Registro de Viagem: Costa do Marfim
Relato XX – Voltando a Pé e Assustando a Candidata –18 de Janeiro a 20 de Janeiro
Na segunda-feira, dia 18, fomos eu e Wilfred a alguma reuniões na área comercial de um distrito chamado Treichville. A libanesa lá da empresa deu o não mais categórico e cruel que já ouvi em minha vida à nossa proposta de contrato. Estamos refazendo para propor-lhe um novo. De qualquer forma, o importante dessa história é que eu sempre saio de casa com o dinheiro contado e que, nesse dia, as reuniões no bairro longe foram avisadas pelo Sr Happy quando cheguei ao trabalho do mesmo dia às 08h00. O bandidão do Happy saiu do trabalho mais cedo, às 15h, quando eu não havia ainda retornado da maratona de reuniões e nem almoçado. Resultado, nada de reembolso, ou seja, nada de almoço e de táxi pra casa. Amarguei os 8 km de caminhada entre casa e o trabalho com o estômago roncando, suor encharcando minha camisa boa da Agnelli – escolhida especialmente para ir às reuniões desse dia – e cheirando a catinga da Lagune Ébrie. À noite, até sonhei com o chefinho. Sai pra lá!
Na terça, dia 19, recebi o reembolso devido. Fui a algumas reuniões e quando voltei à tarde (dessa vez, já devidamente alimentado), tinha uma mulher que queria ser entrevistada para ser nossa vendedora free-lance. Quem que teve que entrevistar? Quem é o estagiário mais moderno? Aêê! Eu mesmo! No melhor estilo “cut the crap” ocidental, pedi para que me desse suas qualificações, idade, experiência anterior e como ela havia conhecido a nossa empresa. Bem, a mulher fez um curso técnico de alguma coisa que já não me recordo, alegou trabalhar em tempo integral na secretaria de uma empresa alimentícia local e não quis revelar a idade, me chamou de mal-educado e deu risadinhas. “Madame, que l’age avez-vous?” – perguntei sério. Ela parou de rir e disse que tinha 30 anos. “Você ainda não respondeu como conheceu a AFCO” – ressaltei. Nisso, ela responde que foi por meio de uma amiga que trabalha na empresa Sunshine. Ora, a Sunshine é uma concorrente perigosíssima. Pensei logo que a mulher tinha vindo fazer espionagem (na Costa do Marfim, é máfia pura; foi assim que o Happy conseguiu a tabela de custos da concorrência). Já não gostei dela.
Perguntei, então, quanto ela queria de comissão. Ela respondeu que queria “o que a gente pudesse dar”. “0,001% está bom, então?” – perguntei. Ela recusou. Daí:
EU: Quanto você realmente quer?
CANDIDATA: Faça uma proposta. Pois, para mim, o mais importante é a experiência.
EU: Sei. 0,002% está bom?
(risos da candidata)
EU: Escute, Madame. Está na hora de levar essa entrevista a sério. Tenho quase 10 anos a menos que você, mas isso não é pro forma. Você pode achar que não falo de verdade quando ofereço 0,001%, mas tenha certeza que é. Agora, quanto você quer de comissão. E é interessante que passe a ser sincera.
CANDIDATA: Eu tenho uma família muito grande para sustentar. Muitos irmãos. Quanto você pode me dar?
EU: Você entende que me deu mais argumentos para manter a comissão baixa? Se você está em necessidade, terá que aceitar o quanto eu quiser dar. Sua última chance. Quanto você quer?
CANDIDATA: 10%.
(risos meus)
EU: 10%? Para alguém com sua pouca formação e falta de experiência na área? Dou-lhe 2,5%.
CANDIDATA: Mas é muito pouco!
EU: O que interessa não é a experiência? Eu praticamente pago para trabalhar aqui. Você ainda receberá 2,5%.
CANDIDATA: Mas aí não dá pra mim.
EU: Vamos fazer o seguinte. Você passará por um período teste de duas semanas. Sua comissão será de 4%. Se você apresentar resultados, poderemos negociar suas futuras comissões para cima. Volte amanhã para que eu possa treiná-la e você receberá nosso material. A que horas você pode?
CANDIDATA: 15h
EU: Alors, a demain 15 heures!
Hoje, quarta-feira, dia 20, já são 16h30 e a moça não apareceu. Eu, hein.
Deus os guarde.
PS: Fui informado agora, 20 minutos após a postagem, que a candidata ligou para o Sr Happy dizendo que, após refletir, decidiu não passar pelo período de teste e que desistia da vaga. AFCO é CAVEIRA!
