quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XVIII - Surpresa!


Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XVIII – Surpresa! –12 de Janeiro (noite) e 13 de Janeira (aurora)

Voltando feliz do trabalho devido à onda de otimismo já relatada e também pelo fato de eu estar indo a um hotel, meu ânimo estava inabalável. Alto astral reinava. Cheguei ao hotel, tirei paletó e gravata, liguei o ar condicionado na potência máxima e fiquei morgando vendo os gols da Copa Africana das Nações. “Depois dos gols, vejo o presidente da Costa do Marfim falar a baboseira do dia, saio pra comprar comida, volto, tomo banho e vou assistir a Tom e Jerry no meu laptop” – pensei despretensiosamente.

O interessante da África é que ela é cheia de surpresas. Fico pensando naquelas namoradas/noivas/esposas que reclamam com seus bofes que eles não fazem mais nada de novo, que “ficaram previsíveis” ou que “a chama apagou”. Bem, a África é o parceiro perfeito. Quando você acha que planejou algo, lá vem ela e surpreende você. No meu caso, a surpresa veio após a TV mostrar o segundo gol do Malauí contra a Argélia. A surpresa foi um blecaute. TV desligou, luz apagou, breu reinou e – o pior de tudo – ar-condicionado já era. Meu celular descarregou, logo eu não podia improvisá-lo como lanterna. Até usei meu laptop durante certo tempo, mas é muito pouco prático. Não havia luar e nem iluminação pública nas ruas. Então, quando falo breu, é breu mesmo. Trevas, escuridão total. Fiquei deitadinho esperando voltar até que adormeci. Acordei não sei quanto tempo depois pingando de suor. Fui abrir a janela e quebrei a cortina do quarto. Enfiei a cabeça pra fora, mas estava quente também (é normal aqui fazer 30º de madrugada). Peguei no piso do quarto e constatei que o azulejo estava friozinho. Fiquei só de cueca, peguei o travesseiro e fui dormir no chão. Dormi profundamente a partir daí.

Ao nascer o sol, despertei. Faminto e imundo (não jantei e nem tomei banho), corri ao banheiro para fazer minha higiene pessoal. A África, mais uma vez conseguiu me surpreender: cadê a água?? Desci as escadas até o térreo (isso mesmo, não tem elevador) e acordei a mulher da recepção.

EU: Moça, cadê água e eletricidade?

ELA: Acabou. Sinto muito.

EU: Mas e aí? Preciso tomar banho e escovar os dentes.

ELA: Não posso fazer nada. Acabou pro bairro inteiro.

EU: Pode, sim. Pegue um balde e me encontre na piscina!

A mulher foi lá pegar um balde com aquela indisposição típica do povo daqui somada ao fato de que acabara de acordar. Peguei a peneira e tirei os mosquitos e folhas de um pedaço da piscina. Quando ela chegou com o balde, enchi o balde com a água da parte que eu havia limpado e subi pro meu quarto.

Estou cheirando a cloro, é verdade, mas o banho foi refrescante.

Deus os guarde.

« Ne vous livrez pas à l'amour de l'argent; contentez-vous de ce que vous avez; car Dieu lui-même a dit: Je ne te délaisserai point, et je ne t'abandonnerai point. » Hébreux 13 :5


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XVII - Ritos e Resultados


Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XVII – Ritos e Resultados– 09 a 12 de Janeiro

Post curto. Pouquíssimo tempo!

Os resultados estão prestes a aparecer. Tivemos reuniões muito bem sucedidas numa seguradora chamada “La Loyale Assurance” e na embaixada do Líbano. O senhor da Loyale gostou bastante das nossas formules (pacotes) e já tive dois encontros com a mocinha da embaixada do Líbano (tem bastante libanês aqui). Já entreguei a proposta com nossos preços especiais para encomendas endereçadas ao Líbano e, segundo a moça, o embaixador está considerando agora somente a AFCO e outra empresa.

Ainda em embaixadas, tivemos pouco sucesso na embaixada do Senegal (eles otrabalham com a DHL para remessas internacionais e não têm remessas locais), mas gerente comercial da embaixada canadense se interessou e pediu para contatarmos a embaixadora, que aguarda nosso telefonema com uma proposta. Fora do mundo diplomático, o Citibank ligou pra cá atrás de saber da AFCO e tivemos uma reunião com a diretoria deles hoje. Eles já trabalham com a CODITRANS e a FedEx, mas querem “diversificar”. Se conseguirmos, será uma conta bem grande, pois são 16 agências em toda a cidade (menos onde? Yopougon! Aêê!). Além da proposta financeira, temos também que produzir rotas de entrega, pois são locais muito longes um do outro e o Citi tem necessidades específicas de horários, segurança e tudo mais. Rapaz, tomara que eu receba meu salário no dia 14, porque estar fazendo tudo isso de graça é complicado. Não somente, os Portfólios realmente estão causando uma boa impressão na nossa potencial clientela (quem confeccionou? Quem? Hohoho).

Voltamos para o escritório e íamos dar o relatório da produtividade do dia pro chefe (isso foi após voltarmos do Citibank). Uma fila estava na porta do escritório do chefe, que havia saído. Um cara veio arrumar o computador dele, um mecânico veio receber o dinheiro pelo serviço que fez nas motos de nossos entregadores, dois entregadores vieram receber o salário e eu e Wilfred aguardávamos para dar o relatório.

É estranho, mas quando homens estão com outros homens, eles se impõem pela nojeira. Eu já havia sido informado disso. Pois bem, uns arrotaram, outros enfiaram dedo no nariz, um arrancou um pedaço de carne do meio dos dentes. Chegou a minha vez e eu não podia ficar por baixo. Cocei meu ouvido esquerdo com minha bic azul. Quem que manda aqui?! Ôôrrrraaa!

Pidos, já saí de Andokoi e estou num hotel. No sábado eu mudo pra uma casa decente no bairro libanês!

Ligia, feliz aniversário! Cada dia mais gata!

Deus os guarde como tem guardado a mim. Amo muito vocês!

« Le Dieu qui a fait le monde et tout ce qui s'y trouve, étant le Seigneur du ciel et de la terre, n'habite point dans des temples faits de main d'homme » Actes 17 :24

sábado, 9 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XVI - No fim das contas, um dia bom






Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XVI – No fim das contas, um dia bom – 08 de Janeiro

Bem, o dia foi bom, mas começou com o pé esquerdo. Como ocorre quase toda manhã, acordo às 05h da matina meio zonzo e penso comigo mesmo: “estarei sonhando?”. Mas, ao olhar pro lado e ver o fedorento do Franc espalhado por toda a cama, a realidade me diz: “Sonhando uma pemba. Aqui é a África, bixão. Te vira!” Levanto, tomo banho, tomo café, me arrumo e saio. Ao encontrar Wilfred na esquina, nós caminhamos juntos até o ponto das lotações. Isso é algo tão trivial e corriqueiro que não merece relato. Hoje de manhã, contudo, ao ir para as lotações, acidentalmente pisei num verdadeiro bolo de bosta e o autor da mina terrestre, como em risadas, fez no exato momento: béééé! “Comecei bem!” – pensei ironicamente

Pegamos o táxi, blábláblá e já estamos no trabalho. Pego o portfólio de vendas e os cartões de visita e estou pronto para sair para vender. Um pequeno detalhe: o chefe queria uma reunião comigo e Wilfred às 08h30. Às 09h45, quando ele chega, ele diz que pode esperar até a tarde. O Sr Happy Happy é meio estranho mesmo. Sempre atrasado. Para saber com quanto tempo de atraso ele deve chegar, ele pega o horário marcado, multiplica por três, soma 20 minutos e depois chega na hora que bem entender. É mais uma arte do que uma ciência.

Dispensado pelo chefe, vou pra embaixada brasileira vender meu peixe (no caso, entregas de correspondências). No caminho, encontro três oficiais do corpo de paz da ONU. Eles são de Bangladesh. Eu nunca havia conhecido ninguém de lá, mas, para aqueles que não conhecem, eles são iguais ao cara do filme “Quem quer ser um milionário” e o Rajesh Koothrappali. Fizemos amizade, eles pegaram meu cartão e tiramos fotos. Eles ficaram de me ligar pra marcar um futebol e tudo mais.

Parêntese nº1: Pelo menos foi isso que entendi do inglês deles. Na maior parte do tempo eu não sabia se estavam falando de palitos ou petróleo. Fecha parêntese.

Fiz novos amigos e estava indo à minha primeira reunião. Só alegrias! Quando cheguei na embaixada brasileira, até a recepcionista, a Maysa (sério mesmo, é o nome dela), foi simpática comigo. Acho que é porque eu estava muito gato ontem com minha gravata azul, mas isso não vem ao caso. Fui procurar o Syllas, responsável do comercial administrativo. Ah, só um aviso pra minha digníssima Lili, a freira não estava lá.

Parêntese nº2: Eu disse para minha amada que gostava de ir para a embaixada porque lá era não cheirava mal e, a propósito, tinha conhecido uma freira lá. A patroa então fez a seguinte associação: embaixada->cheiroso->freira, de onde se conclui que eu tenho tara por cheirar freiras. Sempre que eu digo que fui à embaixada, a Ligia pergunta: “cheirou a freira?” Claro que isso não faz o menor sentido, mas que importa para o coração apaixonado? Sei que a última pergunta retórica também não fez sentido, mas também tenho direito à minha lógica paralela. Fecha parêntese.

Voltando à embaixada, o Syllas disse que a responsável era a Fátima. A Fátima é um doce, mas hoje estava super atarefada e não pode me atender. Ele me passou pra Maysa, mas, de algum modo, a Marilene apareceu do nada e disse que o Sóstenes (o diplomata) ia me atender. Nossa reunião de negócios durou uns dois minutos, o resto fomos nós falando do governo Lula. Hohohoho! Entretanto, há algo aqui digno de nota: isso tudo não aconteceu rapidamente. Nesse meio tempo, estive conversando com uma brasileira e sua filha que moram aqui há três anos e voltaram agora ao Brasil. Chamam-se Mônica a Amany, respectivamente, e foram muito simpáticas. Conversando sobre minhas aventuras até então, fiz cara de cão sem dono e me convidaram para almoçar amanhã (sábado) na casa delas. Ah, moleque, que o hoje o dia ta bom! Quem se importa que a reunião de negócios não foi tão boa por já terem um contrato com a multinacional e infinitamente superior DHL? Amanhã eu almoço comida limpa e falando português!

Despedi-me da galera da embaixada e desci até o 8º, onde fica a embaixada japonesa. Cheguei lá e tinham dois baita seguranças. Após a revista, entrei na embaixada e dirigi-me à recepcionista (que era marfinense): “Bom dia! O gerente do comercial se encontra?” Com aquela coragem típica dos marfinenses, ela respondeu que não. Insisti e me apresentei, falei da empresa e solicitei novamente o gerente. Negou-me acesso uma vez mais. Aquele dia estava tão bom e meu humor era de tal forma positivo que utilizei uma tática corriqueira de São Paulo: botei meu sorriso colgate e lancei o xaveco na recepcionista. Perguntei se ela falava inglês, ao que ela respondeu “muito mau”. Falei tudo que havia falado em francês, mas agora em inglês. Quando ela me respondeu que não era possível, eu a interrompi e disse que ela havia mentido pra mim, pois seu inglês não era nada mau (era pior do que a galera do Bangladesh). “Hihihi, você acha mesmo?” – foi sua resposta. Daí eu perguntei se ela estudava, ao que ela respondeu que estudava business na Ameritech (uma boa escola local). Elogiei então a escola (“excelente renome!”) e disse que as duas línguas de negócios no mundo eram o inglês e o francês e que seu domínio de ambas mais sua formação na Ameritech a levariam longe (menti?). Após uma gargalhadinhas de sua parte, arrumei o sorrisão, dei a famosa piscadinha com o olho esquerdo (essa a Lili conhece bem) e dei o bote: “Que você pode fazer por mim?” Ela: “Um momento que vou chamar o gerente. Hihihi”. O gerente veio, conversamos, trocamos cartões e, apesar de eles trabalharem com a DHL também, vamos enviar uma proposta.

Voltei pro escritório, dei o relatório pro Sr Happy e fui almoçar. “Hoje o dia está tão bom que vou inovar no almoço!” Pedi um treco novo e quase não consegui comer de tanta pimenta. Tão logo saí do restaurante para voltar ao escritório, minha barriga fez o papel de Londres em 1941 e a pimenta, o da Força Aérea Nazista na operação Leão Marinho. Voei para o escritório, peguei o papel higiênico na minha mochila e fui agonizar na privada. Vocês não sabem como arde a pimenta marfinense no pobre do le blanc aqui. Chegou a hora que invariavelmente chegaria: não tem mais o que sair. Beleza. Comecei a me limpar.

Parêntese nº3: Sei que falo muito de cocô nesse blog. Mas procurem entender. Na civilização, o que mais me deixava aflito era a possibilidade de falta de comunicação: sinal ruim da Claro ou ausência de internet. Aqui, a aflição migrou disso para cocôs, sanitários, água corrente e encanamento interno. Fecha parêntese.

Estando eu me limpando, percebi que, infelizmente, eu estava num famoso caso do “quanto mais limpa, mais suja”. “E agora, meu Deus?” – pensei. E o pior é que não tinha chegado nem num estágio de “limpo o suficiente com 95% de confiança e rejeito Ho”. Não, ainda tinha muuuuuuuuuito pra limpar.

Parêntese nº4: A situação aqui não é a busca da perfeição, mas de gerenciamento de crise. Que é um a sujeirinha só? Quem nunca veio pra cá nem nunca esteve no exército não tem como saber. Portanto, não me julguem!

Acabado o papel e estando naquela, olhei pro rolinho de papelão do papel higiênico e ele olhou de volta pra mim. “Vai tu mesmo, negão” – pensei resolutamente. Cortei o papelão em tirinhas e fui mandando bala.

Parêntese nº5: O papelão do papel higiênico marfinense poderia seguramente ser usado como lixa na construção civil.

Gente, chegou uma hora que doía tanto que não dava mais. Vinha sujeira, tecido epitelial (ta certo isso?) e até cabelo. Decidi que tinha chegado no tal do “limpo com 95% de confiança rejeitando Ho", levantei as calças e voltei ao trabalho.

O trabalho no momento era produzir um letreiro pra empresa botar na frente do imóvel. Essa joça existe há 20 anos e nunca fizeram o letreiro. Quem vai fazer o design? Exatamente, o estagiário. Fiz um negócio bem simples: era o logo, as informações (telefone, e-mail, site) e a mascote da empresa (o carteirinho). O chefe amou.

“Beleza, então, vou ler e-mails” – decidi. Vi que tinha chegado um e-mail do papai em que ele manifestava sua alegria por eu estar providenciando outra moradia e associava isso, de alguma forma, ao desempenho de seu sistema digestivo. Transcrevo abaixo, literalmente, mais uma máxima do nobre filósofo:

“Meu filho, estou bem mais tranqüilo agora. Finalmente posso fazer cocô em paz”

Apesar de feliz por indiretamente ter aliviado a prisão de ventre do papai, dois pensamentos preocupantes me sobrevieram nessa hora: (1) ‘essa idéia fixa é hereditária?’ e (2)’raios, a dor de barriga voltou!’. Sem papel higiênico, tinha que esperar voltar pro cafundó do Judas onde eu moro e pagar uma visitinha pro Wilfred, que tem um banheiro decente pros padrões desse fim de mundo que é Andokoi, Yopougon. Depois de uma hora no trânsito, o cara de quem o Wilfred vai alugar (e talvez eu também) liga e pede para que tenhamos com ele naquela mesma noite. Pedimos pro taxista mudar o destino de Première Pont para Assovon. Ambos são em Yopougon, mas são bem longes um do outro.

Chegando em Assovon, vamos pra casa do proprietário dos flats. Eles falam longamente e eu suando frio pra não fazer pum.

Parêntese nº6: Na foto, a impressão é que há roupas flutuando à noite. Olhem atentamente e vocês verão gente dentro dessas roupas. Esforcem-se mais e verão os dentes e a parte branca da superfície do globo ocular dessas pessoas. Fecha parêntese.

As negociações são interrompidas pela telenotícia de que a equipe de futebol do Togo sofreu um atentado na Angola, onde ocorrerá a Copa Africana das Nações. Falam por 20 minutos sobre isso. Penso: “Quem se importa com a equipe do Togo?? Acabem logo com isso pra eu poder ir embora! Ahhhhhhhhhh! Se alguém me der um susto eu me borro todo! Bora que eu to quase chorando!” O cara me vê agonizando e oferece uísque. Aceito água, pois estava morrendo de sede também. Bebi tudo com dois goles. Quando vi, tinha gelo no copo. Recomendação número 1 para Costa do Marfim: nunca aceite gelo; não faz bem. Acrescentado isso, eu já estava prevendo o estrago que ia fazer na casa do Wilfred. Nunca mais me deixariam entrar lá. O negócio finalmente acabou e fomos pegar um táxi pra casa. Contudo, Andokoi é tão longe que nenhum taxista estava disposto a nos levar. Minha situação não permitia esperar. Paguei 1000 francos por uma corrida que custaria 250 durante o dia, mas com a condição que o taxista voasse. Ele realmente voou. Chegando no ponto em que acaba a estrada (onde é a lotação) e que iríamos a pé, pago com uma nota de 2000 francos. Cadê que o cara tem troco?

“Calma, Natan, é só arranjar troco” – falei sozinho. Tive que comprar um sanduíche (tinha almoçado às 13h e já eram 20h, ou seja, apesar da dor de barriga, estava morrendo de fome). Arranjei o troco, paguei o taxista e quebrei a regra número 2 para a Costa do Marfim: nunca comer nada na rua. “É hoje que eu acabo com minha moral na casa do Wilfred”. Esse pensamento assombroso intensificou-se depois que, após ter devorado o sanduba em três mordidas, ocorre a seguinte troca de palavras:

Wilfred: Parabéns, cara! Você comeu pimenta e nem reclamou!

EU: Como é?!?! Tinha pimenta?!?!

Passamos na venda e comprei logo três rolos de papel higiênico. Wilfred foi pra casa dele e eu fui pra minha para tirar o paletó e a gravata, mas acertamos que eu iria voando até a casa dele pra fazer o cocô da minha vida.

Chego na casa dele e bato à porta. A mãe dele atende com aquele olhar de “vem pra cá só pra isso, né, seu cagão infeliz?”. Vou ao banheiro e faço o que tinha de fazer. Não tem encanamento, a descarga é com balde. Pois bem, 6 baldes depois, desceu tudo. Ainda bem. Só tinha mais um balde. Imagina se não desce tudo? Despeço-me rapidamente de Wilfred e procuro vazar de lá, pois estava com muita vergonha. Com a alma aliviada (dentre outras coisas), volto pra casa, janto meu mamão e minhas mangas, leio 2 Coríntios e vou dormir.

Amanhã tem o almoço brazuca e depois sigo pra Grand-Bassam pra passar a noite na praia. É, até que o dia foi bom!

Que Deus os abençoe como ele tem abençoado a mim.

« Si quelqu’un n’aime pas le Seigneur, que Dieu le rejette ! Maranatha, viens Seigneur ! Que le Seigneur Jésus vous bénisse ! » 1 Corinthiens 16 :22-23

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XV - A Inconveniência de Bob Esponja e de John Wayne



Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XV – A Inconveniência de Bob Esponja e de John Wayne – 06 de Janeiro

Tudo seguia conforme um dia normal: saímos do trabalho às 17h e vamos até a Boulevard de La République pegar um táxi. Eu me escondo e Wilfred chama o táxi – velha estratégia para não pagar mais caro. Pegamos o táxi, passamos 60 minutos no trânsito caótico, chegamos em Yopougon e vamos até a favela de Andokoi, onde moramos. Suado, podre e cansado, vou tomar um banho.

Até aí, nada de diferente. Após o jantar, estou a ler Romanos, quando de repente ouço uma gritaria no cortiço. “Mais uma vez festa! Ô povo pra não acabar pilha!” – penso enquanto aguardo o iminente funk marfinense começar. Termino Romanos e a gritaria lá fora está como nunca. Vou lá conferir e não posso sair porque todas as crianças estão à porta espiando o pátio. São 10h da noite e a iluminação não é muito boa, só vejo uma muvuca no pátio e gritaria, mas estranho que não haja música. “A galera está é brincando!” – concluo. Diante disso, solto um grito muito famoso em minha família chamado de “Bob Esponja”.

Para explicar, o “Bob Esponja” é um brado inspirado no amado personagem infantil de mesmo nome e extremamente utilizado entre mim e meus primos (que são mais bobos do que eu) para fazer troça com qualquer coisa.

Voltando ao assunto, após o “Bob”, as crianças capotaram de rir. Acharam a coisa mais cômica. A Benedicte – bandida – aproveitou-se e veio me abraçar e pediram bis. Para variar para minha excelente platéia, soltei o “John Wayne”.

Outro parênteses: JW é outro grito na família inspirado no nobre personagem de Marrion Morrison, John Wayne, a lenda dos westerns. Esse não é o brado de John Wayne quando ele conduz a diligência em Rio Lobo (o famoso “ia-iá!”), mas o do John Wayne chamando seu cavalo para perseguir os índios em Rastros de Ódio. O brado JW, tal qual o “Bob”, serve pra tirar sarro de qualquer coisa.

Retornando, a bagunça lá fora continuava e as crianças aqui dentro ainda gargalhavam do “John”. Entretanto, o “Bob” caiu nas graças da molecada, que pediu um bis dele. Soltei mais uma vez o “Bob”, para alegria geral. No entanto, deixei de atentar nas crianças e passei a atentar pra muvuca lá fora. Ao fazer isso, descobria que não era uma das habituais brincadeiras ou jogos, mas uma briga! Pensei: “Meu Deus, tem 30 pessoas logo ali brigando!” A verdade é que nem todos estavam brigando, a maior parte estava tentando apartar uma briga. Dessa hora em diante, tive certeza de que não se tratava de um dia normal.

Pouco depois desse momento, quando me dei por mim, um homem sai do meio da muvuca bufando de ira em direção à casa. Era o “papai”. Ele passa por todos nós sem nos olhar, entra no quarto e sai com uma corda. Nesse momento, a risada cessa e as crianças imploram para que ele fique em casa e não vá lá pra fora. Ele é como o líder do cortiço e não pode deixar o caos tomar conta, então vai lá pra fora do mesmo jeito. Pergunto ao Franc o que está havendo, mas ele só me diz que a mãe do Chrisso, o bebê, tem uma disputa com o irmão dela e ele sempre vem pra cá pra discutir com ela acerca do assunto e eles estão sempre brigando (disso eu já sabia, pois já vi várias vezes), mas dessa vez, a família inteira estava aqui e se dividiu e a muvuca era eles brigando entre si! Além disso, a mãe do Chrisso parece que pegou uma navalha pra atacar o irmão. Enquanto o papai põe ordem na bagunça (ele é gigante e super forte), ponho a molecada pra dentro de casa.

Passado o susto, algumas resoluções.

1. Falei com a AIESEC para me arranjar outra acomodação. Morar na favela mais pobre (Andokoi) do distrito mais pobre (Yopougon) de Abidjan num cortiço em cuja latrina 30 pessoas defecam diariamente e tomar banho de balde a centímetros dessa latrina tudo bem, mas barraco de vizinho com direito a navalha não dá.

2. Pais (brasileiros mesmo): não quero vocês se preocupando. Não quero! A situação já está sendo resolvida. Simplesmente orem.

Interessante que, após o tumulto, tudo voltou ao normal. Foi aí que dei por mim: o que eu achava que era festa era briga. Imagino o que pensou o povo no meio do quebra-pau ouvindo um “Bob Esponja” seguido de um “John Wayne”, que foi seguido ainda por outro “Bob Esponja”.

O le blanc maluco termina por aqui reforçando o pedido aos meus amados pais brazucas, vulgos “pidos”, que não se exasperem. Pensei muito se devia postar esse relato hoje ou se devia esperar eu mudar de acomodação, mas decidi que não há motivo nenhum para preocupação, pois a Providência me trouxe em segurança até aqui e tenho fé que continuará a me guiar. Todas as providências foram tomadas e simplesmente aguardo a AIESEC daqui dar meu novo endereço. Pidos, peço que sigam o conselho do Cristo em Jo 6:10 e assentem-se na relva e esperem. Vocês me ensinaram bem, por favor, fiquem tranqüilos e deixem que eu me resolva por aqui, ok?

Amo vocês, obrigado pelas orações e que Deus os guarde como tem guardado a mim.

« Jésus dit: Faites-les asseoir. Il y avait dans ce lieu beaucoup d'herbe. Ils s'assirent donc, au nombre d'environ cinq mille hommes. » Jean 6 :10