segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XIX - Mudança e Praia


Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XIX – Mudança e Praia –13 de Janeiro e 17 de Janeiro

Nessa última semana não escrevi muito. Dentre os motivos para tal estão a falta de novidades e a mais absoluta falta de vontade de escrever. Aqui então segue um resumão do que aconteceu nessa semana que passou e o relato do dia de ontem (dia 17, domingo).

Parêntese: recebi meu salário. O Happy me pagou tudo!

Bem, essa foi uma semana de transição. Passei exatos 1 mês em Youpougon Andokoi, que, mesmo com uma família muito generosa e gente fina, não deixa de ser um antro de drogas, bebedeira e prostituição. Agora que já saí de lá, posso falar à vontade que meus pais e minha digníssima não vão se preocupar; afinal, já saí mesmo. Preocupação retroativa seria o cúmulo. Após esse mês vivenciando o pior que Abidjan tinha para me dar (sabiam que 50% das ocorrências das páginas policiais vêm exatamente de Yopougon?), passei uma semana num hotel, que ainda era em Yopougon, mas numa área em que luxos tais como asfalto e constância na corrente elétrica já haviam chegado. No sábado, peguei minhas malas, entrei num táxi e fui direto para Marcory, o bairro libanês, onde ficarei até o fim do intercâmbio, se Deus quiser.

Quando digo bairro libanês, significa que entre 20 e 40% do bairro é libanês. Mesmo assim, é muita coisa. Isso significa que eu sempre vejo brancos para onde quer que eu vá. Por mais politicamente incorreto que possa parecer, isso me traz segurança. As ruas libanesas mesmo – como a que eu moro – então, quase não têm africanos. Uma dessas ruas é a Rue de la Paix (Rua da Paz), onde há vários restaurantes árabes. Fiz amizade com o donos de um restaurante, o Achmed (tio) e o Aiman (sobrinho). Adoram o Kaká, adoram o Robinho, gostam do São Paulo e fizeram festa quando conheceram um brasileiro. Passei lá já algumas vezes, não para comer (só comi uma vez lá, para falar a verdade), mas para vê-los jogando uma espécie de gamão árabe. É bem engraçado. Quando eles começam a discutir em árabe, então, é extremamente cômico. E, de fato, eles devem falar coisas engraçadas um pro outro, pois não tem ninguém no restaurante que não gargalhe também. Entro na onda e morro de rir. Outra coisa engraçada é que o Achmed, parece, é o solteirão cobiçado da área (segundo ele próprio). Essa certeza de charme irresistível rendeu-lhe o apelido de “Vini Terranova”.

Em casa está tudo muito ótimo. O lanchinho do outro dia foi um suco de frutas dos Emirados Árabes Unidos, pão, queijo francês, geléia marroquina e, para melhorar a digestão, iogurte espanhol. Tenho recebido muitas dicas de queijos por parte do Sr Reda Mourtada, o generoso anfitrião que me hospeda. Na casa, somos apenas nós dois e a empregada. Gente, nunca tive empregada antes!! A sua esposa e seus filhos são brasileiros e retornaram ao Brasil no sábado após uma longa temporada aqui na Costa do Marfim. Atualmente, estou no quarto que era de sua filha. O quarto é muito confortável, cheiroso (!!), há uma cama só para mim (!!) e é uma SUÍTE. O banheiro tem ducha, banheira e uma privada! E mais: tudo limpinho! Esqueci de mencionar ainda duas coisas: na casa, tem INTERNET e a TV pega a Record! Haha! Acho que minha felicidade fica evidente pelo fato de eu nunca ter usado tantos pontos de exclamação antes em um único parágrafo.

Agora, quanto ao dia da praia ontem, no domingo. Bem, era pra ter sido semana passada, mas como tudo que africanos gerem, a empreitada esteve malfadada desde seu início e, por motivos mil, foi adiada pra ontem, domingo dia 17. O dia na praia era pra ser uma coisa para os estagiários estrangeiros, mas a maioria foi de gente da AIESEC local também. O preço do transporte seria 2000 francos, mas arranjei-me por conta própria e gastei menos. Contudo, sabendo dos costumazes caloteiros que são os africanos e pesaroso que ficasse complicado pro organizador do dia na praia, ainda dei-lhe 1500 francos para que ele não me enchesse o saco durante o dia. Um pouco da caridade ocidental.

Fui informado de que devia estar às 08h00 da manhã na rodoviária; a estagiária lituana, que às 08h deveria estar no escritório da AIESEC no bairro de Treichville; e a estagiária recém-chegada da Noruega, que às 08h deveria estar no escritório da AIESEC no bairro de Instech. À hora que nos foi informada, nós brancos estávamos respectivamente nos locais preordenados. Após 40 minutos de espera na feia e suja rodoviária, liguei para a lituana e perguntei se o programa havia sido cancelado e não me avisaram; ao que ela respondeu que não sabia e que não havia ninguém da AIESEC em Treichville. Ela disse que ia ligar pra Norueguesa e iam se juntar a mim na rodoviária, onde pelo menos tem movimentação e polícia. Pouco depois, ela ligou avisando que estava a caminho e disse que não havia sido cancelado nada, mas apenas um “pequeno atraso”. Já eram 09h00. Decidi, então, ir comprar comida e refrigerante para passar o dia, pois não apenas era mais barato comprar na rodoviária como também me recuso a beber qualquer suco manufaturado pelos africanos, que é o que iriam levar.

Às 10h30 chegou a primeira pessoa da AIESEC. Atraso de, quem diria!, apenas 2h30. Saímos às 11h00, ou seja, após passar 3h00 do meu domingo naquela estação rodoviária. O ônibus parou na metade do caminho e nós descemos. A praia não era a que eu imaginava. Engraçado, pois eu não via praia, mas um matagal. Tirei os pontos cardeais pelo sol – ainda era possível, pois não tinha dado meio-dia – e vi que, pela lógica geográfica, o Golfo da Guiné estava após o matagal. Os soldados que lá estavam pediram passaportes dos brancos, aos quais dei com grande sorriso; sorriso esse certamente influenciado pelos AK-47 que eles portavam. Dos africanos, eles pediram propina mesmo para deixar o grupo passar. Passamos, chegamos à praia e já eram quase 13h. Eu comi o biscoito recheado que comprei e tomei minha fanta. Os africanos comeram Garba, literalmente: o peixe apodrece e depois ele é frito e comido com mandioca. Mais tarde, chegou uma canadense que muito lembrava a Fiona do Shrek.

Peguei meu livro do Spurgeon, fui para baixo de um coqueiro e fiquei lendo. Eu havia levado o livro de modo preventivo e vi que foi uma atitude inteligente. Disseram que haveria muitos estagiários no dia da praia. Bem, tinha eu, a lituana, a norueguesa e a Fiona. Os outros estagiários eram nigerianos e ganenses, ou seja, exatamente iguais em todos os possíveis aspectos aos marfinenses. Beberrões, imundos, não educados, barulhentos, adeptos de brincadeiras pouco apropriadas, dentre outros atributos. Antes que me achem cruel e segregacionista, eu dei uma chance a eles. Entretanto, quando começou a batucada e, no maior estilo farofeiro também presente, as africanas começaram a dançar deixando transparecer seu desejo oculto de serem autênticas prostitutas baratas (isso, infelizmente, pode ser visto entre as moças de família que estudam nas faculdades mais caras do Brasil), saí e deixei-os. Essa praia afastada é um local de repouso. Alguns pais de família que estavam lá inclusive reclamaram da batucada toda. Após ler quase o livro inteiro, voltei para onde estava todo mundo para conferir minhas coisas (não, não confio neles, aprendem a roubar de berço e passar a perna num branco é sinal de status). O local estava I-M-U-N-D-O. Latas de refrigerante e cerveja para todo lado na areia. Ultrajado, peguei alguns sacos do chão mesmo e comecei a limpar aquela joça. Um dos caras, chamado Dominique – um tremendo dum babaca, fica tirando sarro do meu sotaque e ignora que estou aprendendo francês – veio, quem imaginaria!, tirar uma com a minha cara por estar jogando lixo no lixo. Eu disse que não podia evitar, pois “na civilização, de onde eu venho, isso é não é apenas reprovável, mas crime”. Um nigeriano se insinuava insistentemente para as brancas a tal ponto que elas se irritaram. Africanos realmente nos tiram do sério com sua insistência idiota. Nesse ponto, o fluxo natural das coisas aconteceu: os estagiários brancos estavam de um lado com as famílias francesas que restaram e os africanos continuavam a batucada patética do outro lado. Bem, a canadense que parece a Fiona estava com os africanos, pois ela quer concorrer a um cargo da AIESEC na Costa do Marfim e tem que ganhar a simpatia do povo, ou seja, tem interesses eleitoreiros. Isso já era perto da hora de ir embora.

Quando chegou a hora de ir embora, notei que não havia um plano concreto para pegar ônibus. Estávamos eu, a lituana a norueguesa tentando estimar a que horas chegaríamos quando, do nada, para salvar o dia, quem passa com um 4x4 e bradam “Natan! Natan! Venez vous avec vos amies!”? “Vini Terranova!” – respondo gritando de alegria. Entramos no banco traseiro e fomos embora com Achmed e Aiman.

Observações do dia:

1. Nunca mais fazer nada planejado por um africano. Desorganizados, impontuais e incapazes de tomar decisões, tudo que depende centralmente deles aqui invariavelmente fracassará;

2. Sequer considerar comer comida africana. Nunca, jamais, em tempo algum;

3. Estreitar laços de amizade com os libaneses, que são sérios e organizados. Haverá um jogo de futebol entre a molecada árabe e disseram para que eu aguardasse uma ligação confirmando horário e local, mas que, de todo modo, me dariam carona;

4. Terminar o livro do Spurgeon, porque está bom demais!

Deus os guarde.

« Tout est pur pour ceux qui sont purs; mais rien n'est pur pour ceux qui sont souillées et incrédules, leur intelligence et leur conscience sont souillés. » Tite 1 :15

Obs: Quando ainda estava em São Paulo, fui a um Pessach e me disseram que eu tinha cara de judeu, ainda mais com a Kipah. Em Yopougon, disseram que eu parecia o Kaká(!!) e outros disseram que eu parecia um cara da novela “Páginas da Vida” (!!!), que passa aqui. Na embaixada brasileira, que eu tenho cara de português nato. Na praia, uma menina do Quênia disse que eu a lembrava de um cara com quem ela trabalhou quando morou na Tunísia. Já a norueguesa disse que eu poderia passar facilmente por um norueguês, pois tem muita gente com cabelos e olhos escuros. O Achmed, por sua vez, disse que se eu não abrir a boca eu pareço muito um libanês. Tudo isso foi em ocasiões diferente. Vou mandar meu CV pra Carmen Sandiego.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XVIII - Surpresa!


Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XVIII – Surpresa! –12 de Janeiro (noite) e 13 de Janeira (aurora)

Voltando feliz do trabalho devido à onda de otimismo já relatada e também pelo fato de eu estar indo a um hotel, meu ânimo estava inabalável. Alto astral reinava. Cheguei ao hotel, tirei paletó e gravata, liguei o ar condicionado na potência máxima e fiquei morgando vendo os gols da Copa Africana das Nações. “Depois dos gols, vejo o presidente da Costa do Marfim falar a baboseira do dia, saio pra comprar comida, volto, tomo banho e vou assistir a Tom e Jerry no meu laptop” – pensei despretensiosamente.

O interessante da África é que ela é cheia de surpresas. Fico pensando naquelas namoradas/noivas/esposas que reclamam com seus bofes que eles não fazem mais nada de novo, que “ficaram previsíveis” ou que “a chama apagou”. Bem, a África é o parceiro perfeito. Quando você acha que planejou algo, lá vem ela e surpreende você. No meu caso, a surpresa veio após a TV mostrar o segundo gol do Malauí contra a Argélia. A surpresa foi um blecaute. TV desligou, luz apagou, breu reinou e – o pior de tudo – ar-condicionado já era. Meu celular descarregou, logo eu não podia improvisá-lo como lanterna. Até usei meu laptop durante certo tempo, mas é muito pouco prático. Não havia luar e nem iluminação pública nas ruas. Então, quando falo breu, é breu mesmo. Trevas, escuridão total. Fiquei deitadinho esperando voltar até que adormeci. Acordei não sei quanto tempo depois pingando de suor. Fui abrir a janela e quebrei a cortina do quarto. Enfiei a cabeça pra fora, mas estava quente também (é normal aqui fazer 30º de madrugada). Peguei no piso do quarto e constatei que o azulejo estava friozinho. Fiquei só de cueca, peguei o travesseiro e fui dormir no chão. Dormi profundamente a partir daí.

Ao nascer o sol, despertei. Faminto e imundo (não jantei e nem tomei banho), corri ao banheiro para fazer minha higiene pessoal. A África, mais uma vez conseguiu me surpreender: cadê a água?? Desci as escadas até o térreo (isso mesmo, não tem elevador) e acordei a mulher da recepção.

EU: Moça, cadê água e eletricidade?

ELA: Acabou. Sinto muito.

EU: Mas e aí? Preciso tomar banho e escovar os dentes.

ELA: Não posso fazer nada. Acabou pro bairro inteiro.

EU: Pode, sim. Pegue um balde e me encontre na piscina!

A mulher foi lá pegar um balde com aquela indisposição típica do povo daqui somada ao fato de que acabara de acordar. Peguei a peneira e tirei os mosquitos e folhas de um pedaço da piscina. Quando ela chegou com o balde, enchi o balde com a água da parte que eu havia limpado e subi pro meu quarto.

Estou cheirando a cloro, é verdade, mas o banho foi refrescante.

Deus os guarde.

« Ne vous livrez pas à l'amour de l'argent; contentez-vous de ce que vous avez; car Dieu lui-même a dit: Je ne te délaisserai point, et je ne t'abandonnerai point. » Hébreux 13 :5


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XVII - Ritos e Resultados


Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XVII – Ritos e Resultados– 09 a 12 de Janeiro

Post curto. Pouquíssimo tempo!

Os resultados estão prestes a aparecer. Tivemos reuniões muito bem sucedidas numa seguradora chamada “La Loyale Assurance” e na embaixada do Líbano. O senhor da Loyale gostou bastante das nossas formules (pacotes) e já tive dois encontros com a mocinha da embaixada do Líbano (tem bastante libanês aqui). Já entreguei a proposta com nossos preços especiais para encomendas endereçadas ao Líbano e, segundo a moça, o embaixador está considerando agora somente a AFCO e outra empresa.

Ainda em embaixadas, tivemos pouco sucesso na embaixada do Senegal (eles otrabalham com a DHL para remessas internacionais e não têm remessas locais), mas gerente comercial da embaixada canadense se interessou e pediu para contatarmos a embaixadora, que aguarda nosso telefonema com uma proposta. Fora do mundo diplomático, o Citibank ligou pra cá atrás de saber da AFCO e tivemos uma reunião com a diretoria deles hoje. Eles já trabalham com a CODITRANS e a FedEx, mas querem “diversificar”. Se conseguirmos, será uma conta bem grande, pois são 16 agências em toda a cidade (menos onde? Yopougon! Aêê!). Além da proposta financeira, temos também que produzir rotas de entrega, pois são locais muito longes um do outro e o Citi tem necessidades específicas de horários, segurança e tudo mais. Rapaz, tomara que eu receba meu salário no dia 14, porque estar fazendo tudo isso de graça é complicado. Não somente, os Portfólios realmente estão causando uma boa impressão na nossa potencial clientela (quem confeccionou? Quem? Hohoho).

Voltamos para o escritório e íamos dar o relatório da produtividade do dia pro chefe (isso foi após voltarmos do Citibank). Uma fila estava na porta do escritório do chefe, que havia saído. Um cara veio arrumar o computador dele, um mecânico veio receber o dinheiro pelo serviço que fez nas motos de nossos entregadores, dois entregadores vieram receber o salário e eu e Wilfred aguardávamos para dar o relatório.

É estranho, mas quando homens estão com outros homens, eles se impõem pela nojeira. Eu já havia sido informado disso. Pois bem, uns arrotaram, outros enfiaram dedo no nariz, um arrancou um pedaço de carne do meio dos dentes. Chegou a minha vez e eu não podia ficar por baixo. Cocei meu ouvido esquerdo com minha bic azul. Quem que manda aqui?! Ôôrrrraaa!

Pidos, já saí de Andokoi e estou num hotel. No sábado eu mudo pra uma casa decente no bairro libanês!

Ligia, feliz aniversário! Cada dia mais gata!

Deus os guarde como tem guardado a mim. Amo muito vocês!

« Le Dieu qui a fait le monde et tout ce qui s'y trouve, étant le Seigneur du ciel et de la terre, n'habite point dans des temples faits de main d'homme » Actes 17 :24