e Samantha irão sem mim. De início fiquei bem triste com isso e meio ressentido, por que o Gana rejeitaria um turista? Por acaso eles pensam ser os “United States of Ghana”? Mas tudo bem, o Sr Happy disse que posso aplicar por uma Carte de Résidence e obtê-la num espaço de 10 dias úteis. Desse modo, adio a viagem para fevereiro.
Além disso, meus sentimentos negativos passaram não após palavras amigáveis de minha irmã, mas de uma chamada de atenção via MSN: “é fácil falar de Deus, quero ver é viver essas palavras”. Apesar de tratar-se de outro assunto no momento, essa chamado veio para lembrar-me de Rm 8:28 e de que nada é acaso, mas providência.
Mudando um pouco de assunto, tive uma discussão por e-mail com um representante da AIESEC sobre a falta de comunicação da organização comigo e ele veio aqui em casa e falou comigo e com o Wilfred pessoalmente. Eu disse que por 20 dias ele não havia me ligado ou enviado e-mail para saber como andava minha adaptação. Disse também que isso não seria importante caso eu tivesse ido para a Argentina, por exemplo, mas no momento em que estou do lado oposto do Atlântico, num país não somente de língua diferente, mas com costumes inteiramente estranhos a mim e no bairro mais pobre do distrito mais pobre de Abidjan – em que até um vaso sanitário, encanamento interno e ter mais de 4 lâmpadas elétricas numa casa é um luxo – o contato próximo se faz mais do que necessário. Mencionei que estava extremamente desapontado com a AIESEC Côte D’Ivorire e que graças a Deus eu sou vizinho do Wilfred, que, apesar de estrangeiro, é Africano e tem o francês como língua nativa e dispõe de muitos elementos culturais em comum com a Costa do Marfim. O membro da AIESEC pediu desculpas e garantiu que não vai tornar a acontecer.
A mudança já se faz visível. A AIESEC vai ter um “beach day” para os estagiários, assim, os que já estão aqui e os que acabaram de chegar (um chinês, um taiwanês e doisnigerianos, segundo me consta) podem se conhecer e tudo mais. O beach day está previsto para domingo agora.
Falando um pouco da família, as previsões de minha digníssima, a Lili, se concretizaram. Segundo ela, eu sou de tal modo lindo que todas as “menininhas” (uma de suas palavras preferidas) se apaixonarão por mim uma hora ou outra. Bem, no caso aqui, é literalmente uma meninha: a Benedicte, de 7 anos. Sempre que eu chego, ela está a me esperar toda arrumada, senta perto de mim com a cabeça escorada no meu braço, quer que eu tire fotos só dela e não das outras crianças e – e esse foi um dos dois motivos que me levaram a perceber sua pequena paixão (o outro foi Wilfred dizer “ela está apaixonada por você) – ela não gosta de ver fotos minhas com a minha linda digníssima. Se deixo meu computador aberto com uma foto minha e da Lili no desktop, isso funciona como repelente pra Benedicte. Vou, singelamente dar um corte nela para que ela pare com isso. De qualquer forma, já consigoouvir em minha mente o “haaaaaaaaaammmmmmmmm!” pronunciado pela Lili quando me encurrala (seu esporte preferido), assim como também consigo visualizar seus lábios um contra o outro e o narizinho retorcido que sempre acompanham esse som.
Ah, aqui vai uma coisa nada a ver: hoje eu vi o cúmulo da nojeira, que foi a mulher no táxi comigo palitando os dentes com um osso de galinha! Eca!
No mais, estou bem de saúde e nenhum mal tem me acometido. Lili, estou com muitas saudades e mal posso esperar pra dar um cheiro nesse cabelo cheiroso pra esquecer a nhaca daqui. Pai, Mãe e Saroca, podem sossegar que não estou comendo porcaria (num sentido amplo do texto, porque não posso garantir a origem da comida daqui). Aos demais, obrigado pelas orações. Que Deus guarde a todos vocês.
« Nous savins une chose : Dieu fait tout pour le bien de ceux qui ont de l’amour pour Lui. Ceux-là, il les a appelés selon son projet » Romains 8 :28
Relato XIII – Curtas de Fim de Ano do Indiana Neitan– 28 de Dezembro a 03 de Janeiro
Nesse período pós-natal e ano novo não tive nenhum acesso à internet. Sendo assim, compilei o que lembrei em curtas (umas mais longas que as outras) para que vocês saibam como foi minha virada de ano. A propósito, viajei pra Yamoussoukro, a capital política do país no dia 31. O plano era voltar no dia 3, mas como lá não tem nada, voltei no dia 1º. Bem, espero que gostem das curtas. Abraços e Deus seja com vocês.
***
A Vingança
Quem tem acompanhado o blog sabe que divido a cama com meu “irmão”, Franc. É muito difícil dormir por dois motivos: (1) o colchão da cama é praticamente um tablado e (2) o Franc me chuta o tempo todo. Por estar dividindo a cama, esforço-me para não fazer movimentos que possam vir a incomodá-lo. Infelizmente, o mesmo esmero não se encontra nele, que, por vezes, ocupa 80% da cama com seus braços e pernas estiradas. Como eu naturalmente acordo antes de fazer qualquer movimento brusco capaz de acordá-lo, nossa situação é aquela do diagraminha dos jogos em que um jogador executa a jogada e o outro não, resultando num payoff positivo (noite bem dormida) para o primeiro (Franc) e um payoff bem negativo (noite pessimamente dormida) para o segundo (eu). Por vezes, seu pé preto número 47 fica a centímetros de minha cara.
Aproveitei uma das vezes em que acordei após um chute e surrupiei o travesseiro do meu mano. De manhã cedo, após outro chute, tirei o travesseiro do esconderijo (debaixo da cama) e pus perto dele. Assim, quando ele acordou, sequer imaginava de onde vinha o torcicolo de que tanto reclamava.
O Fedorento
Outro atributo do Franc é seu fedor. Todo mundo aqui tem uma nhaca marcante, mas a do Franc é realmente a referência. Ele deixa suas camisetas penduradas e quando me levanto da cama aquela catinga impregna minhas narinas. Somente lendo isso, é difícil para que vocês desenvolvam empatia suficiente para realmente saberem o que eu tenho que cheirar todo dia. Achei um modo para exemplificar.
Sabem aquele cheiro tão forte que torna capaz até sentir o gosto? Quem anda por São Paulo vê muitos carrinhos vendendo milho. Às vezes sequer o avistamos, mas o cheiro gostoso do milho verde nos faz saber que dentro em pouco avistaremos um vendedor e já até podemos saborear o quitute. Captaram?
O suor do Franc – que dorme comigo toda noite – é de um azedo tal que é como se eu tivesse dado uma lambida num picolé de mijo.
A Indiscreta
Volto do trabalho e chego em casa. Converso ainda alguns assuntos de trabalho com o Wilfred, que é meu vizinho, e uma das gêmeas caçulas – não sei bem qual porque eu realmente não consigo diferenciá-las – sai de casa, vai até o pé-de-manga, abaixa-se e começa a fazer xixi. Terminada, levanta-se, vem me dar um abraço e entra em casa. Diante disso, dois lembretes: nunca andar descalço e nunca mais segurar as mãos das crianças daqui.
A Correção
Essa foi a “Maman” que me contou. Estava ela na feira (aquela do peixe) quando uma senhora da igreja batista perguntou como andava o Natu. “Natu? Quem é Natu?” – perguntou Maman. “Teu filho branco, ora!” – redargüiu a irmã. “Meu bebê não se chama Natu! Ele se chama Natón!”
E tenho dito!
Autoridade
Fiz um amigo polonês aqui e seu nome é Adam. Como AIESEC é inexistente para nós, então os estagiários estrangeiros se arranjam uns com os outros para sociais e afins. No último happy hour no bar brasileiro, cada um falava de seu trabalho. Eis mais ou menos o relato de Adam:
“Trabalho numa ONG com 12 outros caras e eles não fazem nada o dia inteiro e, após um mês aqui, não me deram nada pra fazer. Não há banheiro no trabalho e todos nós fazemos xixi numa das paredes. O pior, contudo, não é isso. Ao longo do dia, devido ao calor, os rapazes tiram peças de suas roupas. O chefe é sempre o com menos roupas e fica só de cuecas. Quando ele não está, é política da empresa que o mais despido fica no comando. Sempre sou um subordinado.”
Grifos meus.
Caçando com gato
Mais uma de Adam. Estávamos nós na embaixada do Burkina Faso querendo saber como obter um visto quando Adam perde a paciência e fala ao funcionário com seu péssimo francês e seu insipiente espanhol:
“Comment puis je obtener el visto burkineño?!”
A Máxima
Meu pai – o brasileiro – é conhecido na família por suas célebres “máximas” (nada) filosóficas. Bom filósofo de poltrona que é (ou seria de rede?), ele me diz ao conversarmos ao telefone:
“É, meu filho, você aí é um pingo de leite num balde de café”
Profundo, páps!
Na casa do chefe – Parte I
O Sr Happy Happy ficou muito feliz (trocadilho interlinguistico infame, eu sei, mas não resisti) com meu trabalho em livrar seu computador dos vírus. Eu só instalei o AVG e apertei “verificar”, mas tudo bem. Ele contou pra esposa e fui designado para ir à casa do chefinho instalar o antivírus no PC doméstico, que roda há um ano SEM antivírus.
O motorista me levou até a casa do chefe e quem me atendeu foi uma Sra Happy Happy com máscara de beleza (cúmulo da inutilidade) e os cabelos arrepiados. Após um esforço hercúleo para não rolar ao chão gargalhando diante dessa besta-fera, entrei na casa e fui tentar arrumar o computador.
O computador está tão leproso que sequer o internet browser roda. Ele até abre na página do Google, mas fecha mediante a ordem de rodar qualquer aplicativo mais importante. Após 40 minutos tentando entrar nos sites de download de softwares, consegui dar a ordem pra baixar o AVG. O download demorou muito e o arquivo veio corrompido. Nesse meio tempo, chegou a mãe da Sr Happy Happy, que berra tão alto quanto a filha.
Após anunciar o fracasso, a ufanista Mamãe Happy Happy fala “não consegue nem arrumar isso, vem querer colonizar a gente?”. Não houve sentido nenhum no que essa velha louca gritou, mas confesso que a última coisa que eu esperava encontrar no lar dos Happy Happy fosse nexo.
Na casa do chefe – Parte II
O Sr Happy Happy insistiu que eu voltasse lá ao dia seguinte do relato acima e assim ocorreu. Voltei lá e, como sempre, nada deu certo. Avisei ao chefe que ou ele chama um profissional ou compra outro computador. Mas o que realmente chamou atenção foi a Mamãe Happy Happy, que se encontrava lá novamente. Ao atender ao telefone, ela começou a conversar normalmente com sua amiga e lá pras tantas disse que não havia nada de novo, só o “branco de ontem” mexendo no computador. Mulher chata do meu abuso!
Zangado
Lembram do moleque capeta que me chamou de dentuço? Pois ele é o capeta mesmo. Atazana a vida das crianças mais novas que ele. Saindo na terça à noite para o culto, ele e mais dois outros moleques de sua idade (uns 9 anos) seguravam no chão e amarravam os pés duma menina de uns três anos. Irei-me e gritei para pararem e eles se afastaram de susto. Nunca tinham visto o le blanc aqui irado. Desamarrei a coitada e mandei os moleques virem tentar fazer o mesmo comigo. O capeta e seus dois amigos fugiram e isso foi para alegria geral do público menor de cinco anos, as vítimas costumazes das traquinagens desses três.
Indagação (Em Yamoussoukro)
Eu andando na rua quando:
MOÇA ALEATÓRIA: Le Blanc, você é da ONU?
EU: Não.
MOÇA ALEATÓRIA: Você não é do corpo de paz?
EU: Não.
MOÇA ALEATÓRIA: Você não é dos militares estrangeiros?
EU: Não.
MOÇA ALEATÓRIA: Mas já foi militar, não?
EU: Como é?
MOÇA ALEATÓRIA: É que você anda marchando.
Surpresa (Em Yamoussoukro)
Passando pela boulevard principal de Yamoussoukro, vejo pintado numa parede um coração vermelho contendo uma pomba em cima dos dizeres “Église Universelle Du Royame de Dieu”. Até aqui?!
Fundação Felix Boigny (Em Yamoussoukro)
Chegamos eu e Wilfred na fundação e pergunto pro guarda se precisamos mostrar documento pra entrar. Ele responde que sim e que tem que pagar: 1000 francos pra marfinenses e 2500 francos para europeus.
“Não sou Europeu, sou brasileiro” – digo e mostro o passaporte
“Mas você é branco, não é?” – responde o guarda
Fiquei bravo e disse que no meu país isso era crime. “Mas fazer o quê? Vir para essa selva distante da civilização que é a Costa do Marfim foi escolha minha, não?” – resmunguei.
Tirei foto do lado de fora mesmo e fui embora.
Gambá no Campo de Flores
Franc decidiu sair pra curtir a noite com seus amigos. Antes de sair, pede meu desodorante e meu perfume emprestados. Eca!
A Crise Existencial
Eu voltando da igreja quando uma menininha faz o que todas as crianças fazem: apontam pra mim e gritam “le blanc!”.
Em face disso, brincando, retruquei apontando do mesmo modo: “la noire!” (=negra), ao que ela responde: “onde??”
O Monstro e o Pulo
Todo mundo já sabe do medo que a Roxanne tem por mim. Contudo, tenho que relatar o que ela fez tão logo voltei da igreja.
Entre pela porta do cortiço, ela me viu e, como não sabe andar ainda e só engatinha, fez um esforço estupendo e, tal qual uma rã, articulou seus bracinhos rechonchudos e suas perninhas roliças e conseguiu dar um pulo para detrás do parapeito e se esconder de mim. Isso me fez lembrar de uma vez que assisti a um programa no National Geographic sobre as pulgas e como elas pulavam 30 vezes seu tamanho. Mutatis mutandis, essa é a Roxanne.
A propósito, o decurso de seu medo é o contrário das demais crianças; não diminui com o tempo, só aumenta.
Extravagante
Tento o máximo possível ser discreto, pois eu chamo muita atenção mesmo quando não faço nada. Infelizmente, o pessoal aqui não coopera muito. Saio do quarto pra ir à latrina fazer xixi quando:
PAI: Pra onde você vai?
EU: Fazer xixi.
PAI: Ao banheiro, então?
EU: É.
(ele bota a cabeça pra fora da porta de casa)
PAI (berrando): SAIAM DO BANHEIRO PORQUE O NATAN VAI MIJAR!!
MURMÚRIO GERAL: Hihihi! O Natan vai mijar!
JUDITH (criança vizinha): O Natan faz “pipi”?!
(estardalhaço dos meus “pais” para que ninguém entre no banheiro antes de mim. Caminho até o banheiro)
MURMÚRIO GERAL: Hihihi!
(Judith insiste)
JUDITH: Branco faz “pipi” mesmo? Eu nunca vi o Natan fazendo!
Mme Agathe (mãe da Judith): É porque ele não faz na rua, só na latrina.
JUDITH (e demais crianças que tinham a mesma dúvida): Ahhhh!
EU: ...
Entrei, fiz xixi e voltei pra casa. No caminho de volta, todos olhavam pra mim e continuavam rindo. Tenho de achar um modo de convencê-los que sou de outro país, não de outro planeta.
"Béni soit le Dieu et Père de notre Seigneur Jésus Christ, qui nous a bénis de toute bénédiction spirituelle dans les lieux célestes en Christ selon qu'il nous a élus en lui avant la fondation du monde, pour que nous fussions saints et irréprochables devant lui en amour,nous ayant prédestinés pour nous adopter pour lui par Jésus Christ, selon le bon plaisir de sa volonté, à la louange de la gloire de sa grâce dans laquelle il nous a rendus agréables dans le Bien-aimé." - Éphésiens 1:3-6
O culto de hoje foi conforme me haviam informado: seria um louange spécial (louvor especial). Durante duas horas, cantaram, gritaram, berraram, pularam e caíram, ou seja, tudo o que os marfinenses fazem em seu tempo livre (e boa parte das suas horas de trabalho), mas agora, aparentemente, para a glória do Altíssimo. Não sei houve pregação no culto de hoje, pois parti mais cedo. O fator que me motivou a sair de lá foi quando o coral passou 12 minutos – coincidiu de eu conferir o horário em meu celular no início e no fim do negócio – cantando “lá lá lá” (as mulheres) e “lô lô lô” (os homens) em diferentes ritmos, cadências e tons.
Bem, a praga pentecostal domina nesse país – e isso NÃO é juízo temerário – e, tal qual no Brasil, esse lixo carente de teologia e doutrina glorifica personalidades e feitos humanos no lugar de Deus. Todo cartaz pentecostal é como um cartaz de publicidade de show: “Venham! Pois quem vai falar é o fulano!” ou “Não percam o coral abençoado de não sei aonde” ou ainda “Venha receber o batismo de fogo do servo que curou não sei quantos doentes” e por aí vai. Na igreja em que tenho freqüentado, tem sido assim desde que o pastor com quem tive uma discussão se fez mais presente (da semana passada em diante) às ordens da igreja central. Respondendo, finalmente, à pergunta implícita: se não houve louvor a Jesus em 50 minutos de culto, mas louvor ao cantor convidado e ao seu coral monossilábico, tampouco haveria no tempo restante.
Também como no Brasil, domingo é o dia de maior idolatria "cristã" na Costa do Marfim. As pessoas fazem um parêntese de suas vidas mundanas e passam duas horas rendendo louvor à sua própria e idiossincrática idéia de deus que, de modo nenhum, condiz com o Deus bíblico. Os cultos regulares têm cerca de 150 pessoas. Hoje, devido à divulgação do “louange spécial”, a igreja transbordou de gente bradando o nome do Senhor. O versículo de Mateus 7:22 me veio à mente. Pois bem, decidi voltar pra casa, ouvir um sermão do Pr Paul Washer em meu computador, avançar em minha leitura de Lucas e louvar o verdadeiro Deus com os hinos do CC.
A praia, por sua vez, foi muito boa. Fica fora de Abidjan, numa cidade chamada Bassam e é uma jornada e tanto. Chegando lá, comprei um chapéu (muito sol e muito quente) e uma camisa da seleção da Costa do Marfim após acaloradas negociações com os ambulantes. Chegou uma hora que eu disse pra eles que queria o preço pra preto, não pra branco. Eles diziam que não dava e eu replicava com um au revoir e fazia menção de ir embora, aí eles abaixavam. No fim das contas, comprei o chapéu de 4000 francos por 2000 francos e a camiseta de 8000 francos por 3000 francos. Ora, mais.
Na praia, andei pela orla e entrei nos hotéis pegando o cartão de visita dos proprietários – quase todos são franceses – e pretendo dar esses cartões pra que a AIESEC daqui possa abordá-los. Quem sabe eles fecham negócio e ajuda a pagar a dívida que eles têm com a AIESEC International. Além de mim e de Wilfred, a estagiária da Lituânia também veio e, quando estávamos indo embora, encontramos outros dois AIESECos brancos perdidos por aqui: um polonês e uma cingapurana (isso está certo?). Combinamos de nos encontrar na segunda, no restaurante brasileiro.
Eles também são pra lá de aventureiros e me aceitaram na expedição deles que passará por Gana, Togo, Burkina Faso e Mali. Só tenho agora que conferir o orçamento e as datas. Mas isso será discutido amanhã à noite. Estou muito empolgado!
Bem, cheguei agora dessa jornada e estou muito exausto. Vou tomar banho e dormir. Deus os guarde.
Relato X – Bolo, Indignação e o Duelo Galinácio– 26 de Dezembro
A viagem pra Niamé foi cancelada porque o familiar que nos receberia está doente. Eu também não estou muito bem. O nariz entupido resistiu à semana inteira e perdura agora no fim de semana. Além disso, os mosquitos marfinenses têm feito a festa com o sangue do le blanc aqui a despeito de seus esforços com repelentes e afins. Por algum motivo, eles só atacam minha perna direita. Mostrei pros pais da família e, pelo que entendi, a mãe vai fazer um repelente com as ervas medicinais da casa e eles trocaram a fronha do travesseiro e a colcha da cama. Eles são muito gentis e fazem de tudo para me deixar sadio e confortável, graças a Deus.
Com a viagem cancelada, Wilfred arranjou um programa pra gente fazer. Aqui em Yopougon, a irmã do presidente da AIESEC Côte D’Ivoire, Levy, se casou hoje, sábado, e fomos convidados. Combinamos que nos entraríamos no terminal de Yopougon às 11h da manhã e de lá partiríamos juntos para o casamento. No horário combinado, eu e Wilfred estávamos lá, mas não o presidente. Às 12h15, ligamos para Levy para saber onde ele estava, pois esperávamos desde antes das 11h. Ele disse que ia tomar banho para sair. Decidimos, então, ir ver apartamentos para alugar, pois a noiva de Wilfred e sua filha vão se mudar para cá. Por volta das 12h40, Levy liga e pergunta onde estávamos. Wilfred pede para que ele espere quinze minutos, pois estávamos vendo um apartamento. Levy diz que não pode esperar e que vai sem nós. Ou seja, esperamos quase duas horas pelo bonitão, mas ele não nos pode esperar por quinze minutos.
A falta de pontualidade, pode-se observar, é tão endêmica na Costa do Marfim quanto a preguiça dos profissionais, a corrupção das autoridades e a palermice da polícia. Não há nada, friso, absolutamente NADA, nesse país que comece no horário. Empresas, escolas, aeroporto, órgãos do governo e conferências da AIESEC. Tudo se atrasa e não são apenas “quinze minutinhos”. Os atrasos daqui são de 50 minutos pra lá. Aliás, em relação a AIESEC, nota-se uma verdadeira diferença entre o escritório do qual faço parte – AIESEC na FGV – e a AIESEC em Côte D’Ivoire. No escritório da FGV, somos todos muito novos, mas levamos o trabalho a sério. Levamos os intercambistas para conhecer a cidade, nos comunicamos com eles com freqüência para saber como estão se adaptando ao novo ambiente, escolhemos empresas boas para que eles trabalhem (não empresas em que o INSS local ameaça fechar devido a falta de pagamento dos direitos dos empregados) e lhes enviamos avaliações no início, no meio e no fim do intercâmbio para saber como eles avaliam o nosso suporte a eles. É com orgulho que digo que a AIESEC na FGV prima pela qualidade. A AIESEC aqui, por outro lado, é praticamente inexistente pra mim. NUNCA recebi uma avaliação deles para responder, NUNCA me fizeram uma ligação para saber como estou e NUNCA me levaram para fazer o tour da cidade. Pelas regras internas da AIESEC Internacional, uma hora haverá alguma avaliação para eu preencher com fins de avaliar a qualidade de serviço para com o intercambista. Quando eu for preencher a avaliação, não serei mau com a AIESEC daqui, serei justo e isso bastará.
Graças a Deus não preciso da AIESEC daqui. Achei favor a Seus olhos e Ele me pôs numa família maravilhosa e com um vizinho-colega de trabalho-amigo muito prestativo. Não fosse por Wilfred e pela família, não sei como estaria minha adaptação aqui. O escritório da FGV, na verdade, está me dando mais suporte do que a AIESEC local! A Diretora de Intercâmbio, Mariana Hermanny, ciente da tendência malandra do meu chefe, já se prontificou a tratar com a AIESEC Côte D’Ivoire caso ele atrase meu salário. Apesar de eu apreciar a prestatividade e a iniciativa, duvido muito que a AIESEC daqui possa fazer muita coisa, pois eles são irresponsáveis financeiramente e devem 900’000 francos (=US$20’000) pra AIESEC International. Entendam que não estou murmurando ou insatisfeito com o fato de estar onde estou, o motivo de minha indignação é que eu estou cumprindo um acordo escrito e a outra parte não está. Graças a Deus, ele tem providenciado mais do que eu preciso, pois sua graça me basta.
De qualquer forma, voltando ao cotidiano, joguei bola com a molecada, levei uma queda após cerca de 20 crianças pularem no coitado do le blanc e presenciei um duelo de frangos. Esse último merece uma rápida menção: um frango ciscava no local de outro frango e o frango proprietário, sentindo-se injuriado pelo frango invasor, botou-o pra correr. Voaram penas e cacarejos pra todo lado. Nunca vi um frango tão zangado por ter sua “propriedade” invadida.
Sujo, suado e cansado, tomei banho, fiz ainda algumas brincadeiras de roda com as crianças e vim jantar no quarto, onde, no momento, também escrevo este relato. Depois, irei avançar em minha leitura de Lucas e vou dormir.
Obrigado pelas orações e que Deus os abençoe como tem abençoado a mim.
Esse blog é pura estratégia emergente. Eu queria tentar fazer algo de negócios, mas aí percebi que sou apenas um estudante aprendendo a papagaiar fielmente o que professores papagaiam de outros autores.
Então comecei a escrever sobre coisas que realmente me interessam: amenidades cômicas do cotidiano. Mas não perco a esperança jamais! Um dia ainda escreverei algo que preste.