segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato VII - Amenidades de Fim de Semana e o Falso Profeta



Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato VII – Amenidades de Fim de Semana e o Falso Profeta – 18 a 20 de Dezembro

***

17/12 e 18/12

Na quinta, dia 17, fui à minha primeira reunião com um cliente. Foi no United Bank of Africa (UBA), um banco nigeriano. Eles queriam renegociar o preço do nosso serviço. A reunião durou 5 minutos e eu não disse nada. O chefe já tinha tudo preparado e acho que ele só me levou para dizer que tinha um branco na empresa, afinal, estamos buscando um posicionamento de empresa com equipe jovem, talentosa e internacional. Nada demais aconteceu.

Dia 18, sexta-feira, chegou e fim de semana às portas! Certo? Errado. Terei que voltar amanhã pra uma reunião com dois rapazes que estão oferecendo uma possibilidade de serviço novo para nós. De qualquer forma, o que mais me chamou a atenção hoje não foi a hora-extra, mas a reunião muçulmana que teve aqui.

Sexta é sagrada para muçulmanos o edifício em que trabalha é dominado por libaneses e egípcios. No entanto, a maioria dos muçulmanos que vi aqui são negros mesmo. Eu nunca tinha visto tantos muçulmanos juntos. Entrei rapidamente na empresa na volta do almoço e, antes de voltar ao trabalho, fui à janela para observá-los e tirei a foto que segue na postagem. Peço aos cristãos que orem por essa terra perdida dominada por muçulmanos, papistas idólatras e pagãos tribais.

***

19/12

No sábado, fui a uma coisa da AIESEC após a reunião na empresa e voltei pra casa à noite. Ensinei “ciranda cirandinha” e “andoleta” para as crianças. Brincamos à noite e agora para onde vou tem moleque cantando andoleta!

***

20/12

Descobri hoje que a igreja em que freqüento é uma congregação de uma igreja central em Abidjan. Os preletores de hoje foram dois pastores dessa igreja à qual a daqui é subordinada enquanto não se emancipa. Dito isso, vamos ao que interessa.

O pastor da igreja central que veio pregar é um baita dum charlatão. Isso não se trata de juízo temerário, como ocorreu da outra vez, pois esperei a pregação inteira e mais uma série de conferências de passagens bíblicas para chegar a essa conclusão. Das heresias vomitadas por esse sujeito, duas se destacam:

Heresia 1: Ele relatou às gargalhadas uma vez em que ele estava expulsando um demônio e o bicho não queria de jeito nenhum ficar sem um hospedeiro humano, então ele fez a concessão e jogou o demônio num branco que passava.

Ao fim dessa bobagem, a congregação olhou pra mim e riu. Não foi isso que me deixou enervado, mas o fato de que nunca, jamais e em tempo algum na história da cristandade o exorcismo foi motivo de riso. Vocês conseguem imaginar os apóstolos rindo com Jesus sobre esse assunto? Eu também não, pois o Novo Testamento trata disso com seriedade e não com galhofa, como fez o dito cujo hoje de manhã.

Heresia 2: Ele pediu ofertas para o funeral de um dos pastores da igreja que morreu. Até aí nada de errado, o problema foi quando as pessoas iam dar a oferta e ele as separou pela quantidade dada. Assim, o pessoal que deu 500 francos estava separado do pessoal de 1000 francos, que estava separado do de 2000 francos e por aí vai. Ao único que deu 5000 francos (a maior oferta), ele disse que “era um homem de fé”.

Essa foi perto do fim do culto e foi quando decidi que ia falar com ele após o término de tudo. Orei pedindo para que fosse o Espírito que falasse e não eu. Acabado o culto, pedi para que me levassem até ele. Daí, fui conduzido até a sala do pastor sênior da congregação, que estava com o pastor herege que pregara e o restante da liderança. Pedi pra falar com o pastor herege a sós (claro que não o chamei assim, viu mãe!), mas ele disse que eu podia falar ali mesmo – ele devia pensar que se tratava de elogios – e a conversa segui-se assim (foi tudo o que meu francês atual permitiu):

– Não entendi o motivo de separar as pessoas pela quantia dada. Por que fez isso?

– Para motivar as pessoas a terem mais fé e a darem mais.

– A motivação na Bíblia é sempre a misericórdia de Deus e nunca o reconhecimento humano. Escute Lucas 21, dos versos 1 a 4, sobre a viúva pobre.

“E, olhando Ele, viu os ricos lançarem as suas ofertas na arca do tesouro e viu também uma pobre viúva lançar ali duas pequenas moedas; e disse: ‘Em verdade vos digo que lançou mais do que todos os outros, porque todos aqueles deitaram para ofertas de Deus do que lhes sobeja, mas esta, da sua pobreza, deitou todo o sustento que tinha’.”

O que o senhor fez o contrário disso! Separou por valor de oferta quando na Bíblia isso não existe!

– Não é obrigado dar, mas só quem tem fé.

– Não foi isso que você fez. Você fez reconhecimento de quem deu mais publicamente, precisamente o contrário do evangelho de Lucas. De qualquer forma, tenho ainda outra dúvida e é sobre você ter tirado um demônio de um homem e posto num outro.

– Sim, nós temos trabalhos de livraison (obs: no Brasil é conhecido como “descarrego”) e tenho autoridade sobre eles.

(obs: como meu francês havia se esgotado, falei somente mais isso aqui)

– Eu gostaria de ler outra passagem para o senhor. É Mateus 7: 21 a 23

“Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor!”entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?”E então lhes direi abertamente: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade”

Eu gostaria que o senhor soubesse que muitas das coisas que ocorreram aqui hoje eu vejo no Brasil, de onde sou, e são todas, TODAS, feitas por falsos profetas. Tenha um bom dia, pastor.

– Não é bem assim, por que você não vem num culto nosso de livraison?

– Je vous souhaite une bonne journéé,monsieur. (Desejo-lhe um bom dia, senhor)

-----------------

Após isso, desejei mais um bom dia ao pastor, despedi-me da liderança – que havia presenciado isso tudo – e voltei pra casa. No caminho, um dos diáconos veio comigo explicando que as coisas são diferentes em diferentes lugares. Retruquei dizendo que o Evangelho de Cristo era um, e um somente, em todos os lugares e em todo o tempo. Nós nos despedimos e voltei aos meus afazeres e preparativos para a semana de trabalho.

Mais um pedido aos cristãos: orem também para que Deus envie obreiros para batalhar não apenas contra as doutrinas erradas e demoníacas de paganismo, idolatria e islamismo, mas também contra os lobos vestidos de ovelhas que infestam as já pouco numerosas congregações protestantes.

Obrigado pelas orações e que Deus os guarde.

« Faites attention aix faux prophètes ! Ils viennent à vous habillés avec des peaux de moutons, mais au-dedans ce sont des loups féroces » Matthieu 7 :15


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato VI - Plano de MKT, Pepsi explosiva, o taxista mijão e o dentuço



Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato VI – Plano de MKT, Pepsi explosiva, o taxista mijão e o dentuço – 15 e 16 de Dezembro

Hoje eu e Wilfred trabalhamos bastante. Chegamos pouco antes das 08h e fomos diretos até 17h sem interrupção NENHUMA. Nosso ambicioso plano de marketing tem pré-etapas que são basicamente coleta de informações, pois a empresa não tem estrutura nenhuma desse tipo de coisa: dados de clientes, comunicação, relatórios de desempenho próprio e nem da concorrência e por aí vai. Antes, deixe-me explicar um pouco essa empresa.

Ela se chama AFCO Express e é como um concorrente do serviço postal do governo. Como os correios daqui são muito ruins, há uma série de empresas que operam nesse setor. A AFCO é a mais antiga empresa marfinense do ramo (fundada em 1990) e, devido à ser a pioneira, adquiriu vantagem significativa em conseguir participação de mercado. Contudo, a globalização chegou aqui no início da presente década e companhias como UPS, Fedex e DHL começaram a operar também. Essas gigantes, contudo, não competem conosco – ufa! – mas fazem parcerias com empresas locais para que elas se encarreguem das entregas internacionais à Costa do Marfim. É aí que entramos. Mas também atuamos como correios locais entre empresas e instituições locais. Entre nossos clientes, figuram a Shell, a Chevron, o United Bank of Africa (UBA) e o World Bank. A nossa sorte é que a concorrência é tão antiquada quanto a AFCO. Em um mercado maduro, nossa estrutura enferrujada, de pouca comnicação com os clientes e de autoritarismo do chefe se desfaria rapidamente. Como a tendência do país agora é a maturação do mercado desde que a guerra civil acabou em 2006, eu e Wilfred queremos aproveitar que a concorrência é mais débil do que nós para melhorarmos a AFCO. A AFCO foi pioneira no setor e novamente será pioneira (se tudo der certo!), mas dessa vez em aplicação de políticas de relacionamento com o cliente.

O nosso portfólio de vendas está 99% pronto (só falta melhorar o design da capa, o conteúdo interno e os contratos nós já terminamos) e estamos segmentando o mercado de Abidjan – já separei 45 embaixadas e representações diplomáticas que poderiam utilizar nosso serviço e Wilfred fez o mesmo com bancos e ONGs humanitárias internacionais. O chefe está vendo as maravilhas que acontecem quando se trabalha com internet e ele agora nos deixa ficar algum tempo no escritório dele para usar a internet. Infelizmente, ela não é wi-fi e só há um cabo. Então eu e Wilfred temos de revezar.

Quando saímos da empresa às 17h, demos conta de que não havíamos comido o dia inteiro. Fomos a um mercado muito bom perto do ponto em que pegamos a lotação de sempre. Esse mercado é caríssimo para os padrões locais – apesar de não ser nada perto de São Paulo – e parece um mercado brasileiro normal: ar-condicionado, ilhas de degustação, guarda-bolsas etc. Comprei um sanduíche e uma Pepsi e deu 600 francos. Infelizmente, eu só tinha uma nota de 10000 francos. A mulher do caixa virou uma arara. Berrou, gritou, deu-me uma esculhambação e tudo que eu podia dizer era pardon e je suis desolé. Ela foi lá dentro pegar troco e trouxe-o junto com a Pepsi. Fui embora meio assustado e, quando entramos no táxi e abri a Pepsi, a garrafa fez aquele negócio que sempre faz quando alguém chacoalha um recipiente de conteúdo líquido gaseificado. “Miserável!”, pensei, lembrando-me de minha desafeta que devia estar maquiavelicamente gargalhando em seu caixa nessa hora para completo espanto do cliente da vez.

Bem, o táxi partiu. Dos motoristas loucos que vi por aqui, nunca vi nenhum tão doido quanto esse taxista. O cara fechava até as viaturas da ONU levando doações internacionais. Lá pras tantas, o cara puxou pro acostamento e disse excusez-moi deux minutes, je vais pisser très vite. Como acontece com todo mundo que está aprendendo um novo idioma, o significado de algo só vem à mente algum tempinho depois. Além disso, concluí ser algo bem comum, pois ninguém no carro se surpreendeu. Quando dei por mim, perguntei pro Wilfred se o cara realmente tinha dito que ia fazer xixi rapidinho. O Wilfred respondeu que sim, mas não acreditei e virei pra trás. Foi aí que vi o figuraça do taxista em “posição de tiro” olhando pro céu e um jatinho atingindo o matinho do acostamento após perfazer um arco de parábola. Depois, o sujeito volta ao táxi, liga o rádio e começa a cantar logo após cantar pneus e entrar na auto-estrada. Nada de anormal acontecera ali. Que é um xixizinho na rua de vez em quando, né?

Chegando em casa, a Roxanne, que brincava na areia na frente do cortiço, berrou e saiu todo mundo pra vir me desejar o bom arrivé costumaz (assim que der, posto uma foto que tirei dela se agarrando na mãe com medo de mim). Tomei banho, fui ao culto na igreja batista e, após voltar, comi ovo com mamão e banana (mistureba gostoso). Após o jantar, estava relendo os textos da aula de estratégia para o trabalho quando chega bastante gente na casa e escuto me chamarem. Pelo que entendi, eram parentes da mãe da família que vieram me ver. Agradeci a gentileza e conversei com eles na medida do possível do meu francês. O filho da visitante, contudo, é o capeta em pessoa e me chamou de dentuço (gros dent, ou algo do tipo; de qualquer forma, pronuncia-se “grô dã”). Os visitantes foram embora e vim aqui escrever.

Agora vou me preparar para dormir e arrumar as coisas para amanhã. Mais uma vez, agradeço as orações dos irmãos e peço-lhes que ponham também esse país e essa gente em suas preces. Forte abraço a todos.

Que Deus os guarde.

Ne vous laissez pas dominer, dans votre conduite, par l’amour d’argent ; contentez-vous de ce que vous avez, car Dieu a dit : « Je ne te laisserai pas, je ne t’abandonnerai jamais. » - Hebreux 13 :5

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato V - Cotidiano



Registro de Viagem: Costa do Marfim
Relato V – Cotidiano – 15 e 16 de Dezembro

Após o choque inicial já relatado, as coisas começam a se normalizar, se é que se pode usar essa palavra para o estilo de vida marfinense! Antes de prosseguir com o relato, eu gostaria que os mais próximos (família e digníssima Lili) ficassem tranqüilos com a minha estadia aqui. Alguns de vocês estão se exasperando por causa da condição do país e da casa em que estou morando, mas asseguro que (1) estou muito bem no desfruto da graça de Deus e (2) voltarei para casa em fevereiro, se Deus quiser. Fiquem tranqüilos e relaxem. Outra coisa, como a internet só pega na sala do chefe, não tem como eu me comunicar com vocês do modo que eu gostaria, somente dá pra ler e mandar e-mails curtos, principalmente no que diz respeito a notas da faculdade, enquanto o Sr Happy Happy (esse é o nome do chefe, sem brincadeira) não olha. Então minha comunicação com vocês se dará mais aqui pelo blog mesmo, apesar de eu ter comprado um celular e ligar vez por outra pra aí (é meio caro e não tem telefone em Yopougon).

Pois bem, aqui vai um pouco da rotina que começa a se delinear. Acordo um pouco antes das 06h da manhã e vou tomar banho. Todo mundo aqui no cortiço já está de pé e animado. Pego minha câmera e bato algumas fotos. Prometo que assim que chegar o fim de semana (ou o chefe der uma saidinha) eu ponho tudo no Orkut! Tem dois bebês aqui no cortiço: o Chrisso (acho que se escreve assim) e a Roxanne. Vejo a Roxanne pela janela ela está sempre toda sorridente, mas quando eu apareço ela rasteja pra saia da mãe e solta o choro. Eu assustei já várias crianças aqui, principalmente as mais novas. Ainda ontem passei na rua e uma delas gritou em alerta pras outras regardez le blanc! (=olha o branco!). Eu dou tchau e cumprimento, mas somente as mais corajosas respondem ao cumprimento dessa terrível aberração sem cor (eu).

Chego ao trabalho um pouco antes das 08h e não dá pra fazer muita coisa. Minha função é de prospecção, o que implica pesquisa, que conseguintemente implica informações. A empresa não tem sequer os e-mails dos seus principais clientes, então, nada de dados próprios. A propósito, é exatamente isso que eu e Wilfred estamos tentando mudar. Temos um ambicioso plano de marketing que foi aprovado pelo chefe pra fazer a cultura da empresa se modernizar um pouco (o portfólio de vendas da AIESEC FGV está servindo de base para o portfólio que eu estou desenvolvendo por aqui; valeu AIESEC!). De qualquer forma, para conseguir dados eu posso ou ir à biblioteca – que não apenas desconheço onde fica, como também são dados pouco relevantes para a missão corporativa que temos – ou recorrer ao Google. Bem, como se sabe, não temos internet em nossa saleta. Ou seja, até o chefe chegar, nós adiantamos tudo que depende somente de nós, mas isso não é tanta coisa assim.

Depois que ele chega, corremos pra falar com ele antes que ele torne-se inacessível – o pilantra sai e tranca o escritório, que é onde está a internet – e pedimos para que ele delegue certas tarefas para os funcionários de base que farão entregas aos clientes. Essas tarefas são recolher dados dos clientes como endereço, telefone e e-mail. Acreditem, somente agora a internet está se popularizando na Costa do Marfim e nem todos ainda fornecem dados ou têm sites (o nosso próprio site – afcoexpress.com – ficou pronto a menos de um mês). Se o chefe não delegar a tarefa, não será cumprida. Na mente dos funcionários, eles não trabalham para AFCO, mas para Jean Marie Happy Happy (morro de rir sempre que falo esse nome).

Lá pelo meio-dia, Wilfred e eu vamos almoçar. A comida é bem barata, mas meio estranha. Sempre peço o prato que não tem carne ou, se tiver, que seja bife de gado. Hoje comi cuscuz, que é um pouco diferente do nosso. Wilfred comeu um tipo de porco selvagem e cuspiu as munições com que caçaram o porco. É isso mesmo, Wilfred mastigava tranquilamente e de vez em quando cuspia as bolinhas de chumbo pra fora. Evidentemente, o porco selvagem foi abatido com um cartucho duma espingarda calibre 12. O resto do dia consiste basicamente de nós dois tentando fazer milagre, pois o marketing inteiro da empresa está nas mãos de dois estagiários.

Na volta, pegamos o táxi naquele velho sistema de lotação. Chegando à Prémière Pont, em Yopougon, descemos e voltamos pra casa. Sei que chegamos sempre por volta das 18h porque os muçulmanos estão entoando suas rezas cantadas. Tem bastante islão por aqui e contei umas 12 mesquitas no percurso entre o trabalho e o cortiço. No caminho de volta passa em frente à Igreja Batista em que tenho congregado e já conheço algumas pessoas na região. Contrariamente às outras crianças, os filhos dos irmãos vêm me abraçar quando passo. São as coisas mais lindas!

Chegando em casa, a Roxanne solta o berreiro e todo mundo sabe que cheguei. Todos me desejam bon arrivé, algo como “boa chegada em casa”. Vou pro quarto, ligo o ventilador no 3 (aqui é mais quente que Fortaleza) e tiro o paletó e a gravata. Pego minhas coisas do banho e lá me vou à salle de bain cantarolando algum hino do CC. Depois janto mamão e laranjas, escrevo algo pro blog, leio e estudo e mais um dia vai chegando ao fim!

Saindo do assunto rotina e entrando no de curiosidades marfinenses, há algumas coisas interessantes que gostaria de compartilhar com vocês. Primeiramente, todo mundo vende comida. Peixe, carne, pão, ovo etc. Tudo porcamente exposto ao ar livre. O pessoal por aqui também come enguia e as etnias que vieram para cá de Camarões, cobra. Oferecem para que eu prove, mas eu educadamente recuso. Sinceramente, aquela enguia estirada na mesa não me desperta o apetite. Esse fato de todo mundo vender comida me lembrou o relato da França dos Escritos Políticos, de Maquiavel. Ele zomba que na França de seu tempo todo mundo passa fome, mas são todos comerciantes de trigo. Ironicamente, os únicos que têm dinheiro para comprar trigo – os nobres – não o fazem porque eles próprios o cultivam. Assim, numa terra em que a produção de trigo é abundante há gente passando fome. A África do século XXI tem muito a ver com a França do século XV.

A segunda coisa diferente que notei até agora é que é falta de educação entregar coisas com a mão esquerda, é uma verdadeira ofensa. Fui pagar o táxi e tinha a mochila na mão direita, então tirei a nota de 1000 francos do paletó e entreguei com a mão esquerda. O taxista respondeu pouvez-vous changer, monsieur? (=poderia trocar, senhor?). Como a corrida é 600 francos, lá fui eu atrás de moeda. Vendo isso, Wilfred disse que o trocar que ele queria não era dinheiro trocado, mas que eu trocasse a mão para pagar-lhe. Mazóia!

A terceira coisa diferente é algo que no edifício em que trabalho há uma parte residencial que é dominada por libaneses. Quando saio do trabalho às 17h, vejo um bocado de criancinha branquela do cabelo escuro igual a mim brincando no pátio e sendo observadas por suas babás (todas negras). Abidjan é assim, dependendo do distrito há um povo dominante. Onde estou é um distrito de libaneses, mas há ainda o de franceses e o de senegaleses.

A quarta coisa curiosa em relação aos marfinenses: onde quer que eu vá, há uma bandeira americana com as fotos do presidente Barack Obama e do Michael King Jr (vulgo Martin Luther King Jr). Por aqui, há um forte senso de, como eles mesmo dizem, négritude.

Por fim – e isso não é uma curiosidade, mas apenas um atestado da verdade – a beleza de minha digníssima Lili tem reconhecimento nesse continente também. Mostro nossa famosa fotinha da carteira e todo mundo fica Très bien, Natóón! (é assim que pronunciam meu nome) ou Félicitations!. A galera aqui pode ter umas bizarrices como comer com as mãos e beber com talher, mas reconhecem a verdadeira beleza quando lhes é apresentada! Lili, te amo muito e to morrendo de saudades!

Bem, há ainda muita coisa interessante para falar, mas ficará para as postagens posteriores, pois nem quero ser muito chato e demorado com vocês e também acabou a força e o laptop ta na bateria. Forte abraço a todos e muito obrigado pelas orações.

Que Deus os guarde.

Jesus lui répondit: « Je suis Le chemin, je suis le vérité, je suis la vie. Personne ne peu aller au Père autrement que par moi » - Jean 14 :6