sábado, 9 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XVI - No fim das contas, um dia bom






Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XVI – No fim das contas, um dia bom – 08 de Janeiro

Bem, o dia foi bom, mas começou com o pé esquerdo. Como ocorre quase toda manhã, acordo às 05h da matina meio zonzo e penso comigo mesmo: “estarei sonhando?”. Mas, ao olhar pro lado e ver o fedorento do Franc espalhado por toda a cama, a realidade me diz: “Sonhando uma pemba. Aqui é a África, bixão. Te vira!” Levanto, tomo banho, tomo café, me arrumo e saio. Ao encontrar Wilfred na esquina, nós caminhamos juntos até o ponto das lotações. Isso é algo tão trivial e corriqueiro que não merece relato. Hoje de manhã, contudo, ao ir para as lotações, acidentalmente pisei num verdadeiro bolo de bosta e o autor da mina terrestre, como em risadas, fez no exato momento: béééé! “Comecei bem!” – pensei ironicamente

Pegamos o táxi, blábláblá e já estamos no trabalho. Pego o portfólio de vendas e os cartões de visita e estou pronto para sair para vender. Um pequeno detalhe: o chefe queria uma reunião comigo e Wilfred às 08h30. Às 09h45, quando ele chega, ele diz que pode esperar até a tarde. O Sr Happy Happy é meio estranho mesmo. Sempre atrasado. Para saber com quanto tempo de atraso ele deve chegar, ele pega o horário marcado, multiplica por três, soma 20 minutos e depois chega na hora que bem entender. É mais uma arte do que uma ciência.

Dispensado pelo chefe, vou pra embaixada brasileira vender meu peixe (no caso, entregas de correspondências). No caminho, encontro três oficiais do corpo de paz da ONU. Eles são de Bangladesh. Eu nunca havia conhecido ninguém de lá, mas, para aqueles que não conhecem, eles são iguais ao cara do filme “Quem quer ser um milionário” e o Rajesh Koothrappali. Fizemos amizade, eles pegaram meu cartão e tiramos fotos. Eles ficaram de me ligar pra marcar um futebol e tudo mais.

Parêntese nº1: Pelo menos foi isso que entendi do inglês deles. Na maior parte do tempo eu não sabia se estavam falando de palitos ou petróleo. Fecha parêntese.

Fiz novos amigos e estava indo à minha primeira reunião. Só alegrias! Quando cheguei na embaixada brasileira, até a recepcionista, a Maysa (sério mesmo, é o nome dela), foi simpática comigo. Acho que é porque eu estava muito gato ontem com minha gravata azul, mas isso não vem ao caso. Fui procurar o Syllas, responsável do comercial administrativo. Ah, só um aviso pra minha digníssima Lili, a freira não estava lá.

Parêntese nº2: Eu disse para minha amada que gostava de ir para a embaixada porque lá era não cheirava mal e, a propósito, tinha conhecido uma freira lá. A patroa então fez a seguinte associação: embaixada->cheiroso->freira, de onde se conclui que eu tenho tara por cheirar freiras. Sempre que eu digo que fui à embaixada, a Ligia pergunta: “cheirou a freira?” Claro que isso não faz o menor sentido, mas que importa para o coração apaixonado? Sei que a última pergunta retórica também não fez sentido, mas também tenho direito à minha lógica paralela. Fecha parêntese.

Voltando à embaixada, o Syllas disse que a responsável era a Fátima. A Fátima é um doce, mas hoje estava super atarefada e não pode me atender. Ele me passou pra Maysa, mas, de algum modo, a Marilene apareceu do nada e disse que o Sóstenes (o diplomata) ia me atender. Nossa reunião de negócios durou uns dois minutos, o resto fomos nós falando do governo Lula. Hohohoho! Entretanto, há algo aqui digno de nota: isso tudo não aconteceu rapidamente. Nesse meio tempo, estive conversando com uma brasileira e sua filha que moram aqui há três anos e voltaram agora ao Brasil. Chamam-se Mônica a Amany, respectivamente, e foram muito simpáticas. Conversando sobre minhas aventuras até então, fiz cara de cão sem dono e me convidaram para almoçar amanhã (sábado) na casa delas. Ah, moleque, que o hoje o dia ta bom! Quem se importa que a reunião de negócios não foi tão boa por já terem um contrato com a multinacional e infinitamente superior DHL? Amanhã eu almoço comida limpa e falando português!

Despedi-me da galera da embaixada e desci até o 8º, onde fica a embaixada japonesa. Cheguei lá e tinham dois baita seguranças. Após a revista, entrei na embaixada e dirigi-me à recepcionista (que era marfinense): “Bom dia! O gerente do comercial se encontra?” Com aquela coragem típica dos marfinenses, ela respondeu que não. Insisti e me apresentei, falei da empresa e solicitei novamente o gerente. Negou-me acesso uma vez mais. Aquele dia estava tão bom e meu humor era de tal forma positivo que utilizei uma tática corriqueira de São Paulo: botei meu sorriso colgate e lancei o xaveco na recepcionista. Perguntei se ela falava inglês, ao que ela respondeu “muito mau”. Falei tudo que havia falado em francês, mas agora em inglês. Quando ela me respondeu que não era possível, eu a interrompi e disse que ela havia mentido pra mim, pois seu inglês não era nada mau (era pior do que a galera do Bangladesh). “Hihihi, você acha mesmo?” – foi sua resposta. Daí eu perguntei se ela estudava, ao que ela respondeu que estudava business na Ameritech (uma boa escola local). Elogiei então a escola (“excelente renome!”) e disse que as duas línguas de negócios no mundo eram o inglês e o francês e que seu domínio de ambas mais sua formação na Ameritech a levariam longe (menti?). Após uma gargalhadinhas de sua parte, arrumei o sorrisão, dei a famosa piscadinha com o olho esquerdo (essa a Lili conhece bem) e dei o bote: “Que você pode fazer por mim?” Ela: “Um momento que vou chamar o gerente. Hihihi”. O gerente veio, conversamos, trocamos cartões e, apesar de eles trabalharem com a DHL também, vamos enviar uma proposta.

Voltei pro escritório, dei o relatório pro Sr Happy e fui almoçar. “Hoje o dia está tão bom que vou inovar no almoço!” Pedi um treco novo e quase não consegui comer de tanta pimenta. Tão logo saí do restaurante para voltar ao escritório, minha barriga fez o papel de Londres em 1941 e a pimenta, o da Força Aérea Nazista na operação Leão Marinho. Voei para o escritório, peguei o papel higiênico na minha mochila e fui agonizar na privada. Vocês não sabem como arde a pimenta marfinense no pobre do le blanc aqui. Chegou a hora que invariavelmente chegaria: não tem mais o que sair. Beleza. Comecei a me limpar.

Parêntese nº3: Sei que falo muito de cocô nesse blog. Mas procurem entender. Na civilização, o que mais me deixava aflito era a possibilidade de falta de comunicação: sinal ruim da Claro ou ausência de internet. Aqui, a aflição migrou disso para cocôs, sanitários, água corrente e encanamento interno. Fecha parêntese.

Estando eu me limpando, percebi que, infelizmente, eu estava num famoso caso do “quanto mais limpa, mais suja”. “E agora, meu Deus?” – pensei. E o pior é que não tinha chegado nem num estágio de “limpo o suficiente com 95% de confiança e rejeito Ho”. Não, ainda tinha muuuuuuuuuito pra limpar.

Parêntese nº4: A situação aqui não é a busca da perfeição, mas de gerenciamento de crise. Que é um a sujeirinha só? Quem nunca veio pra cá nem nunca esteve no exército não tem como saber. Portanto, não me julguem!

Acabado o papel e estando naquela, olhei pro rolinho de papelão do papel higiênico e ele olhou de volta pra mim. “Vai tu mesmo, negão” – pensei resolutamente. Cortei o papelão em tirinhas e fui mandando bala.

Parêntese nº5: O papelão do papel higiênico marfinense poderia seguramente ser usado como lixa na construção civil.

Gente, chegou uma hora que doía tanto que não dava mais. Vinha sujeira, tecido epitelial (ta certo isso?) e até cabelo. Decidi que tinha chegado no tal do “limpo com 95% de confiança rejeitando Ho", levantei as calças e voltei ao trabalho.

O trabalho no momento era produzir um letreiro pra empresa botar na frente do imóvel. Essa joça existe há 20 anos e nunca fizeram o letreiro. Quem vai fazer o design? Exatamente, o estagiário. Fiz um negócio bem simples: era o logo, as informações (telefone, e-mail, site) e a mascote da empresa (o carteirinho). O chefe amou.

“Beleza, então, vou ler e-mails” – decidi. Vi que tinha chegado um e-mail do papai em que ele manifestava sua alegria por eu estar providenciando outra moradia e associava isso, de alguma forma, ao desempenho de seu sistema digestivo. Transcrevo abaixo, literalmente, mais uma máxima do nobre filósofo:

“Meu filho, estou bem mais tranqüilo agora. Finalmente posso fazer cocô em paz”

Apesar de feliz por indiretamente ter aliviado a prisão de ventre do papai, dois pensamentos preocupantes me sobrevieram nessa hora: (1) ‘essa idéia fixa é hereditária?’ e (2)’raios, a dor de barriga voltou!’. Sem papel higiênico, tinha que esperar voltar pro cafundó do Judas onde eu moro e pagar uma visitinha pro Wilfred, que tem um banheiro decente pros padrões desse fim de mundo que é Andokoi, Yopougon. Depois de uma hora no trânsito, o cara de quem o Wilfred vai alugar (e talvez eu também) liga e pede para que tenhamos com ele naquela mesma noite. Pedimos pro taxista mudar o destino de Première Pont para Assovon. Ambos são em Yopougon, mas são bem longes um do outro.

Chegando em Assovon, vamos pra casa do proprietário dos flats. Eles falam longamente e eu suando frio pra não fazer pum.

Parêntese nº6: Na foto, a impressão é que há roupas flutuando à noite. Olhem atentamente e vocês verão gente dentro dessas roupas. Esforcem-se mais e verão os dentes e a parte branca da superfície do globo ocular dessas pessoas. Fecha parêntese.

As negociações são interrompidas pela telenotícia de que a equipe de futebol do Togo sofreu um atentado na Angola, onde ocorrerá a Copa Africana das Nações. Falam por 20 minutos sobre isso. Penso: “Quem se importa com a equipe do Togo?? Acabem logo com isso pra eu poder ir embora! Ahhhhhhhhhh! Se alguém me der um susto eu me borro todo! Bora que eu to quase chorando!” O cara me vê agonizando e oferece uísque. Aceito água, pois estava morrendo de sede também. Bebi tudo com dois goles. Quando vi, tinha gelo no copo. Recomendação número 1 para Costa do Marfim: nunca aceite gelo; não faz bem. Acrescentado isso, eu já estava prevendo o estrago que ia fazer na casa do Wilfred. Nunca mais me deixariam entrar lá. O negócio finalmente acabou e fomos pegar um táxi pra casa. Contudo, Andokoi é tão longe que nenhum taxista estava disposto a nos levar. Minha situação não permitia esperar. Paguei 1000 francos por uma corrida que custaria 250 durante o dia, mas com a condição que o taxista voasse. Ele realmente voou. Chegando no ponto em que acaba a estrada (onde é a lotação) e que iríamos a pé, pago com uma nota de 2000 francos. Cadê que o cara tem troco?

“Calma, Natan, é só arranjar troco” – falei sozinho. Tive que comprar um sanduíche (tinha almoçado às 13h e já eram 20h, ou seja, apesar da dor de barriga, estava morrendo de fome). Arranjei o troco, paguei o taxista e quebrei a regra número 2 para a Costa do Marfim: nunca comer nada na rua. “É hoje que eu acabo com minha moral na casa do Wilfred”. Esse pensamento assombroso intensificou-se depois que, após ter devorado o sanduba em três mordidas, ocorre a seguinte troca de palavras:

Wilfred: Parabéns, cara! Você comeu pimenta e nem reclamou!

EU: Como é?!?! Tinha pimenta?!?!

Passamos na venda e comprei logo três rolos de papel higiênico. Wilfred foi pra casa dele e eu fui pra minha para tirar o paletó e a gravata, mas acertamos que eu iria voando até a casa dele pra fazer o cocô da minha vida.

Chego na casa dele e bato à porta. A mãe dele atende com aquele olhar de “vem pra cá só pra isso, né, seu cagão infeliz?”. Vou ao banheiro e faço o que tinha de fazer. Não tem encanamento, a descarga é com balde. Pois bem, 6 baldes depois, desceu tudo. Ainda bem. Só tinha mais um balde. Imagina se não desce tudo? Despeço-me rapidamente de Wilfred e procuro vazar de lá, pois estava com muita vergonha. Com a alma aliviada (dentre outras coisas), volto pra casa, janto meu mamão e minhas mangas, leio 2 Coríntios e vou dormir.

Amanhã tem o almoço brazuca e depois sigo pra Grand-Bassam pra passar a noite na praia. É, até que o dia foi bom!

Que Deus os abençoe como ele tem abençoado a mim.

« Si quelqu’un n’aime pas le Seigneur, que Dieu le rejette ! Maranatha, viens Seigneur ! Que le Seigneur Jésus vous bénisse ! » 1 Corinthiens 16 :22-23

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XV - A Inconveniência de Bob Esponja e de John Wayne



Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XV – A Inconveniência de Bob Esponja e de John Wayne – 06 de Janeiro

Tudo seguia conforme um dia normal: saímos do trabalho às 17h e vamos até a Boulevard de La République pegar um táxi. Eu me escondo e Wilfred chama o táxi – velha estratégia para não pagar mais caro. Pegamos o táxi, passamos 60 minutos no trânsito caótico, chegamos em Yopougon e vamos até a favela de Andokoi, onde moramos. Suado, podre e cansado, vou tomar um banho.

Até aí, nada de diferente. Após o jantar, estou a ler Romanos, quando de repente ouço uma gritaria no cortiço. “Mais uma vez festa! Ô povo pra não acabar pilha!” – penso enquanto aguardo o iminente funk marfinense começar. Termino Romanos e a gritaria lá fora está como nunca. Vou lá conferir e não posso sair porque todas as crianças estão à porta espiando o pátio. São 10h da noite e a iluminação não é muito boa, só vejo uma muvuca no pátio e gritaria, mas estranho que não haja música. “A galera está é brincando!” – concluo. Diante disso, solto um grito muito famoso em minha família chamado de “Bob Esponja”.

Para explicar, o “Bob Esponja” é um brado inspirado no amado personagem infantil de mesmo nome e extremamente utilizado entre mim e meus primos (que são mais bobos do que eu) para fazer troça com qualquer coisa.

Voltando ao assunto, após o “Bob”, as crianças capotaram de rir. Acharam a coisa mais cômica. A Benedicte – bandida – aproveitou-se e veio me abraçar e pediram bis. Para variar para minha excelente platéia, soltei o “John Wayne”.

Outro parênteses: JW é outro grito na família inspirado no nobre personagem de Marrion Morrison, John Wayne, a lenda dos westerns. Esse não é o brado de John Wayne quando ele conduz a diligência em Rio Lobo (o famoso “ia-iá!”), mas o do John Wayne chamando seu cavalo para perseguir os índios em Rastros de Ódio. O brado JW, tal qual o “Bob”, serve pra tirar sarro de qualquer coisa.

Retornando, a bagunça lá fora continuava e as crianças aqui dentro ainda gargalhavam do “John”. Entretanto, o “Bob” caiu nas graças da molecada, que pediu um bis dele. Soltei mais uma vez o “Bob”, para alegria geral. No entanto, deixei de atentar nas crianças e passei a atentar pra muvuca lá fora. Ao fazer isso, descobria que não era uma das habituais brincadeiras ou jogos, mas uma briga! Pensei: “Meu Deus, tem 30 pessoas logo ali brigando!” A verdade é que nem todos estavam brigando, a maior parte estava tentando apartar uma briga. Dessa hora em diante, tive certeza de que não se tratava de um dia normal.

Pouco depois desse momento, quando me dei por mim, um homem sai do meio da muvuca bufando de ira em direção à casa. Era o “papai”. Ele passa por todos nós sem nos olhar, entra no quarto e sai com uma corda. Nesse momento, a risada cessa e as crianças imploram para que ele fique em casa e não vá lá pra fora. Ele é como o líder do cortiço e não pode deixar o caos tomar conta, então vai lá pra fora do mesmo jeito. Pergunto ao Franc o que está havendo, mas ele só me diz que a mãe do Chrisso, o bebê, tem uma disputa com o irmão dela e ele sempre vem pra cá pra discutir com ela acerca do assunto e eles estão sempre brigando (disso eu já sabia, pois já vi várias vezes), mas dessa vez, a família inteira estava aqui e se dividiu e a muvuca era eles brigando entre si! Além disso, a mãe do Chrisso parece que pegou uma navalha pra atacar o irmão. Enquanto o papai põe ordem na bagunça (ele é gigante e super forte), ponho a molecada pra dentro de casa.

Passado o susto, algumas resoluções.

1. Falei com a AIESEC para me arranjar outra acomodação. Morar na favela mais pobre (Andokoi) do distrito mais pobre (Yopougon) de Abidjan num cortiço em cuja latrina 30 pessoas defecam diariamente e tomar banho de balde a centímetros dessa latrina tudo bem, mas barraco de vizinho com direito a navalha não dá.

2. Pais (brasileiros mesmo): não quero vocês se preocupando. Não quero! A situação já está sendo resolvida. Simplesmente orem.

Interessante que, após o tumulto, tudo voltou ao normal. Foi aí que dei por mim: o que eu achava que era festa era briga. Imagino o que pensou o povo no meio do quebra-pau ouvindo um “Bob Esponja” seguido de um “John Wayne”, que foi seguido ainda por outro “Bob Esponja”.

O le blanc maluco termina por aqui reforçando o pedido aos meus amados pais brazucas, vulgos “pidos”, que não se exasperem. Pensei muito se devia postar esse relato hoje ou se devia esperar eu mudar de acomodação, mas decidi que não há motivo nenhum para preocupação, pois a Providência me trouxe em segurança até aqui e tenho fé que continuará a me guiar. Todas as providências foram tomadas e simplesmente aguardo a AIESEC daqui dar meu novo endereço. Pidos, peço que sigam o conselho do Cristo em Jo 6:10 e assentem-se na relva e esperem. Vocês me ensinaram bem, por favor, fiquem tranqüilos e deixem que eu me resolva por aqui, ok?

Amo vocês, obrigado pelas orações e que Deus os guarde como tem guardado a mim.

« Jésus dit: Faites-les asseoir. Il y avait dans ce lieu beaucoup d'herbe. Ils s'assirent donc, au nombre d'environ cinq mille hommes. » Jean 6 :10

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XIV - Viagem Adiada, AIESEC e Paixonite



Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XIV – Viagem Adiada, AIESEC e Paixonite – 04 e 05 de Janeiro

Nada de muito importante aconteceu nesses últimos dois dias. A principal coisa foi que a embaixada do Gana rejeitou meu visto porque não tenho um documento chamado Carte de Résidence – que passou a ser exigido na virada do ano – e frustrou minha viagem, pelo menos por enquanto. Adam e Samantha irão sem mim. De início fiquei bem triste com isso e meio ressentido, por que o Gana rejeitaria um turista? Por acaso eles pensam ser os “United States of Ghana”? Mas tudo bem, o Sr Happy disse que posso aplicar por uma Carte de Résidence e obtê-la num espaço de 10 dias úteis. Desse modo, adio a viagem para fevereiro.

Além disso, meus sentimentos negativos passaram não após palavras amigáveis de minha irmã, mas de uma chamada de atenção via MSN: “é fácil falar de Deus, quero ver é viver essas palavras”. Apesar de tratar-se de outro assunto no momento, essa chamado veio para lembrar-me de Rm 8:28 e de que nada é acaso, mas providência.

Mudando um pouco de assunto, tive uma discussão por e-mail com um representante da AIESEC sobre a falta de comunicação da organização comigo e ele veio aqui em casa e falou comigo e com o Wilfred pessoalmente. Eu disse que por 20 dias ele não havia me ligado ou enviado e-mail para saber como andava minha adaptação. Disse também que isso não seria importante caso eu tivesse ido para a Argentina, por exemplo, mas no momento em que estou do lado oposto do Atlântico, num país não somente de língua diferente, mas com costumes inteiramente estranhos a mim e no bairro mais pobre do distrito mais pobre de Abidjan – em que até um vaso sanitário, encanamento interno e ter mais de 4 lâmpadas elétricas numa casa é um luxo – o contato próximo se faz mais do que necessário. Mencionei que estava extremamente desapontado com a AIESEC Côte D’Ivorire e que graças a Deus eu sou vizinho do Wilfred, que, apesar de estrangeiro, é Africano e tem o francês como língua nativa e dispõe de muitos elementos culturais em comum com a Costa do Marfim. O membro da AIESEC pediu desculpas e garantiu que não vai tornar a acontecer.

A mudança já se faz visível. A AIESEC vai ter um “beach day” para os estagiários, assim, os que já estão aqui e os que acabaram de chegar (um chinês, um taiwanês e dois nigerianos, segundo me consta) podem se conhecer e tudo mais. O beach day está previsto para domingo agora.

Falando um pouco da família, as previsões de minha digníssima, a Lili, se concretizaram. Segundo ela, eu sou de tal modo lindo que todas as “menininhas” (uma de suas palavras preferidas) se apaixonarão por mim uma hora ou outra. Bem, no caso aqui, é literalmente uma meninha: a Benedicte, de 7 anos. Sempre que eu chego, ela está a me esperar toda arrumada, senta perto de mim com a cabeça escorada no meu braço, quer que eu tire fotos só dela e não das outras crianças e – e esse foi um dos dois motivos que me levaram a perceber sua pequena paixão (o outro foi Wilfred dizer “ela está apaixonada por você) – ela não gosta de ver fotos minhas com a minha linda digníssima. Se deixo meu computador aberto com uma foto minha e da Lili no desktop, isso funciona como repelente pra Benedicte. Vou, singelamente dar um corte nela para que ela pare com isso. De qualquer forma, já consigo ouvir em minha mente o “haaaaaaaaaammmmmmmmm!” pronunciado pela Lili quando me encurrala (seu esporte preferido), assim como também consigo visualizar seus lábios um contra o outro e o narizinho retorcido que sempre acompanham esse som.

Ah, aqui vai uma coisa nada a ver: hoje eu vi o cúmulo da nojeira, que foi a mulher no táxi comigo palitando os dentes com um osso de galinha! Eca!

No mais, estou bem de saúde e nenhum mal tem me acometido. Lili, estou com muitas saudades e mal posso esperar pra dar um cheiro nesse cabelo cheiroso pra esquecer a nhaca daqui. Pai, Mãe e Saroca, podem sossegar que não estou comendo porcaria (num sentido amplo do texto, porque não posso garantir a origem da comida daqui). Aos demais, obrigado pelas orações. Que Deus guarde a todos vocês.

« Nous savins une chose : Dieu fait tout pour le bien de ceux qui ont de l’amour pour Lui. Ceux-là, il les a appelés selon son projet » Romains 8 :28

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato XIII - Curtas de Fim de Ano do Indiana Neitan




Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato XIII – Curtas de Fim de Ano do Indiana Neitan– 28 de Dezembro a 03 de Janeiro

Nesse período pós-natal e ano novo não tive nenhum acesso à internet. Sendo assim, compilei o que lembrei em curtas (umas mais longas que as outras) para que vocês saibam como foi minha virada de ano. A propósito, viajei pra Yamoussoukro, a capital política do país no dia 31. O plano era voltar no dia 3, mas como lá não tem nada, voltei no dia 1º. Bem, espero que gostem das curtas. Abraços e Deus seja com vocês.

***

A Vingança

Quem tem acompanhado o blog sabe que divido a cama com meu “irmão”, Franc. É muito difícil dormir por dois motivos: (1) o colchão da cama é praticamente um tablado e (2) o Franc me chuta o tempo todo. Por estar dividindo a cama, esforço-me para não fazer movimentos que possam vir a incomodá-lo. Infelizmente, o mesmo esmero não se encontra nele, que, por vezes, ocupa 80% da cama com seus braços e pernas estiradas. Como eu naturalmente acordo antes de fazer qualquer movimento brusco capaz de acordá-lo, nossa situação é aquela do diagraminha dos jogos em que um jogador executa a jogada e o outro não, resultando num payoff positivo (noite bem dormida) para o primeiro (Franc) e um payoff bem negativo (noite pessimamente dormida) para o segundo (eu). Por vezes, seu pé preto número 47 fica a centímetros de minha cara.

Aproveitei uma das vezes em que acordei após um chute e surrupiei o travesseiro do meu mano. De manhã cedo, após outro chute, tirei o travesseiro do esconderijo (debaixo da cama) e pus perto dele. Assim, quando ele acordou, sequer imaginava de onde vinha o torcicolo de que tanto reclamava.

O Fedorento

Outro atributo do Franc é seu fedor. Todo mundo aqui tem uma nhaca marcante, mas a do Franc é realmente a referência. Ele deixa suas camisetas penduradas e quando me levanto da cama aquela catinga impregna minhas narinas. Somente lendo isso, é difícil para que vocês desenvolvam empatia suficiente para realmente saberem o que eu tenho que cheirar todo dia. Achei um modo para exemplificar.

Sabem aquele cheiro tão forte que torna capaz até sentir o gosto? Quem anda por São Paulo vê muitos carrinhos vendendo milho. Às vezes sequer o avistamos, mas o cheiro gostoso do milho verde nos faz saber que dentro em pouco avistaremos um vendedor e já até podemos saborear o quitute. Captaram?

O suor do Franc – que dorme comigo toda noite – é de um azedo tal que é como se eu tivesse dado uma lambida num picolé de mijo.

A Indiscreta

Volto do trabalho e chego em casa. Converso ainda alguns assuntos de trabalho com o Wilfred, que é meu vizinho, e uma das gêmeas caçulas – não sei bem qual porque eu realmente não consigo diferenciá-las – sai de casa, vai até o pé-de-manga, abaixa-se e começa a fazer xixi. Terminada, levanta-se, vem me dar um abraço e entra em casa. Diante disso, dois lembretes: nunca andar descalço e nunca mais segurar as mãos das crianças daqui.

A Correção

Essa foi a “Maman” que me contou. Estava ela na feira (aquela do peixe) quando uma senhora da igreja batista perguntou como andava o Natu. “Natu? Quem é Natu?” – perguntou Maman. “Teu filho branco, ora!” – redargüiu a irmã. “Meu bebê não se chama Natu! Ele se chama Natón!”

E tenho dito!

Autoridade

Fiz um amigo polonês aqui e seu nome é Adam. Como AIESEC é inexistente para nós, então os estagiários estrangeiros se arranjam uns com os outros para sociais e afins. No último happy hour no bar brasileiro, cada um falava de seu trabalho. Eis mais ou menos o relato de Adam:

“Trabalho numa ONG com 12 outros caras e eles não fazem nada o dia inteiro e, após um mês aqui, não me deram nada pra fazer. Não há banheiro no trabalho e todos nós fazemos xixi numa das paredes. O pior, contudo, não é isso. Ao longo do dia, devido ao calor, os rapazes tiram peças de suas roupas. O chefe é sempre o com menos roupas e fica só de cuecas. Quando ele não está, é política da empresa que o mais despido fica no comando. Sempre sou um subordinado.”

Grifos meus.

Caçando com gato

Mais uma de Adam. Estávamos nós na embaixada do Burkina Faso querendo saber como obter um visto quando Adam perde a paciência e fala ao funcionário com seu péssimo francês e seu insipiente espanhol:

“Comment puis je obtener el visto burkineño?!”

A Máxima

Meu pai – o brasileiro – é conhecido na família por suas célebres “máximas” (nada) filosóficas. Bom filósofo de poltrona que é (ou seria de rede?), ele me diz ao conversarmos ao telefone:

“É, meu filho, você aí é um pingo de leite num balde de café”

Profundo, páps!

Na casa do chefe – Parte I

O Sr Happy Happy ficou muito feliz (trocadilho interlinguistico infame, eu sei, mas não resisti) com meu trabalho em livrar seu computador dos vírus. Eu só instalei o AVG e apertei “verificar”, mas tudo bem. Ele contou pra esposa e fui designado para ir à casa do chefinho instalar o antivírus no PC doméstico, que roda há um ano SEM antivírus.

O motorista me levou até a casa do chefe e quem me atendeu foi uma Sra Happy Happy com máscara de beleza (cúmulo da inutilidade) e os cabelos arrepiados. Após um esforço hercúleo para não rolar ao chão gargalhando diante dessa besta-fera, entrei na casa e fui tentar arrumar o computador.

O computador está tão leproso que sequer o internet browser roda. Ele até abre na página do Google, mas fecha mediante a ordem de rodar qualquer aplicativo mais importante. Após 40 minutos tentando entrar nos sites de download de softwares, consegui dar a ordem pra baixar o AVG. O download demorou muito e o arquivo veio corrompido. Nesse meio tempo, chegou a mãe da Sr Happy Happy, que berra tão alto quanto a filha.

Após anunciar o fracasso, a ufanista Mamãe Happy Happy fala “não consegue nem arrumar isso, vem querer colonizar a gente?”. Não houve sentido nenhum no que essa velha louca gritou, mas confesso que a última coisa que eu esperava encontrar no lar dos Happy Happy fosse nexo.

Na casa do chefe – Parte II

O Sr Happy Happy insistiu que eu voltasse lá ao dia seguinte do relato acima e assim ocorreu. Voltei lá e, como sempre, nada deu certo. Avisei ao chefe que ou ele chama um profissional ou compra outro computador. Mas o que realmente chamou atenção foi a Mamãe Happy Happy, que se encontrava lá novamente. Ao atender ao telefone, ela começou a conversar normalmente com sua amiga e lá pras tantas disse que não havia nada de novo, só o “branco de ontem” mexendo no computador. Mulher chata do meu abuso!

Zangado

Lembram do moleque capeta que me chamou de dentuço? Pois ele é o capeta mesmo. Atazana a vida das crianças mais novas que ele. Saindo na terça à noite para o culto, ele e mais dois outros moleques de sua idade (uns 9 anos) seguravam no chão e amarravam os pés duma menina de uns três anos. Irei-me e gritei para pararem e eles se afastaram de susto. Nunca tinham visto o le blanc aqui irado. Desamarrei a coitada e mandei os moleques virem tentar fazer o mesmo comigo. O capeta e seus dois amigos fugiram e isso foi para alegria geral do público menor de cinco anos, as vítimas costumazes das traquinagens desses três.

Indagação (Em Yamoussoukro)

Eu andando na rua quando:

MOÇA ALEATÓRIA: Le Blanc, você é da ONU?

EU: Não.

MOÇA ALEATÓRIA: Você não é do corpo de paz?

EU: Não.

MOÇA ALEATÓRIA: Você não é dos militares estrangeiros?

EU: Não.

MOÇA ALEATÓRIA: Mas já foi militar, não?

EU: Como é?

MOÇA ALEATÓRIA: É que você anda marchando.

Surpresa (Em Yamoussoukro)

Passando pela boulevard principal de Yamoussoukro, vejo pintado numa parede um coração vermelho contendo uma pomba em cima dos dizeres “Église Universelle Du Royame de Dieu”. Até aqui?!

Fundação Felix Boigny (Em Yamoussoukro)

Chegamos eu e Wilfred na fundação e pergunto pro guarda se precisamos mostrar documento pra entrar. Ele responde que sim e que tem que pagar: 1000 francos pra marfinenses e 2500 francos para europeus.

“Não sou Europeu, sou brasileiro” – digo e mostro o passaporte

“Mas você é branco, não é?” – responde o guarda

Fiquei bravo e disse que no meu país isso era crime. “Mas fazer o quê? Vir para essa selva distante da civilização que é a Costa do Marfim foi escolha minha, não?” – resmunguei.

Tirei foto do lado de fora mesmo e fui embora.

Gambá no Campo de Flores

Franc decidiu sair pra curtir a noite com seus amigos. Antes de sair, pede meu desodorante e meu perfume emprestados. Eca!

A Crise Existencial

Eu voltando da igreja quando uma menininha faz o que todas as crianças fazem: apontam pra mim e gritam “le blanc!”.

Em face disso, brincando, retruquei apontando do mesmo modo: “la noire!” (=negra), ao que ela responde: “onde??”

O Monstro e o Pulo

Todo mundo já sabe do medo que a Roxanne tem por mim. Contudo, tenho que relatar o que ela fez tão logo voltei da igreja.

Entre pela porta do cortiço, ela me viu e, como não sabe andar ainda e só engatinha, fez um esforço estupendo e, tal qual uma rã, articulou seus bracinhos rechonchudos e suas perninhas roliças e conseguiu dar um pulo para detrás do parapeito e se esconder de mim. Isso me fez lembrar de uma vez que assisti a um programa no National Geographic sobre as pulgas e como elas pulavam 30 vezes seu tamanho. Mutatis mutandis, essa é a Roxanne.

A propósito, o decurso de seu medo é o contrário das demais crianças; não diminui com o tempo, só aumenta.

Extravagante

Tento o máximo possível ser discreto, pois eu chamo muita atenção mesmo quando não faço nada. Infelizmente, o pessoal aqui não coopera muito. Saio do quarto pra ir à latrina fazer xixi quando:

PAI: Pra onde você vai?

EU: Fazer xixi.

PAI: Ao banheiro, então?

EU: É.

(ele bota a cabeça pra fora da porta de casa)

PAI (berrando): SAIAM DO BANHEIRO PORQUE O NATAN VAI MIJAR!!

MURMÚRIO GERAL: Hihihi! O Natan vai mijar!

JUDITH (criança vizinha): O Natan faz “pipi”?!

(estardalhaço dos meus “pais” para que ninguém entre no banheiro antes de mim. Caminho até o banheiro)

MURMÚRIO GERAL: Hihihi!

(Judith insiste)

JUDITH: Branco faz “pipi” mesmo? Eu nunca vi o Natan fazendo!

Mme Agathe (mãe da Judith): É porque ele não faz na rua, só na latrina.

JUDITH (e demais crianças que tinham a mesma dúvida): Ahhhh!

EU: ...

Entrei, fiz xixi e voltei pra casa. No caminho de volta, todos olhavam pra mim e continuavam rindo. Tenho de achar um modo de convencê-los que sou de outro país, não de outro planeta.


"Béni soit le Dieu et Père de notre Seigneur Jésus Christ, qui nous a bénis de toute bénédiction spirituelle dans les lieux célestes en Christ selon qu'il nous a élus en lui avant la fondation du monde, pour que nous fussions saints et irréprochables devant lui en amour,nous ayant prédestinés pour nous adopter pour lui par Jésus Christ, selon le bon plaisir de sa volonté, à la louange de la gloire de sa grâce dans laquelle il nous a rendus agréables dans le Bien-aimé." - Éphésiens 1:3-6