terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato III - 1º Culto

Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato III – Primeiro Culto – 13 de Dezembro

Fui ao culto na igreja batista local. Um homem da igreja que mora perto passou por aqui e me levou com ele. Ele é professor de alemão na Université Codody, a grande universidade pública do País. Algo como a USP é para nós. De qualquer forma, frère Abraham (irmão Abraão) levou-me à igreja.

O culto vai das 07h às 10h da manhã e é de uma liturgia bem animada. Chega uma hora que as pessoas vão à frente e dançam, mas não a dança sensual latina de requebrar os quadris a que nós brasileiros estamos habituados e sim uma espécie de sapateado. Os velhinhos fazem roda e dançam juntos. Julguei se tratar de uns batistas meio pentecostais e já imaginei o que estava por vir.

Tive nojo e vergonha. Não do culto, das pessoas ou da doutrina. Nojo de mim. A pregação do pastor foi tão firme quanto às de Paul Washer, John MacArthur ou do Pr Nogueira. Não posso julgar minúcias da doutrina, pois não compreendi 100%, mas o Espírito Santo fez questão de me fazer compreender a firmeza e o conteúdo geral da mensagem, que foi a gratidão. O pastor exortou os irmãos a serem gratos. “Sejam gratos a Deus por tudo! Estar vivo já é motivo suficiente para ser grato!”. O pastor falava isso a gente que, como ele, sobreviveu uma guerra que durou uma década e acabou a menos de 2 anos, que não possui água encanada, que vive em choças, que padecem de infra-estrutura precária e um governo de corrupção generalizada. E eu reclamando na véspera que o banheiro não era do modo que eu queria.

Vim à Costa do Marfim com o desejo de poder auxiliar igrejas e missionários. Se há alguém aqui que não está ensinando nada e aprendendo muito, esse sou eu. Um povo tão carente, mas ainda assim tão grato a Deus. Como Edwards em Pecadores nas Mãos de um Deus Irado, o pastor fez questão de lembrar que somente continuamos a respirar única e exclusivamente pela vontade de Deus. Essas pessoas não simplesmente conhecem essa verdade, elas VIVEM essa verdade. Que Deus as abençoe. Quanto aos missionários, não há nenhum missionário estrangeiro por aqui. Pelo contrário, eles MANDAM e SUSTENTAM missionários. A igreja possui 4 pastores missionários nos EUA. Glória a Deus.

Eu sou tão estúpido, mas tão estúpido, que meu devocional naquele mesmo dia englobou Mateus 7, que fala sobre o juízo temerário. Mesmo tendo lido essa passagem no próprio domingo, chegando à igreja, julguei. Ah, meu Deus, tem misericórdia de mim, porque sou o mais miserável dos pecadores. O que me fez ter mais nojo de mim mesmo foi que após o culto, as mesmas pessoas que eu havia julgado vieram calorosamente me abraçar e me beijar. As crianças correram até mim pra me abraçar com a graciosidade que somente as crianças têm.

Após isso, frère Abraham me conduziu de volta a minha casa, mas antes passamos pela casa dele. Ele e sua esposa possuem cinco lindas crianças. Aliás, que povo bonito é o povo marfinense! Gente alta e forte! As crianças, mesmo com as condições sanitárias vigentes, são as coisas mais lindas. Voltei pra casa e tomei o achocolatado com água quente e um pedaço de pão e fui cochilar.

Acordei e as crianças estavam estudando, pois amanhã (segunda-feira) têm aula. Fui lá fora – onde estudavam – e ensinei-lhes a multiplicar. Mostrei também minha HP12C e elas olhavam com aquela cara de “ooooohhhhhh”. Brincaram com ela por um tempo (a calculadora começou a enguiçar, suspeito algumas quedas no chão), tirei fotos e chutei uma bola com elas pra lá e pra cá. Imagino que devo ter um baita sotaque bizarro. A tudo que fala todo mundo capota de rir. É mais ou menos assim:

EU: Bonjour!

PESSOA: HAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHA

ou

EU: Salut! Ça va?

PESSOA: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

E por aí vai.

De qualquer forma, sinto que minha compreensão e minha fala do francês estão melhorando. Agora, no lugar de repetirem mil vezes o que querem me dizer, só repetem umas 500 vezes. E eu, para ser compreendido, não preciso mais fazer gestos escandalosos tão típicos do lado materno da família (certo, mãe?).

À tarde fui a um estudo bíblico de um evangelista na casa de um irmão da igreja. É pertinho daqui. Ele pregou sobre 1 Samuel 7:3 e, terminado o estudo, agradeci ao dono da casa pela hospitalidade e voltamos. No caminho, encontramos outro evangelista. Combinamos de nos encontrar na terça após o culto (18h-20h). Ah, outra coisa, fiz um amigo na igreja e ele fala inglês. É um jovem também e um rapaz muito distinto e gentil.

Agora chega a noite e em pouco tempo vou me preparar para banhar-me e recolher-me. Amanhã é o primeiro dia de trabalho e estou ansioso para começar.

Agradeço a todos os que têm orado por mim. Orem também por esse país e essa boa gente.

“Car Dieu a tellement aimé Le monde qu’il a donné son Fils unique, afin que tout homme qui croit em lui ne meure pás mais qu’il ait La vie éternelle” – Jean 3:16

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato II - Recepção da Família


Registro de Viagem: Costa do Marfim
Relato II – Recepção da família – 11 e 12 de dezembro


A casa em que estou mal pode ser chamada casa pelos padrões brasileiros. É, na verdade, um cortiço em que várias famílias moram. Não há encanamento interno em nenhuma das casas e a higiene pessoal e as necessidades fisiológicas são feitas fora da casa. Há dois banheiros para todos os habitantes do cortiço, entretanto, os banheiros também não possuem encanamento!

Como antigamente, encho um balde d’água e vou para a salle de bain (sala de banho). Lá me lavo. Também, há um buraco em que as pessoas se acocoram para defecar. Não é piada, há mesmo. Há, inclusive, para maior conforto do, por falta de palavra melhor, defecante, apoio para os pés a fim de que não se escorregue. Durante o banho, o cheiro de urina (lembrem-se: não há descarga!) reina no banheiro. O banho não é a parte mais difícil, tomo um de manhã e outro à noite, o mais difícil é o velho cocô. No momento em que escrevo, admito que não fiz nada desde antes do vôo à Paris, dois dias atrás. Quem me conhece sabe que isso é muito incomum.

O quarto também não é muito grande. Divido-o com meu “irmão”, Franc. Devo ser mais específico: dividimos a cama. Não há espaço e dividimos a cama. Entretanto, mesmo com todas essas limitações, a família tem sido extremamente adorável e feito de tudo para me deixar confortável. São verdadeiramente uns amores.

Quanto ao local em si, descobri que Yopougon não é bairro de Abidjan, mas sim um distrito independente com prefeito e tudo mais. Hoje fui a uma cerimônia em que foi entronizado o chefe da vila. Esse chefe é autoridade popular, não política. Filmei a cerimônia e é algo realmente tribal. Feiticeiras jogavam farinha no caminho para espantar espíritos imundos, meninas com pinturas místicas e pouca roupa acompanhavam o novo chefe e chefes de outras vilas vieram para celebrar a posse do sujeito. O trono é hereditário. Após isso, voltei pra casa filmando e os militares quiseram levar minha câmera embora porque eu os filmei. Eles mandaram apagar. Apaguei e segui.

Chegando em casa, almoçamos pão com ovo enquanto todos assistia Maria Du Quartier (Maria do Bairro). A Talia é um grande sucesso na TV familiar marfinense. Interessante é que as pessoas comem com as mãos, mas bebem com talher. Hoje, bebi meu achocolatado numa tigela com uma colher, mas o peixe do jantar de ontem foi com a mão. Pois bem, depois da novela, tira foto de uma das crianças a seu pedido, o que tem como conseqüência imediata o pedido de todas as crianças para que tire foto de cada uma delas sem a reca. Se tem coisa que não falta aqui é criança, então passei um bom tempo nessa atividade.

Outra coisa que se nota aqui é a perambulação sem destino. Todo mundo está na rua o tempo inteiro. Imagino que, com as condições de vivência no país, ficar em casa não seja muito confortável. Onde quer que eu ande, não faltam ruas com crianças brincando no chão sujo, gente vendendo comida perto de amontoados de lixo, roupas estendidas por todo lugar e jovens rapazes perambulando sem destino vestindo camisas dos times europeus.
É tudo muito diferente de tudo que já experimentei e minha expectativa é que o distrito comercial de Abidjan, onde trabalharei, seja tão desenvolvido quanto pareceu nas fotos. Se minhas expectativas se concretizarem, minha higiene pessoal (se tomo banho de balde aqui, tomo banho de pia lá) e meu uso do banheiro (latrina-buraco-fossa é dose) serão estritamente lá. Também, não me importarei em dormir por lá algumas noites.
****
12/12
Já é noite e estou muito feliz! Descobri uma igreja batista por aqui e, o melhor de tudo, fiz cocô numa privada! Fui visitar o outro trainee da AIESEC, que é camaronense e trabalha na mesma empresa em que irei começar na segunda-feira, e a casa dele é bem melhor do que a minha. É espaçosa e não tem tanta gente. Notando isso, decidi jogar um verde e quando estávamos somente eu e Wilfred, o trainee, comentei que a parte mais difícil da adaptação não era a língua nem a casa pequena, mas a parte do banheiro e deixei implícito que não se tratava de banho. Ele me disse que também tomava banho de balde, mas que tinha privada na casa dele. O verde não funcionou, então parti para uma estratégia nada sutil e perguntei “may I poop here?”. Ele disse que sim e me deu um rolo de papel higiênico.

Para padrões brasileiros, o banheiro era uma imundície. Para os padrões daqui e meu estado no momento, agradeci a Deus e quase chorei. A propósito, não havia descarga. Eu tinha era que derramar um balde cheio d’água na privada que tinha lá. Terminado tudo isso, saí com a alma tão leve – dentre outras coisas – que, no banho de agora à noite, cantei de alegria. Ah, o banheiro da empresa é normal, segundo Wilfred. Doravante farei tudo lá e segurarei as pontas no fim de semana.

Engraçado que hoje li Mateus 6 e o verso 34 diz: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”. Deus proveu um banheiro. Agora oro para que ele proveja água potável para que eu possa beber. Não bebo água desde que cheguei aqui. Tomei dois copos de coca-cola em refeições diferentes.

Não obstante tudo isso, a prestatividade da família é surpreendente. Esforçam-se por fazer-me o mais confortável possível. Se faço menção de levar o prato pra bica (pra ser lavado), eles dizem que não e mandam uma das inúmeras crianças levar meu prato. Se trago a água restante do banho, eles reclamam dizendo que é pra eu deixar lá e outra pessoa pega pra mim. Franc me acompanhou pacientemente a manhã inteira enquanto eu estava na lan house e Cherone conseguiu uma família batista pra me acompanhar amanhã ao culto. É incrível. Não se cansam de serem hospitaleiros.

É engraçado que as crianças olham pra mim e riem. Eu digo “salut” e correm rindo. Eu dou um tchau e gargalham. Os adultos também me vêem passando e soltam umas risadinhas. Imagino que pensem algo do tipo: “olha que branco estranho!”.

Mais um dia termina. Mais um mal se foi. Qual será o mal de amanhã?

“Ne vous inquiétez donc pas du lendemain: le lendemainse souciera de lui-même. La Peine qui se presente chaque jour suffit pour la journée.” – Matthieu 6:34

Registro de Viagem à Costa do Marfim: Relato I - A Ida

Registro de Viagem: Costa do Marfim

Relato I – A ida – 10 e 11 de dezembro

Antes de falar do vôo propriamente dito, falarei de por que vim parar aqui. Há algum tempo eu já estava ciente de que precisaria do domínio de outras línguas que não o inglês. Escolhi, então, aprender francês. Estudei um ano de francês nos horários de almoço da faculdade, mas a língua era tão difícil que sabia que só aprenderia adequadamente se fizesse um intercâmbio. Sendo membro da AIESEC, decidi me valer das incríveis oportunidades que essa organização oferece para o desenvolvimento de potencialidades em jovens, daí aproveitei e misturei o intercâmbio lingüístico com o profissional.

Intercâmbio de francês, para muitos, implica necessariamente intercâmbio à França. Bem, essa nunca sequer foi minha opção. Eu queria mesmo era África, que exerce um fascínio muito maior em mim do que a Europa. De início, pensei em ir ao Marrocos, no entanto, surgiu essa vaga de marketing e vendas numa empresa marfinense, a AFCO Courrier Express, e corri logo atrás dela. Em pouco tempo, eu já estava de contrato assinado, passagem comprada para Abidjan (cidade em que ficarei na Costa do Marfim) e com o visto apropriado. Passei o segundo semestre de 2009, então, aguardando ansiosamente o dia da viagem e eis que ele finalmente chegou!

A parte da viagem mesmo foi assim: voei com a TAM de Cumbica pra Galeão, daí mudei para a Air France e fiz a rota Galeão-Charles de Gaulle-Felix Houphoet Boigny. Um parêntese: Relendo Romanos e lendo Edwards, Whitefield e Spurgeon. Finalmente compreendi plenamente a soberania de Deus. Em minhas viagens anteriores em que eu tentava fazer tudo se encaixar nos meus planos, sempre aconteciam imprevistos realmente perigosos do tipo que nos faz perder um vôo. Agora que minha viagem não é mais minha, mas dEle e eu sou apenas o lacaio, os vôos têm sido extremamente suaves e nada fatigantes. As 11 horas entre o RJ e Paris passaram rapidamente. Minhas conexões foram feitas no tempo exato e as turbulências não me incomodaram. Ele está no comando (Rm 8:23). Aliás, o melhor de tudo foi o atendimento cortês que recebi da TAM (inédito em minha experiência) e a prestatividade da Air France. Não carreguei bagagem nenhuma em lugar nenhum! Despachei tudo em São Paulo e só voltei a pegar em Abidjan, não obstante as informações anteriores à viagem dizerem que eu teria de pegar bagagem e despachá-las em todas as conexões.

Saí do RJ às 10h30 e sobrevoei o Atlântico, Portugal, Espanha e, obviamente, a França na ida. Dormi quase tudo. A comida foi excepcional. Entregaram menu e tudo mais. Estando eu habituado com o sanduíche de miolo de pão da TAM e da Gol – ta certo que essa viagem é intercontinental, mas fiquei feliz mesmo assim – maravilhei-me quando tive de decidir qual seria meu prato quente: lasanha quatro queijos ou sauté de boeuf à l’estragon, riz safrané avec carottes Vichy. Claro que escolhi esse último. Quando veio, minha idéia de era coisa muito chique se foi: era só arroz, bife e cenoura. Depois do jantar, dormi o sono dos justos e só acordei mesmo quando passávamos da Espanha à França.

Chegando ao Charles de Gaulle, peguei o ônibus (navette) e o trenzinho e fui para o local apropriado de embarque para Côte D’Ivoire. Mandei um e-mail para minha digníssima e corri pro avião. Sendo o vôo no período da tarde (14h), pude aproveitar melhor a paisagem. Saindo da França, sobrevoamos o Mediterrâneo, passamos pela ilha de Palma e adentramos a África. Olha, a África é maravilhosa. Vi a cordilheira do Atlas e o Saara parece ser infinito. Sabia que era grande, mas passamos uma três horas sobrevoando, dormi e acordei e ainda estávamos no Saara! Quer ter uma idéia esboço do que significa eternidade? Sobrevoe o Saara.

Não somente a paisagem, mas também o vôo foi agradável. Os comissários de bordo da Air France são muito simpáticos e, ao virem meu casaco do Brasil, riram e falaram comigo. Aliás, que língua difícil é o francês! Identifico uma palavra ou outra, mas por vezes tenho de pedir pra que falem comigo em inglês. Sentada ao meu lado foi uma velhinha de Abidjan. Acho que ela tem bexiga pequena, pois contei que ela foi ao banheiro pelo menos 15 vezes (sério mesmo) nos primeiros 90 minutos de vôo (sento no corredor e ela no banco do meio, aí tenho que levantar toda vez). Depois do almoço a velhinha capotou e dormiu tão profundamente que roncou! Aproveitei esse momento em que ela não tinha que ir fazer xixi pra escrever parte do que vocês estão lendo agora.

Chegando ao aeroporto de Abidjan, Feliz Hophouet Boigny, passei rapidamente pelo cheque do visto. De lá fui pegar minha bagagem. Fiquei impressionado com a inconveniência dos sujeitos na bagagem. Muita gente se oferecendo pra ajudar em troca de dinheiro. Eu dizia que não queria e os homens insistiam. Uma moça marfinense que voltava dos EUA falou comigo em inglês dizendo para evitá-los e ela falou em francês com eles e foram embora. Daí, fiquei com ela e seu motorista até o momento de sairmos. Ela disse que a atividade desses sujeitos não era legal, mas que eles davam parte do dinheiro para os guardas e por isso tinham entrada permitida. A corrupção na África é endêmica.

Saindo do aeroporto, encontrei os rapazes da AIESEC e pegamos um táxi em direção ao local em que eu ficaria.

“Soyez donc parfaits, tout comme votre Père qui est au ciel est parfait” – Matthieu 5:48

PS: Não tenho acesso à internet em casa (nem a água encanada, ou privada, ou fogão a gás, ou chuveiro). Família, fique tranquila seu eu não puder falar com vocês o tanto que gostaríamos. Farei de tudo para dar sinal de vida. Abraços a todos.


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sono dos justos


Peguei ontem a Carta Capital em que figurava o presidente do Irã e abri na reportagem de capa, de autoria de Antonio Luiz Costa, que tinha como headline (não sei se é o termo certo): “O regime de Khomenei e Ahmadinejad no Irã é autoritário, mas não primitivo, nazista ou louco”.

Pra justificar isso, Antonio Costa enche a reportagem de estatísticas (confiram aqui). Engraçado que esse pessoal não aceitaria esse tipo de argumentação na defesa, por exemplo, do período militar brasileiro, que foi muito mais mole e condescendente do que os de nossos vizinhos e ainda cresceu-se alguma coisa. Longe de mim defender autoritarismo, mas autoritarismo por autoritarismo, é mais fácil defender os generais do que um cara que abertamente apregoa a varredura de Israel do mapa e negou a existência de homossexuais em seu país (tomou as dores?).

Essa de “é autoritário, mas não louco e blábláblá” soou-me algo como “ele só espanca velhinhas, não é como se ele estuprasse crianças, odiasse negros e praticasse sacrifícios humanos”. Também, essa história de Ahmadinejad e programa nuclear é tal qual a do sujeito com antecedentes criminais a quem todos se recusam a vender um rifle, não obstante seus mais efusivos esforços em garantir que é apenas para caça esportiva.

Entretanto, cansado em ser o “do contra” e o “intrasigente” da turma, entro no clima: Ah, bom! Ufa! Ele é só autoritário, viu, gente, não que ele seja louco ou algo do tipo.

Graças ao Tonho da Carta, agora dormirei o sono dos justos.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O Dia Em Que Financiei o Crime


Essa história já é velha conhecida de familiares e amigos próximos, contudo, estimulado por esses mesmos familiares e amigos próximos, decidi finalmente registrá-la nesse antro de textos de assuntos variados e desconexos. Pois bem.

Esse ocorrido deu-se na época do cursinho. Estava eu caminhando para a aula por volta das 06h00 da manhã, horário esse em que as ruas na Bela Vista começam a ter alguma circulação e as padocas ainda não abriram completamente, quando dois homens, um portando uma bolsa esportiva de mão e outro um imponente pedaço de forma de forma cilíndrica passavam pela calçada. Absorto em meus pensamentos, esses dois senhores me abordaram. “Mano” – começou um deles – “encosta aí no muro e não tente nada de esperto porque eu tenho essa barra e meu amigo ta com uma treizoitão na bolsa”. Na hora, o medo e a surpresa que me acometeram me deixaram de tal forma paralisado que, sinceramente, a recomendação do rapaz poderia ser considerada altamente dispensável.

Pediram-me dinheiro e tentei jogar uma conversa estilo “pô, cara, sou estudante e só tenho o do almoço”, mas isso não pareceu sensibilizá-los. Um deles – o da bolsa – só disse para que eu deixasse de conversa e entregasse logo o dinheiro. Foi aí que minha sorte mudou. O outro homem – do ferro – notando meu sotaque, perguntou: “De onde vens?”. “Do Ceará” – respondi. Se é verdade que nossa expressão espelha a do próximo, minha boca abriu-se em um grande sorriso, porque o do ferro disse, cheio de alegria, “eu também!”. Aproveitei a chance e comecei um papo com o sujeito.

Após descobrir para qual time ele torcia (Icasa) e que ele estava juntando dinheiro pra retornar à terrinha, ele me revelou que era de Tauá. “Que coincidência!” – menti – “minha família é toda de lá!”. Uma vez caído na graça do assaltante meu conterrâneo, descobri que o outro era de Feira de Santana, BA. Para minha fortuna, meu sobrenome, Cerqueira, abunda em Feira de Santana. Fi-lo saber meu sobrenome e iniciei uma conversa com ele também.

Após um agradável momento de confraternização entre nordestinos, fingi-me preocupado com o ramo de, digamos, atuação profissional que eles haviam escolhido. “Mas gente, é tão perigoso esse negócio de sair por aí assaltando. Se a polícia pegar, eles matam, porque policial não vale nada”. Essa minha conversa mole em busca de empatia deu certo, mas eles responderam de modo bem diferente ao que eu esperaria dizendo que estavam no ramo e “era isso mesmo”. Após isso, descreveram todas as atrocidades que fariam com o policial que os pegasse e, num momento total de conexão entre nós, eles gentilmente ofereceram seus serviços. “Como assim?” – perguntei. “Se alguém incomodar, é só chamar que com cinquentinha a gente põe o hômi pra dormir”. Lisonja nas alturas.

Por fim, eles disseram que, como eu era “um deles”, eles não iriam me roubar, mas que levariam apenas uma contribuição. Após dar R$2 a cada um deles, eles me disseram que usariam o dinheiro pra completar a passagem de metrô pra ir fazer uma correria lá na Sé.

E essa, pessoal, é a tal história de quando eu indiretamente fui cúmplice e financiador do crime. Esse também foi o último dia em que passei pela 14 bis.